O desabafo é feito por Sílvia Dias, mãe de Elaine, pouco tempo depois de aterrar na Alemanha, na presença da equipa de reportagem da TVI:

Nunca pensei ter de vir para a cidade de Bonn, para encontrar o corpo da minha filha. É uma grande mágoa que eu sinto, é uma tristeza profunda.”

Palavras duras que precisam, no entanto, de um recuo no tempo para serem entendidas. Depois de vários meses internada, em março deste ano, a Segurança Social alemã entendeu que Elaine devia sair do hospital. Sem condições de estabilidade psicológica na casa do pai, as assistentes sociais consideram que a melhor alternativa seria uma instituição que recebesse adolescentes.

E foi esta que encontraram, a 150 quilómetros de Bonn, muito longe. Mas a Elaine gostou, porque tinha cavalos, ia aprender equitação, e tinha gatinhos lá dentro. Partiu para lá no dia 6 de março”, confidencia a avó, no caminho para a instituição onde espera conseguir explicações sobre o desfecho fatídico da vida da neta.

Ainda antes de lá chegar, Maria Helena conta à TVI que, apesar da alegria inicial, a neta começou a dar novos sinais de angústia poucas semanas depois de se ter mudado. Os desabafos ficaram registados, também, no diário da adolescente:

Querido diário, a excitação de viver num lugar novo passou. Não estou autorizada a fazer nada, por causa do coronavírus. Aconteceu também que, depois de deixar a clínica e os meus amigos, apercebi-me que só consigo fazer amizade com pessoas com os mesmos problemas do que eu, enfim, pessoas com problemas.”

Chegadas à vila de Velbert, à porta do centro de jovens, mãe e avó encontram um funcionário que, informalmente, confirma a versão dos factos que lhes foi contada a mais de 2.300 quilómetros de distância: a 17 de maio deste ano, um domingo e dia do falecimento de Elaine, grande parte dos adolescentes que ali residem estiveram a brincar, na rua, a um jogo que envolveria danças e cordas.

O problema é que ninguém se apercebeu que ela levou uma corda para o quarto. E foi com uma dessas cordas que ela fez o que fez”, relata a avó, emocionada, à TVI.

Maria Helena não se conforma com o facto de a neta ter posto termo à própria vida. Entre lágimas e lamentos, no átrio da instituição, o funcionário que a recebeu explica-lhe que a falta de medicação “foi uma das razões para que as coisas corressem mal”.

O mesmo anteviu a pedopsiquiatra que acompanhava Elaine em Portugal. Através de uma declaração médica, Maria de Lurdes Candeias alertou que a jovem deveria ser medicada diariamente, por poder colocar em risco a própria vida.

Não era só o pai, mas também o hospital. Diziam que não era necessário”, explicou à mãe e avó o funcionário da instituição, relativamente ao facto de Elaine nunca ter tomado qualquer tipo de medicação durante os dois meses de estadia naquela casa.

Gameiro Fernandes, advogado da mãe, denuncia que, quando foi internada no hospital, “logo desde o princípio, a Elaine esteve numa ala sem medicação, porque o pai não queria que ela a tomasse. Aquilo era terapia pela música, coisas inimagináveis do ponto de vista da psicologia ou da psiquiatria”.

A falta de medicação, enquanto esteve à guarda do pai, parece ter propiciado uma degradação fulminante do estado de saúde de Elaine. Porém, as falhas na proteção da vida da jovem, na Alemanha, não terão ficado por aqui. A TVI visitou o quarto onde a adolescente esteve alojada no centro de jovens, em Velbert. No teto, existem vigas de madeira com espaço entre a barra e a placa de betão, circunstância que faz daquele espaço um local sem condições para uma criança com doença mental. Prova disso mesmo é o facto de a direção do centro de ter feito obras no quarto de modo a eliminar o perigo, logo após a morte de Elaine.

Perante as novas revelações, mãe e avó quiseram questionar porque é que a Segurança Social alemã escolheu aquela instituição para Elaine. No escritório da CPCJ alemã, em Bonn, foram recebidas por uma técnica que garantia que “a instituição é boa”, mas que subitamente decidiu interromper a reunião: “eu não falo convosco sobre a instituição”.

Ana Luísa Conduto, psicóloga, é peremptória na avaliação que faz de uma situação como esta:

Uma coisa é alguém que nunca deu sinais, outra coisa é quando estamos a falar de casos em que há um historial, em que já houve outras tentativas de suicídio. Aí, teve de falhar muita coisa. Se era 100% evitável? Não sabemos.”

Convictas de que, tanto a CPCJ alemã como a portuguesa, e também o tribunal de Cascais cometeram uma série de erros, em cadeia, que conduziram à morte de Elaine, mãe e avó instauraram processos-crime contra os Estados português e alemão, e ainda um às técnicas da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Cascais.

Paralelamente, logo após a morte, a mãe, Sílvia Dias, pediu ao tribunal alemão que autorizasse a realização do funeral em Cascais, terra onde nasceu e cresceu Elaine. Porém, o juiz recusou, alegando que, à altura do falecimento, a guarda pertencia ao pai.

A coisa mais recente que aconteceu é que ficámos a saber que o pai proibiu que alguém desse a conhecer a data e o lugar do funeral”, desabafa, inconsolável, a avó.

Impedidas de assistir às cerimónias fúnebres de Elaine, dois meses depois, na viagem acompanhada pela TVI, as duas dirigiram-se ao cemitério de Bonn. Com a ajuda da advogada que representa a família materna na Alemanha,  depois de muita procura, encontraram a sepultura de Elaine.

Num momento de emoção extrema, as poucas palavras que a avó conseguiu proferir são reveladoras da determinação em relação à memória da neta.

Eu tenho 81 anos. Eu já não estarei cá por muito tempo, mas enquanto eu tiver um sopro de vida, eu lutarei por justiça, porque a minha neta assim queria.”

Entre a justiça de que fala Maria Helena, está a luta pela trasladação do corpo da jovem, mesmo após o funeral. Gameiro Fernandes, o advogado da mãe, informou a TVI de que o pedido se encontra, até agora, sem qualquer resposta.

Emanuel Monteiro