A situação é "de rutura" no serviço de ginecologia-obstetrícia do Centro Hospitalar de Setúbal, denunciaram os médicos que estiveram esta quinta-feira de manhã na Comissão de Saúde da Assembleia da República, sublinhando que "há vários dias em novembro em que as urgências estarão, muito provavelmente, encerradas".

À TVI24, José Pinto de Almeida, diretor do serviço, garante que são pelo menos três os dias de novembro em que não foi possível completar a escala de urgência de ginecologia-obstetrícia: "Neste momento, a escala de novembro tem pelo menos três dias em que não poderá funcionar, a não ser que alguém se disponibilize. Até à véspera, há sempre a possibilidade de encontrar alguém para fazer aqueles turnos", explica. No entanto, qualquer solução provisória não é a ideal:

"Quantos mais prestadores de serviços tivermos, mais ingovernável se torna um serviço, porque é impossível prever folgas, férias e horários com antecedência. Além de que isso é prejudicial para o trabalho de equipa. O serviço transforma-se numa empresa onde as pessoas estão só a cobrir horários."

Os prestadores de serviços, na sua maioria, têm horários a cumprir noutros hospitais e nem sempre estão disponíveis, o que causa uma enorme instabilidade, diz.

"Atualmente, mais de metade do trabalho no serviço é assegurado por prestadores de serviços. Ora, um serviço precisa de ter uma equipa completa para funcionar como deve ser", diz, concluindo que "a situação é muito preocupante" e que, a médio prazo, o serviço corre mesmo o risco de fechar.

Setúbal sem exames pré-natal

Há um mês, o serviço de ginecologia-obstetrícia tinha onze médicos, dos quais três eram jovens e oito tinham mais de 55 anos: "Todos fazem banco porque decidiram fazê-lo, porque, se os médicos que já têm idade para não fazer banco não o quisessem fazer, eu só teria três médicos nas urgências", explica o diretor do serviço que, neste momento, já só tem nove especialistas

Para fazer a escala de novembro, Pinto de Almeida já não contou com dois médicos: um mais jovem, que pediu a rescisão do contrato, e outro que entra agora na aposentação. Há mais um médico que pediu a aposentação e que portanto, a qualquer momento, deixará de trabalhar. 

E há uma nova contratação, que foi anunciada pelo Ministério da Saúde, mas que na verdade não é assim tão nova: "É uma médica que era tarefeira e que passou a contrato, é bom, claro, mas na prática não é mais uma pessoa, porque ela já estava connosco". 

"O ideal, que está no documento que determina a referenciação hospitalar, é 23 médicos", diz o diretor. Ter 21 médicos, como se tem dito, seria o necessário para cumprir todas as escalas. 

E há um problema acrescido: os dois médicos que se estão a aposentar eram os únicos no serviço "que faziam diagnóstico precoce pré-natal". "Se eles saírem não haverá ninguém que o faça", diz Pinto de Almeida. "Estamos a falar de amniocinteses e outros exames fundamentais para identificar malformações e outros problemas. É uma situação gravíssima", diz, referindo-se à eventual falta de acompanhamento adequado das gravidezes, com problemas e malformações que podem não ser detetados a tempo.

"Isto causa uma enorme angústia num diretor de serviço. Ainda por cima porque as aposentações já estavam previstas, sabia-se que isto ia acontecer. Uma situação de exceção mereceria uma medida de exceção."

A solução passa por contratualizar para fora ou contratar tarefeiros: "São soluções mais caras e que não resolvem".

"Estes médicos pertenciam à casa. Aconteceu estarem de férias e surgir imprevistamente uma situação e eles virem. Isto só acontece porque as pessoas vestem a camisola e têm muito boa vontade. E não se dá o devido valor a pessoas assim", lamenta. "Estou desesperadamente a tentar que os médicos que se aposentam aceitem fazer um contrato de aposentado, mas é difícil porque ficam a ganhar 75% e, facilmente, fazendo exames no privado conseguem muito mais."

É preciso fazer alguma coisa para evitar o abandono da população e não é só nas urgências, é nas consultas, nos exames, no bloco operatório. As pessoas já acham normal que as consultas sejam marcadas para daí a não sei quantos meses, mas há situações em que isso não pode acontecer."

"Se nada for feito, o serviço vai extinguir-se porque é impossível fixar os novos profissionais, conservar os que cá estão e depois ainda há as aposentações", queixa-se Pinto de Almeida. "Os médicos são seduzidos por outros hospitais que também têm falta de médicos", completa.

Ouvida na comissão de saúde, a médica Isabelle Cremers também chamou a atenção para a situação neste serviço: "Corremos o risco de deixar de ter bebés a nascerem em Setúbal. Isto não pode acontecer. Se o serviço de ginecologia encerrar será como um baralho de cartas e haverá outros serviços que também vão fechar."

Maria João Caetano