Coincidência do destino, ou prenúncio da vida que viriam a partilhar, Ermelinda e Alfredo caminham juntos há tempo suficiente para terem passado por uma guerra mundial, uma ditadura e agora, pela covid-19. Que também, juntos, enfrentaram e venceram.

Nascidos no mesmo dia, do mesmo mês, do mesmo ano, a 29 de janeiro de 1924, na mesma cidade, Póvoa de Varzim, cruzaram-se aos 16 anos, e desde então, mais de oito décadas depois, nunca mais se largaram. 

Construíram uma família, com os alicerces do amor como base. A esta data, são três filhos, seis netos, nove bisnetos e até um trineto. 

Contam à nossa reportagem, que nem sempre foi fácil. Ermelinda teve, na sua mãe, uma opositora, no momento de trocar juras de amor com Alfredo. 

Sinal da época, a mãe queria casá-la com um homem rico, mas Ermelinda não tem dúvidas, e com a ternura que carrega no olhar, entrega-nos uma lição de vida, "O dinheiro, a gente trabalha se puder e tiver saúde, agora o amor... não se compra".

O amor entranhou no coração, e nunca mais saiu...", continuou. 

Lúcidos do amor que nutrem, um pelo outro, Ermelinda e Alfredo, estão também conscientes do momento que o mundo enfrenta. 

É uma tristeza muito grande. Um vírus que entra em nós, e mata tanta gente. Tenho rezado tanto", confidenciou a "eterna namorada" de Alfredo.

Este casal, de 97 anos, esteve infetado com covid-19, mas quis o destino, que o vírus não levasse a melhor perante estas duas forças da natureza. 

Assintomáticos e tranquilos, foi assim, que enfrentaram o novo coronavírus. 

Ficámos muito preocupados, porque a minha mãe tinha estado com pneumonia, e o receio do que a covid-19 pudesse fazer à sua saúde, foi muito. O meu pai, graças a Deus, tem muita saúde. Correu tudo bem", afirmou, com alívio, Maria das Dores Milhazes, filha do casal. 

No momento de apontar um dos segredos para a longevidade deste casal, não restam grandes dúvidas, "É o amor! E a paixão que eles ainda sentem um pelo outro... O meu pai não pode estar sem a minha mãe durante cinco minutos, fica logo muito ansioso", contou Maria das Dores.

Ermelinda e Alfredo são a alegria do Lar da Santa Casa da Misericórdia da Póvoa de Varzim. 

Os funcionários da instituição contam que, ele, "gosta muito de ver as meninas mais novas, e é um cavalheiro. Nada o deixa mais feliz, mesmo aos 97 anos, que vestir um fato e colocar uma gravata". Quanto a Ermelinda, "é a definição de ternura, dos miminhos, da arte de contar histórias"

Este casal é o exemplo de que, num momento em que a morte está na ordem do dia, a vida continua a acontecer...

Enfrentem, tenham coragem e peçam a Deus, porque ele nunca deixa de nos proteger, podem crer", aconselhou a "menina dos olhos" de Alfredo.

Diogo Assunção