Francisco foi a primeira criança em Portugal infetada com covid-19 a desenvolver sintomas semelhantes aos da síndrome de Kawasaki. Tinha 13 anos quando, em abril do ano passado, foi infetado com o vírus SARS-CoV-2 e a infeção acabou por lhe afetar o sistema circulatório. Estava em coma induzido, nos cuidados intensivos do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, quando o fotojornalista Rodrigo Cabrita começava a percorrer aqueles corredores para retratar os efeitos da pandemia nos hospitais de Lisboa.

A enfermeira que me acompanhava ainda me estava a fazer uma espécie de briefing. Eu nem sequer estava ainda equipado. Só tinha a máscara. Quando olhei para o quarto, através daquele vidro, e vi outra enfermeira a acarinhar aquela criança, quis logo retratar aquele momento. Esta imagem é também uma homenagem aos profissionais de saúde: aqueles enfermeiros, apesar de estarem dentro daqueles fatos desconfortáveis, não deixavam de, com aquelas luvas amarelas que aparecem na fotografia, acarinhar os doentes”, recorda Rodrigo Cabrita, em entrevista à TVI24.

Enquanto a enfermeira de fazia festinhas na cabeça, Francisco soltou uma lágrima. E isso ficou registado pela lente de Rodrigo Cabrita. A criança estava sedada e Rodrigo sabe que a lágrima não era consciente. Era apenas uma reação do corpo à medicação que lhe estava a ser administrada.

Ainda assim, o fotojornalista vê, naquela imagem, um “enorme simbolismo”:

Resume tudo o que vivemos desde março. As lágrimas de tristeza choradas por muitas famílias, as lágrimas de muitos profissionais de saúde… E depois, há lágrimas de alegria, como é o caso da família do Francisco, em que tudo acabou por ficar bem.”

Rodrigo Cabrita não perdeu o contacto com a família do protagonista desta imagem e sabe que a criança está ainda a recuperar, mas a evoluir bem e não deverá ficar com sequelas.

Lágrima premiada

Só quando já estava em casa, a tratar as fotografias captadas no dia, Rodrigo se apercebeu da imagem que tinha em mãos e do seu potencial simbolismo. Sem grandes pretensões, pediu autorização ao Centro Hospital Universitário de Lisboa Central (CHULC) e aos pais de Francisco para submeter a imagem a um concurso internacional de fotojornalismo. Foi agraciado com um Award of Excellence, no concurso de fotografia PoY – Pictures of the Year Internacional, na categoria de Spor News.

Não procuro notoriedade. Só fazer o trabalho que sempre fiz e que me preenche. Em relação a esta fotografia, gostava que pudesse passar o sofrimento que a doença provoca. Que a doença está cá e existe. Há pessoas que sofrem com isto. Gostava que esta fotografia servisse para alertar para os cuidados que devemos ter. Gostava que servisse para homenagear os profissionais de saúde. O Francisco foi um herói, mas as pessoas que cuidaram dele também.”

Os dias passados nos corredores do Hospital Curry Cabral, do Dona Estefânia, do Santa Marta, dos Capuchos, do São José e da Maternidade Alfredo da Costa alertaram Rodrigo Cabrita para a importância de outras personagens com relevo na história da pandemia. “A gente fala sempre dos médicos, dos enfermeiros, dos auxiliares… mas também é justo falar das equipas de manutenção, das cozinhas… Também eles estão na linha da frente!”, sublinha.

E é também para esses profissionais que Rodrigo Cabrita encaminha esta distinção internacional.

O projeto por trás da imagem

O projeto que conduziu a esta fotografia, nasceu de uma intenção mútua do fotojornalista e da administração dos CHULC de fazer “uma espécie de memória” dos tempos atípicos que se começaram a viver em Portugal em março do ano passado. “O objetivo era fazer um livro, até agora não se concretizou por falta de apoios”, revela Rodrigo Cabrita.

Quando, depois de mais de um mês isolado em casa com a família, avançou para o terreno, o jornalista sabia os perigos que corria: “Sabia que corria o risco de me infetar, de trazer o vírus para casa e infetar a minha mulher e as minhas filhas. Mas senti que precisava de fazer aquilo.”

Agora, um ano depois, entre os agradecimentos “ao CHULC, aos profissionais de saúde e aos pais do Francisco, que permitiram que a imagem do filho servisse para este simbolismo”, Rodrigo recorda também as dificuldades que o trabalho implicou:

Estar dentro de um fato daqueles parece que estamos a entrar dentro de um filme. A comunicação é muito difícil. Os óculos de proteção ficavam embaciados com o suor. É um calor enorme ali dentro. Às vezes, confiava simplesmente no instinto, porque nem sabia muito bem o que estava a fotografar. Depois era todo o processo de fazer o isolamento da máquina e de todo o material. Deixava tudo, incluindo a roupa fora de casa.”

Rodrigo Cabrita, a trabalhar como freelancer, continua a retratar a pandemia em Portugal. Recentemente, documentou o trabalho dos profissionais luxemburgueses no Hospital do Espírito Santo, em Évora.

Manuela Micael