A exposição dedicada ao fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe, no Museu de Serralves, no Porto, que motivou a demissão do diretor artístico João Ribas e está a gerar polémica, recebeu, desde a sua inauguração, na quinta-feira, cerca de 6.000 visitantes.

Composta por 159 fotografias, apresenta nus, flores, retratos de artistas como Patti Smith ou Iggy Pop e imagens de cariz sexual. Estará em exibição até 6 de janeiro do próximo ano.

A demissão do diretor artístico do Museu de Arte Contemporânea de Serralves surgiu depois de a administração ter limitado a maiores de 18 anos uma parte da exposição, comissariada pelo próprio João Ribas, e ter imposto a retirada de algumas obras com conteúdo sexualmente explícito.

No entanto, apenas duas fotografias e não 20, como foi avançado por João Ribas, foram excluídas da exposição, garantiu o presidente do Conselho de Administração da Fundação Mapplethorpe, Michael Ward Stout.

À entrada de uma das salas da exposição está uma placa com a indicação: “Dado o caráter sexualmente explícito de obras expostas nesta área, o acesso à mesma é reservado a maiores de 18 anos e a menores acompanhados dos respetivos representantes legais”.

Contudo, num primeiro aviso, lia-se afixado na porta: “Alertamos para a dimensão provocatória e o caráter eventualmente chocante da sexualidade contida em algumas obras expostas. A admissão nesta sala está reservada a maiores de 18 anos”.

Em comunicado, o Conselho de Administração da Fundação de Serralves esclareceu que "não retirou nenhuma obra da exposição""todas elas escolhidas pelo curador", João Ribas.

A administração acrescentou, ainda, que, "desde o início, a proposta da exposição foi apresentar as obras de cariz sexual explicito numa zona com acesso restrito", considerando "que o público visitante deveria ser alertado para esse efeito, de acordo com a legislação em vigor".

Na sequência desta decisão, dezenas de pessoas manifestaram-se, no domingo, para exigir a demissão do Conselho de Administração da Fundação de Serralves.

Contra a proibição

A Associação Portuguesa de Museologia (APOM) manifestou-se hoje contra a decisão de Serralves em proibir o acesso à exposição a menores de 18, por considerar que um museu é um lugar público, livre, não apenas para alguns e muito menos cenário para o exercício de qualquer forma de censura.

Nós somos totalmente contra esta proibição. O museu é um lugar público, e deve ser de entrada livre para todos. Deve é ser colocado um aviso visível de que o conteúdo das imagens pode chocar. É uma tonteira e, à partida, as obras em exposição são para a fruição de todos", defendeu o presidente da APOM, João Neto, citado pela Lusa.

Para a associação que representa os museus nacionais, "não faz sentido fazer exposições só para algumas pessoas, e não para outras". "As exposições são para todos", sublinhou, acrescentando que essas situações "podem dar lugar a todo o tipo de censura e radicalismos".

No caso de imagens explícitas, quer de conteúdo sexual, violência ou outras, o que deve ser feito é um aviso ao público, que deve decidir por si", sugeriu, acrescentando que uma interdição "ainda faz menos sentido num museu que é público e tem o seu financiamento em grande parte proveniente do Estado".

João Neto indicou que a APOM vai reunir-se hoje sobre esta situação e enviar na terça-feira uma carta ao Ministério da Cultura para que o caso da interdição seja abordado no Conselho de Museus da tutela.

A situação deve ser devidamente esclarecida", defendeu.

Mapplethorpe no mundo

Antes da inauguração da exposição, o diretor do museu de Serralves descartava eventuais polémicas, lembrando que as fotografias de Mapplethorpe, “uma das grandes figuras da fotografia” e “um artista conceituado que continua a ser influente na fotografia contemporânea”, foram já mostradas em dezenas de museus no mundo inteiro.

Houve muitas exposições com milhares de visitantes e acho que é uma das grandes figuras da arte contemporânea, não consigo fazer essa projeção [sobre se as imagens poderão chocar]”, assumiu, lembrando que uma exposição tem sempre a função de despir o público de preconceitos.

Para o presidente do Conselho de Administração da Fundação Mapplethorpe, Michael Ward Stout, a demissão de João Ribas foi “completamente inapropriada e pouco profissional”, revelando ter ficado “chocado com a atitude” do comissário da exposição.

O João ligou-me e avisou que se ia demitir, mas provavelmente apenas quando acabasse a exposição, ou seja, daqui a alguns meses. Conversei hoje e ontem [domingo] com a direção, que, realmente, tentou resolver com ele o problema. Mas tudo isto aconteceu tão rápido, de forma tão dramática, que devo confessar que o facto de ter anunciado a sua demissão aos meios de comunicação antes de anunciar à direção, representa uma atitude muito egoísta da sua parte”, disse Michael Ward Stout aos jornalistas, durante a sua visita a Serralves.

Questionado sobre o acesso restrito a menores de 18 anos, a duas salas da exposição, o diretor da Fundação frisou que a administração “apenas não queria que as fotografias mais desafiantes e ‘chocantes’ estivessem na galeria principal”.

Muitos museus por onde a exposição já passou pegaram nestas desafiantes fotografias e puseram-nas em diferentes espaços, colocando avisos semelhantes a estes. Nós [fundação] nunca impusemos a visão que temos sobre esta exposição a nenhuma entidade”, sublinhou.

Quanto à retirada de cerca de 20 fotografias que pertenciam à exposição, Michael Ward Stout desmentiu o número, admitindo que as fotografias “mais desafiantes estão presentes” no museu e que João Ribas “apenas removeu duas”.

Não sei porque é que o João retirou as fotografias, não faz sentido nenhum. Não sei porque o fez, e porque o fez desta forma”, acrescentou.

Em representação do Conselho de Administração da Fundação de Serralves, Isabel Pires de Lima, antiga ministra da Cultura, disse aos jornalistas que a escolha das peças da exposição foi "inteiramente da autoria do João Ribas", que sabia, desde o início, que haveria, se necessário, zonas reservadas, como de resto aconteceu em muitos museus do mundo.

O João Ribas escolheu o que quis e a partir do momento em que escolheu muitas obras com conteúdo sexual explícito foi necessário criar uma zona de reserva, de que ele tinha conhecimento desde sempre", assegurou, dizendo não saber porque razão o curador deu uma entrevista onde afirmou que não haveria zonas condicionadas.