O antigo administrador da Doyen Sports, Nélio Lucas, afirmou, nesta quarta-feira, que o fundo de investimento “nunca” esteve disponível para pagar a tentativa de extorsão imputada a Rui Pinto para travar as publicações de documentos no Football Leaks.

No depoimento que ainda decorre na 21.ª sessão do julgamento, Nélio Lucas abordou os contornos dos contactos com Artem Lobuzov, o nome supostamente utilizado por Rui Pinto na troca de mensagens com o empresário e que teria estabelecido uma verba “entre 500 mil e um milhão de euros” para colocar um ponto final na divulgação na Internet de informação confidencial do fundo de investimento.

Nunca tivemos intenção de pagar, como se veio a ver. Tive de continuar a responder para ganhar tempo, porque havia uma paragem das publicações, e depois para tentar saber quem era”, observou Nélio Lucas, salientando que, apesar do nome aparentemente russo, o email estava em português e “bem escrito”.

Foi na sequência dessas mensagens que se realizou o encontro na estação de serviço da autoestrada A5, em Oeiras, em 22 de outubro de 2015, entre o administrador da Doyen, o advogado Pedro Henriques – que operava como ‘braço direito’ - e o advogado Aníbal Pinto, em representação de Artem Lobuzov. A este respeito, Nélio Lucas confirmou também que foi ele próprio a escolher o local para a reunião e não a Polícia Judiciária (PJ), que entretanto já estava a par dos contactos e que já tinha recebido queixas da Doyen e do próprio empresário.

É o senhor Artem que sugere que a extorsão seja intermediada por advogados, o que deve ser inédito. Era uma situação tão atípica que me socorri de Pedro Henriques para perceber quem era esta malta e o que queriam”, referiu, sem deixar de mencionar que o encontro presencial “surge após insistência da outra parte”, que tinha mostrado “urgência”.

Sem esconder que teve “alguma esperança” em encontrar-se com Rui Pinto, Nélio Lucas revelou até que durante a conversa com Aníbal Pinto chegou a suspeitar de que fosse o advogado que estivesse na posse da documentação da Doyen. Segundo a testemunha, “Aníbal Pinto sabia de tudo o que se estava a passar” e que ele “até sugeriu pagar-se metade do menor valor”, ou seja, 250 mil euros em vez de uma verba entre 500 mil e um milhão.

Ato contínuo, o antigo administrador da Doyen disse que o representante de Artem Lobuzov no encontro – e também arguido neste processo – queria que lhe pagasse honorários de 300 mil euros e que foi dele a ideia de transformar a situação num suposto contrato de prestação de serviços para Rui Pinto (cuja identidade como criador da plataforma ‘Football Leaks’ era então ainda desconhecida).

Nélio Lucas confirmou também que a Doyen efetuou diligências para descobrir a origem do ataque ao sistema informático, ao contratar uma empresa britânica de investigação. A operação não chegou a conclusões, mas o empresário defendeu que foram as informações fornecidas no encontro na autoestrada A5 por Aníbal Pinto sobre o seu cliente – “um jovem entre 20 e 30 anos, a viver no estrangeiro e que já tinha acedido a um banco das Ilhas Caimão” - que ajudaram a PJ a chegar à posterior identificação de Rui Pinto.

Ao ter deixado falar, foi a melhor coisa que fiz, porque estamos aqui hoje”, asseverou, transmitindo a convicção de que havia intenção, “sem dúvida nenhuma”, de Artem Lobuzov em receber o dinheiro: “A minha perceção é que queria receber o dinheiro.”

Rui Pinto, de 31 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e foi o que levou também à pronúncia do advogado Aníbal Pinto.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 7 de agosto, “devido à sua colaboração” com a Polícia Judiciária (PJ) e ao seu “sentido crítico”, mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.

Nélio Lucas diz ser vítima de “linchamento público”

O impacto mediático causado pelas revelações da Football Leaks sobre a Doyen Sports Investments foi hoje comparado por Nélio Lucas a um “autêntico linchamento público”.

“Foi um autêntico linchamento público e que continua a acontecer. Isto foi a destruição completa do que era a minha boa reputação e a dos investidores. A paciência tem limites”, afirmou o empresário, de 41 anos, que atacou Rui Pinto pelo sucedido, estendendo as críticas à comunicação social. 

Sublinhando estar há “cinco anos a levar pancada sem parar da imprensa”, com base no que considerou “analogias de uma pessoa que tecia os seus próprios comentários”, Nélio Lucas defendeu ainda que o principal arguido do processo “fez o que quis, tentou extorquir dinheiro e apoderou-se dos dados bancários das pessoas” e alegou que o impacto “é impossível de quantificar” a nível pessoal e profissional.

Nada tinha a ver com a preocupação em limpar o futebol. Falava em ‘offshores’ e depois estava a tentar criar uma sociedade ‘offshore’ para receber o dinheiro”, reiterou, adicionando: “Há limites para tudo e isto não pode passar impune. Só posso responder que valeu a pena quando isto terminar e este indivíduo for condenado.”

A reta final da audição ficou marcada por novo momento de tensão entre o antigo administrador da Doyen e o coletivo de juízes, depois de Nélio Lucas se ter irritado com a história da compra de um iate, exposta num comunicado do Football Leaks, que leu em voz alta e que lhe suscitou uma comparação inusitada: “Eu sou como aquela senhora que foi violada e depois tem de explicar porque é que foi violada.”

A juíza assistente Ana Paula Conceição pediu à testemunha para ter calma, mas Nélio Lucas não recuou e insistiu: “Porque sou vítima de um crime, tenho de explicar quem eu sou?”, ao que a presidente do coletivo, Margarida Alves, acabou por intervir de forma mais assertiva, vincando que ela é que estava a comandar a audiência. De seguida, foi feito um curto intervalo e os últimos minutos da audição decorreram num ambiente menos crispado.

O julgamento prossegue na quinta-feira a partir das 09:30 com a continuação da audição de Nélio Lucas, agora na fase das inquirições pelos assistentes do processo e pelos representantes dos arguidos.

/ CM