Chama-se Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e, nas últimas semanas, fez soar os alarmes nos Estados Unidos, na Nova Zelândia e em Itália, provocando o aumento do número de internamentos nos cuidados intensivos pediátricos por bronquiolite e pneumonia nas crianças mais pequenas.

O VSR não é um vírus novo, mas este ano assumiu um padrão diferente, que está a preocupar os especialistas em todo o mundo, incluindo em Portugal, onde esta alteração foi “significativa”, como explicou à TVI24 o médico pediatra Hugo Faria.

"Portugal está, neste momento, a viver já uma incidência por este vírus acima do habitual para esta época do ano”, afirmou Hugo Faria, pediatra do Hospital CUF Descobertas, salientando que este é um “vírus sazonal” que “tipicamente tem o seu pico de atividade no inverno”.

Mas o que é, afinal, o Vírus Sincicial Respiratório? De acordo com Hugo Faria, este vírus “é responsável por uma percentagem muito significativa dos internamentos em cuidados intensivos pediátricos na nossa sociedade”, e, “infelizmente, ainda é causador de mortalidade infantil”.

A gravidade da doença provocada pelo VSR “vai reduzindo com a idade”, ou seja, embora provoque infeção respiratória em todas as idades, a doença grave só afeta habitualmente crianças mais pequenas, sobretudo nos bebés prematuros e nos primeiros meses de vida.

É mais frequente a doença grave abaixo dos dois anos, sobretudo no primeiro ano de vida. Ainda mais nos recém-nascidos, até um mês”, salientou Hugo Faria.

Existem, porém, algumas patologias que tornam as crianças mais suscetíveis ao risco de doença grave ao contrair VSR, acrescentou, nomeadamente "os prematuros com doença respiratória, como doentes cardíacos, com imunodeficiências, doenças respiratórias crónicas”, entre outras doenças que impeçam o “normal funcionamento" do sistema imunitário.

Por outro lado, e de acordo com o médico pediatra Fernando Chaves, do Hospital Dona Estefânia, “nas crianças mais velhas e nos adultos, o vírus raramente provoca doença para internamento”, pelo que nestas faixas etárias “a morbilidade já não é acentuada”, como acontece nas crianças até aos dois anos.

Um vírus de inverno que apareceu no verão

Tendo em conta que este vírus “tem o seu pico de atividade no inverno, sobretudo entre dezembro e janeiro”, os pediatras manifestam-se preocupados com o aparecimento do vírus “ainda durante o verão”.

 O vírus começou a circular muito mais cedo do que esperávamos. É um vírus de inverno e apareceu no verão, em julho, e está a aparecer este ano em bebés muito pequeninos com alguma gravidade na doença”, referiu Fernando Chaves, em declarações à TVI24.

O pediatra Hugo Faria salientou que, desde agosto passado, as urgências pediátricas estão a verificar “uma afluência significativa por doença respiratória não-covid”, mas por outros vírus sazonais, incluindo o VSR.

Desde agosto que temos não só idas às urgências, como internamentos frequentes por este vírus”, referiu.

Febre, tosse e obstrução nasal entre os sintomas

De acordo com os pediatras, os primeiros sintomas do VSR “são muito sobreponíveis aos outros vírus respiratórios” habituais no inverno.

“Habitualmente começa com uma rinorreia, ou seja, a presença de secreção nasal, uma tosse, que inicialmente é mais ligeira e que depois pode ou não evoluir para um quadro de bronquiolite, em que a criança tem uma tosse mais persistente, pode ter dificuldade respiratória e dificuldades alimentares”, indicou Hugo Faria, adiantando que estes sintomas podem evoluir para “um quadro respiratório mais grave com dificuldade de manter a oxigenação nasal”.

Os sintomas ligeiros “podem durar dois dias, e a doença pode ficar por aí”, ou podem “progredir para um quadro de tosse mais intensa e dificuldade respiratória”, que pode durar “até ao terceiro ou quarto dia de doença”, acrescentou.

Vírus regressou com “alguma agressividade”

De acordo com o pediatra Fernando Chaves, “este vírus já andou a correr o mundo, já esteve na Austrália, nos países mais frios”, e o que se sabe é que o “vírus este ano tem alguma agressividade”, o que poderá estar associado aos confinamentos dos últimos meses, tal como explica Hugo Faria:

Este ano temos uma alteração significativa deste padrão [de aparecimento do VSR] porque no inverno passado - pensamos que fruto sobretudo das medidas de confinamento, de etiqueta respiratória e de utilização de máscara - não houve o pico habitual do VSR nas crianças.”

