Portugal entrou no primeiro confinamento a 20 de março de 2020, precisamente há 328 dias e, desde então, nunca nada voltou a ser igual.

Aprendemos o significado de “distanciamento social”, passámos a comunicar através de videochamadas e as nossas casas transformaram-se em escolas, escritórios e ginásios.

Numa altura em que o país volta a fechar, a TVI acompanhou o dia-a-dia de três famílias que reaprendem a viver, 24 sobre 24 horas juntas em tempos de pandemia.

Os Fura 

Na casa dos Fura vive o pai Paulo, a mãe Ana, a Mafalda de 15 anos e o Miguel de 12. Os desafios de viver num T2 com quatro pessoas fechadas em casa são vários, principalmente numa altura em que o teletrabalho e as aulas à distância viraram rotina.

“Eu nunca gostei de fazer aulas online porque é um bocado difícil, principalmente porque a internet ultimamente anda sempre a cair”, diz-nos Miguel que retomou as aulas, como muitas outras crianças, no início desta semana.

Numa casa fechada a sete chaves, o medo ganha forma na hora de ir ao supermercado, é que todos sabemos que este vírus não pede licença para entrar.

Os cuidados são mais que muitos, as saudades dos amigos são compensadas com jogos online e a esperança é aquilo que mantém unida esta família.

“O povo português é um povo de afetos, de emoções, de sentimentos. Somos os únicos no mundo que temos no nosso vocabulário a palavra “saudade”. Perdeu-se o contacto físico, perdeu-se os beijos, os abraços”, confessa Ana em entrevista à TVI.

Os Alexandre 

Jaks perdeu a conta às horas que passa no Quartel de Bombeiros de Camarate é que, para quem está na linha da frente, o local de trabalho tornou-se segunda casa. Com um filho de apenas 10 anos, esta mãe solteira divide-se entre o tempo em família e a missão de ajudar quem mais precisa.

“Agora com o confinamento estamos trancados no quartel novamente. Eu sou grata por ter a ajuda de toda a minha equipa. Quando eu estou ausente há sempre alguém que me ajuda com ele”, explica-nos a bombeira.

Numa altura em que o país atinge números históricos no que toca ao combate da covid-19, o trabalho não dá folga e a rotina de Chris altera-se: os dias são passados numa escola de acolhimento e as noites a dormir no quartel de Camarate.

Para a criança, o quartel “é como se fosse uma casa normal, só que tem mais pessoas. Eles [os bombeiros] ajudam-me a fazer a cama”.

Os Pereira 

Por esta altura são várias as famílias que já contactaram de perto com o vírus e os Pereira não foram exceção. As dores de cabeça e a tosse vieram comprovar o esperado: a filha de Daniel testou positivo para a covid-19.

“Preocupamo-nos bastante com a minha mãe porque é uma pessoa idosa, 77 anos, diabetes tipo II, doença cardíaca. Esperámos pelos exames e a minha mulher deu positivo, as filhas positivo e os últimos a fazer fui eu e a minha mãe” relata Daniel.

O resultado de Daniel e da mãe, que vive com a família, veio negativo e perante um possível risco de infeção a escolha mais segura era uma separação forçada. Foi com este cenário, o do medo, que Daniel saiu de casa numa verdadeira corrida contra o vírus.

“Eu nem tive tempo de fazer a mala. Peguei em três sacos com a roupa da minha mãe e eu enchi dois sacos com coisas, o portátil para poder trabalhar e fugimos. Estamos acantonados na casa da minha mãe” confidencia-nos Daniel.

Apesar de estarem os dois negativos permaneceram em confinamento durante mais de 14 dias, não fosse o vírus trocar-lhes as voltas. A sala de estar tornou-se escritório das nove às cinco e quarto durante a noite. Naquela pequena casa, foi pela janela que lhes chegou muitas das encomendas que permitiram com que estivessem verdadeiramente confinados.

“Saudades de casa? Claro que eu tenho saudades de casa, apesar de estar com a minha mãe não é a mesma coisa. Tenho saudades das minhas filhas, daquelas discussões, de chateá-las”, explica o pai da família Pereira.

Numa altura em que o jornalismo enfrenta desafios resultantes da situação pandémica que vivemos, esta é uma grande reportagem gravada com telemóveis pelos vários elementos destas famílias, com a verdade e o lado mais genuíno de quem vive dias únicos.

Márcia Sobral