A administração da vacina contra a gripe sazonal arranca no próximo dia 4 de outubro, informou a diretora-geral de Saúde, Graça Freitas. 

Portugal comprou este ano 2,24 milhões de vacinas, mais 146 mil doses em relação ao ano anterior, para reforçar e preparar melhor o próximo inverno, o que representa um aumento de 7% em relação a 2020, tinha já revelado o secretário de Estado da Saúde Lacerda Sales, em entrevista à TVI24.

Num momento em que mais de 80% da população portuguesa está já vacinada contra a covid-19, as autoridades de saúde revelam que estão atentas à gripe sazonal. E com motivos para isso.

Porque é que a época da gripe pode ser mais preocupante este ano?

No inverno passado, quase não se registaram casos graves de gripe em Portugal e nunca se chegou a atingir a fase endémica da circulação do vírus. Os especialistas admitem que as medidas de proteção contra a covid-19 – como as máscaras, a higienização regular e o distanciamento social – ajudaram a impedir os contágios e, segundo o Instituto Ricardo Jorge, nenhuma morte foi atribuída ao vírus da gripe entre outubro de 2020 e maio de 2021.

A diminuição da atividade gripal não aconteceu apenas em Portugal. De acordo com o Centro Europeu de Controlo e Prevenção da Doenças (ECDC), na Europa houve um descida de 99% de casos de gripe em relação ao ano anterior. 

Para este inverno, as previsões são bastante diferentes. À medida que voltamos à "vida normal", com o relaxamento das medidas anti-covid-19, e com os níveis de imunidade bastante afetados por um ano sem infeções gripais, é expectável que este ano a gripe volte a atacar e e os seus efeitos sejam mais graves do que antes da covid-19.

Havendo menos contacto com o vírus, há menos produção de anticorpos e, logo, as pessoas estão menos protegidas", explica à TVI24 o pneumologista Luís Rocha. "Portanto, as pessoas entram na época de gripe com menos imunidade e isto significa que o contacto com qualquer vírus terá um impacto maior."

Os dados recolhidos pelo Sistema Nacional de Vigilância de Doenças Respiratórias, dos Estados Unidos, mostram um aumento na atividade dos vírus da gripe durante o verão, ou seja, fora da sua habitual época no hemisfério norte (de novembro a maio). E, apesar de não ser possível saber o que vai acontecer neste outono/inverno, o CDC (Centro de Controlo de Doenças) norte-americano acredita que é provável que haja um aumento substancial dos casos de gripe e outras infeções respiratórias.

Mas um maior número de casos poderá não ser, necessariamente, um motivo para alarme.

"Todos os anos temos em Portugal 20 a 30 milhões de infeções respiratórias superficiais", explica à TVI24 o virologista Pedro Simas. "Ou seja, cada pessoa contrai em média 2 a 3 infeções respiratórias por ano. Isto é aquilo a que chamamos um nível endémico."

O nível endémico é o que mantém a imunidade ativa. No nível endémico, podemos ter um planalto de infeções elevado, mas isso não se traduz nem em mortes, nem em doença grave a necessitar hospitalização", diz.

Ou seja, "temos de estar preparados para um ano atribulado", mas Pedro Simas acredita que a situação não chegará a ser grave.

O que podemos fazer para prevenir uma epidemia de gripe?

Vacinar é a resposta imediata dos dois especialistas ouvidos pela TVI24

Temos de estar preparados com um plano de vacinação dos grupos de risco, temos de estar mais alerta e mais preparados para ter a vacina disponível para aqueles que precisam", diz, sem hesitar, o virologista Pedro Simas.

O pneumologista Luís Rocha sublinha que, apesar de o Governo ter comprado mais vacinas, elas poderão não ser suficientes. "Prevê-se que este ano, à semelhança do ano passado, haja uma maior procura da vacina da gripe. Por isso, é preciso salvaguardar as vacinas para os grupos de risco e os profissionais de saúde", refere.

No Serviço Nacional de Saúde, as vacinas são administradas gratuitamente à população com mais de 65 anos, grávidas, residentes em lares, profissionais de saúde, bombeiros e portadores de algumas doenças descritas pela DGS. Para as pessoas não abrangidas pela vacinação gratuita, a vacina contra a gripe é vendida nas farmácias comunitárias através de prescrição médica (receita) e tem uma comparticipação de 37%.

Devemos ou não usar máscara para nos protegermos da gripe?

Pedro Simas defende há muito tempo que, para bem do nosso sistema imunitário, "é preciso voltar à normalidade". "Já deveríamos ter largado as máscaras há um mês e meio", declara.

"Agora temos os grupos de risco protegidos e mais de 80% população está protegida contra a covid-19, isto tem um efeito dramático na transmissão do vírus", diz, explicando que neste momento já não é necessário usar máscara por causa da covid-19. "Sou a favor de desconfinar completamente e estar atentos a duas linhas vermelhas, não das infeções mas dos internamentos (sobretudo em cuidados intensivos) e ao aparecimento de novas variantes."

Há uma imunidade de grupo que não o inibe o vírus de circular nem evita a infeção, mas é eficiente a proteger contra a doença grave", diz. 

Isso é o que acontece habitualmente com a gripe, por isso, quanto mais depressa deixarmos de usar a máscara mais rapidamente voltaremos a ter a nossa imunidade. No que toca à gripe sazonal, "o pior que podemos fazer é perpetuar o uso generalizado de máscara", defende. 

A máscara deve ser usada seletivamente, apenas em grupos de risco e se houver muitas infeções. Não nas escolas, não nos centros comerciais, não nas salas de teatro."

Já Luís Rocha é um pouco mais conservador no que toca ao uso de máscara e considera que as recomendações atuais da Direção-Geral de Saúde são corretas:

Nas escolas, nos transportes públicos, em grandes aglomerados, em espaços fechados a máscara continua a ser uma proteção eficaz."

Na opinião deste pneumologista, estes cuidados continuam a ser importantes, sobretudo por causa das pessoas mais vulneráveis - os mais idosos, os imunossuprimidos, as pessoas com problemas de saúde. "Uma pessoa saudável pode ter a sua gripe e não é grave, claro. Mas pode transmitir a doença a uma pessoa que tenha menos defesas", explica.

Maria João Caetano