Agora, com o levantamento das medidas restritivas associadas à pandemia de covid-19, os pediatras verificaram que o vírus surgiu "fora da época habitual".

Especialistas admitem que este é um vírus “difícil” de combater

De acordo com o pediatra Fernando Chaves, este é um vírus “muito difícil” de combater, sobretudo em famílias com recém-nascidos e crianças que frequentam infantários. Nestas situações, o médico pediatra sugere que, assim que “as crianças cheguem a casa, coloquem a roupa para lavar e tomem um duche”, uma vez que o VSR tem a particularidade de se “agarrar à roupa”.

Mas a melhor forma de “prevenção eficaz” da transmissão deste vírus, segundo o pediatra Hugo Faria, passa pelas regras de etiqueta respiratória, pela lavagem frequente das mãos e pelo distanciamento físico, tal como acontece com o SARS-Cov-2.

A prova melhor que temos de qual é a prevenção eficaz deste vírus foi aquilo que aconteceu no ano passado, ou seja, as medidas que implementámos na sociedade para a covid-19, que tiveram um impacto enorme numa redução muito significativa da presença deste vírus no ano passado”, apontou.

Para o médico pediatra, “isto demonstra que as medidas de etiqueta respiratória, de utilização de máscara, de evicção das escolas quando as crianças estão doentes tiveram um efeito muito grande na prevenção e na transmissão do VSR.”

Além disso, Hugo Faria alerta para o papel dos adultos na transmissão do vírus, mesmo que nesta faixa etária a doença não se manifeste de forma tão acentuada, como acontece nas crianças.

Apesar das crianças serem as mais afetadas, os adultos também têm um papel importante na transmissão do vírus, porque não tendo doença grave, têm doença ligeira e são transmissores”, frisou.

Sem vacina e terapêutica, o foco está no “tratamento de suporte”

Apesar de 40 anos de investigação, ainda não existe uma vacina que combata o VSR, nem terapêutica específica contra o vírus. 

Contudo, “existe um anticorpo monoclonal que se utiliza, por vezes, em crianças com risco acrescido de doença grave por contrair este vírus”, e que “é administrado profilaticamente a alguns grupos de risco”, como as crianças com patologias mencionadas acima.

“Não é uma vacina, mas pode ajudar a prevenir a doença ou, pelo menos, reduzir a gravidade da doença”, explicou Hugo Faria, que admite esperar que “nos próximos anos possam haver novidades quanto aos estudos de vacinas para este vírus”, que “tem um impacto na saúde pública muito significativo”.

O tratamento para a doença causada por este vírus, a bronquiolite ou pneumonia, passa pelo que os médicos pediatras designam como “tratamento de suporte”, ou seja, nos casos em que “a criança tem dificuldade respiratória pode precisar de algum suporte respiratório, como a administração de oxigénio ou auxílio ventilatório”.

Por vezes, as crianças podem precisar também de ajuda alimentar, “porque nos bebés pequeninos, sobretudo, este vírus dificulta a alimentação normal da criança”, pelo que pode ser necessário recorrer, por exemplo, à “alimentação por sonda”.

É "mais frequente" doença grave nas crianças por VSR do que por covid-19

Face à elevada morbilidade nas faixas etárias mais baixas, o médico pediatra Fernando Chaves manifesta maior preocupação com a infeção por este vírus nas crianças em comparação com o SARS-CoV-2.  

“Preocupa-me muito mais o VSR do que o próprio coronavírus na criança”, admitiu o especialista, explicando que este vírus “provoca morbilidade acentuada” nas crianças, “o que não acontece com o coronavírus”, pois o que se verifica é que “os bebés que têm o vírus normalmente são assintomáticos”.

Também o médico pediatra Hugo Faria admite que “é mais frequente doença respiratória grave num bebé pequeno causada por VSR do que por covid-19”, mas salienta que “são vírus diferentes” e que devem ser tidos em conta “outros pontos de vista” das consequências da infeção, nomeadamente no impacto social.

Não podemos negar que a covid-19 teve um impacto significativo na vida das crianças”, sublinhou.

Beatriz Céu