A TVI foi conhecer a pequena aldeia de Covide, no Gerês, para ver como se sobrevive ao confinamento numa terra com pouco mais de 300 habitantes. E como lida o povo com as notícias que chegam de fora sobre o vírus?

Covide até pode lembrar o nome de um adversário feroz, mas não é por isso que deixa de ser dura.

A manhã entrega ao dia o frio do inverno. Chove copiosamente. O sino já não chama os fiéis para os deveres da cristandade. Nada que apoquente Carlos Estaca. É na serra que conversa com o Divino. Lhe pede um sinal. Pastor há 40 anos, começou desde os 4 a guardar cabras. Conhece os montes como ninguém: “Gosto delas. É a minha paixão. Também gosto do gado, mas é delas que eu gosto”.

Em terra de gente brava, há uma espécie de cessar-fogo forçado, sem nunca baixar a guarda. A pandemia afetou-lhe o negócio. Nas horas de maior susto prossegue caminho, sem olhar para trás: “Olhe, sabe o que lhe digo, é como a cantiga, mais vale só do que mal acompanhado, é só que lhe digo”.

Quem sabe escutar o que sai dos montes vai até onde quer ir. O olhar pressente quem chega de fora. Inês Marta obedece a uma lei só dela. Sente o grito que sai da terra. É como um chamamento: “O meu telhado é o céu, o meu telhado é o céu. O vírus?  Não quero saber dele, se me vier bater a porta é uma coisa, mas não quero saber dele.”

É como se não quisesse pensar em nada. Há o risco de despertar demónios. Passa os dias no campo. É por lá que caminha como um espírito dentro, livre. O orgulho é forte, não quer que lhe descubram o mundo.

Covide luta com todas as forças que tem. E quando abre o olhar para o monte assiste à vida. A linguagem pura da serra dá-lhe força, a mesma força que a castiga nos invernos.

Numa terra pequena, a vida de um é sempre de todos. Nestes dias, uma tarefa tão simples como distribuir o pão, assume uma tarefa gigante. João Brito conhece cada um dos 300 habitantes da aldeia: “Já nos conhecemos há muitos anos. Eu sei quando as pessoas estão bem ou mal. Já temos confiança. Elas ajudam-me e eu a elas. É uma população muito idosa. Algumas nem sabem usar cartão. Às vezes trato-lhes da reforma, vou à farmácia”.

Assim corre a vida em Covide. A pandemia tirou os turistas e os clientes à mercearia e ao café de Maria Eiras. As horas passam lentas, demasiado lentas. "Passo aqui, esperando por um cliente uma hora, depois vem outro, e é assim. Temos que aguentar".

Não olha com ressentimento para o evoluir dos dias, mas gostava que o relógio marcasse o compasso de outros tempos, aqueles em que não sentia as horas passar: “Foi-se tudo embora. Desapareceu tudo”.

Como prosperar em tempos de crise numa terra pequena, gerar negócio? Miguel Oliveira de 19 anos e as irmãs, Margarida e Mariana, de 21 e 22, querem ficar no Gerês a cuidar do negócio da família. Fora da terra, as perspetivas de futuro são poucas e o amor à terra é grande: "Não podemos desistir por causa da pandemia", diz Mariana. “ Até é bom ficar aqui, se não os jovens vão todos embora da aldeia”, desabafa Margarida. “Onde é que me vejo daqui a um ano? Aqui” refere Miguel…

Vêm aí melhores dias? Todos o desejam. Uma coisa é certa: Covide não encara a vida numa aflição nem num desamparo.

 

Carla Rodrigues