Inácio Fiadeiro foi uma mente brilhante no mundo da psicologia, casado com a atual secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias, de quem teve dois filhos. Mário Soares foi padrinho de casamento. Hoje, é sem-abrigo à procura de um caminho. A história de Inácio deu o mote para o debate “Ana Leal” desta semana, sobre a condição dos sem-abrigo.

Marco também foi sem abrigo. O alcoolismo prendeu-o 10 anos à vida nas ruas. Hoje, apoiado pela associação Crescer, tem uma casa própria onde está a começar a reconstruir a sua vida.

O mais difícil foi tentar arranjar trabalho”, confessou. “Eu trabalhava na construção civil e perdi tudo por causa do álcool”.

Depois de ficar sem trabalho e sem família foi atirado para as ruas, onde passou 10 anos. Ao longo desses 10 anos esteve em dois albergues. Um deles, explica, “não tinha condições de higiene nem de segurança”.

Mesmo a dormir, roubavam tudo. Eu tinha que pôr o dinheiro debaixo da minha cabeça”, contou Marco, referindo-se a um dos albergues onde esteve, que dava abrigo a quase 300 pessoas.

Para Américo Nave, diretor executivo da associação Crescer, este é um dos problemas. “É muito difícil gerir uma habitação com 200 ou 300 pessoas”, esclarece.

As respostas devem ser muito mais individualizadas e não em massa”, afirmou. Para isso, insiste que é necessário acabar com “o mito de que os sem-abrigo não querem sair da rua. Todas as pessoas querem ter uma casa”.

A resposta ao problema não é tão simples como se possa pensar. Para Henrique Joaquim, diretor geral da Instituição Vida e Paz, é muito fácil “falhar numa realidade tão complexa”. Para Henrique e para António, a resposta para estas situações tem que ser muito mais personalizada.

O fundamental é compreender porque é que as pessoas não se adaptam e quando não se adaptam, tentarmos perceber qual a resposta adequada”, sublinhou Henrique Joaquim.

O vereador dos direitos sociais da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Manuel Grilo, afirmou querer retirar todas as pessoas da rua até 2021. Mas será que esse cenário é exequível?

Para Paulo Santos, diretor do departamento de direitos sociais da Câmara Municipal de Lisboa, a proposta é “muito ambiciosa” e admite não saber “se é possível”, no entanto, garante que o que é possível é a Câmara Municipal de Lisboa criar condições de resposta face à necessidade de cada pessoa que está em situação de sem-abrigo”.

Iremos construir melhores respostas se ouvirmos mais todas as partes envolvidas”, afirmou.

/ JR