O jogador do Sporting Stefan Ristovski depôs, esta terça-feira, na 11ª sessão do julgamento das agressões na Academia de Alcochete. Tal como os colegas que prestaram depoimento em tribunal na segunda-feira, Ristovski depôs por videoconfrência, a partir do Tribunal do Montijo. 

O jogador de 27 anos conta que estava no balneário, quando viu os adeptos "à porta da sala das botas". "Tentei sair, mas não conseguia e voltei para trás e avisei os outros jogadores que estavam uns indivíduos do outro lado. Eram quatro ou cinco pessoas e todos tinham as caras tapadas", revelou. 

Bateram na porta fizeram tudo para entrar, estavam a gritar palavrões, ameaças e a dizer vamos matar-vos.” 

Ristovski relatou que tinha a noção "que a algum momento aquelas pessoas iam conseguir entrar”. “Quando entraram, o Acuña estava ao pé de mim. Começaram a gritar palavrões e começaram a ver a quem é que iam bater primeiro. Depois começaram a bater no Acuña”, disse. 

O Acuña foi agredido com chapadas na cara e na cabeça. Ele tentou evitar, mas não conseguiu, pois estavam quatro a cinco pessoas de volta dele”, descreveu Ristovski.

O lateral-direito contou ainda ao tribunal que os agressores disseram os nomes do Acuña e Battaglia, mas dirigiram palavras para todos: "Isto vai ser a vossa última chance. Não podem jogar desta maneira!”

Stefan Ristovski diz que se lembra "muito bem" de "um indivíduo com um dente dourado”. E acrescenta que, na altura, pensou: "Tenho de me lembrar deste pormenor”. O jogador diz que "este indivíduo agrediu o Acuña”

Além da agressão ao internacional argentino Marcus Acuña, o defesa disse ter assistido às agressões a Rodrigo Battaglia.

Vi a agressão ao Battaglia, que se encontrava no fundo do balneário, onde estavam quatro a cinco pessoas, mas não vi bem, pois estava a tentar proteger-me para também não ser agredido. Não presenciei, não vi as agressões aos outros jogadores porque naquele momento havia um grande caos no balneário”, afirmou a testemunha.

 

Ninguém tentou sair [do balneário]. Ficámos paralisados dentro do balneário, de braços cruzados à espera de sermos agredidos. Só meia hora depois é que saímos do balneário, porque tínhamos medo que ainda estivessem destas pessoas, e ficámos à espera que nos viessem dizer alguma coisa”, explicou o internacional macedónio, que declarou não ter sido agredido.

Ristovski viu uma pessoa com uma tocha, que não consegue reconhecer, mas relatou que o balneário ficou “cheio de fumo”.

De acordo com o seu testemunho, os invasores “agrediram, partiram o balneário” e saíram.

Durante a invasão, firmou ainda recordar-se de frases ditas pelos elementos como: “têm de mostrar respeito, têm de jogar melhor”.

Após o ataque, levado a cabo em 15 de maio de 2018, o defesa enviou a família para o seu país.

Mandei a mulher e a filha para a Macedónia, eu fiquei alojado num hotel e no final do jogo [final da Taça de Portugal, disputada no domingo seguinte] fui ter com eles”, revelou.

Bruno Fernandes: “Disseram que não era comigo, ninguém me tocou”

Também o jogador Bruno Fernandes depôs esta terça-feira, a partir do tribunal do Montijo. Confessou que "ainda hoje, principalmente quando temos os jogos, sinto ansiedade e temor que as coisas possam acontecer novamente".

Bruno Fernandes disse ao coletivo de juízes que estava no balneário, quando ouviu barulho. “Estávamos cerca de 24 ou 25 jogadores e alguns elementos da equipa técnica, só o mister é que não estava”, recordou.

Fernandes relatou que entraram cerca de 20 a 25 pessoas, de rosto tapado. “Foram entrando gradualmente. A porta do balneário estava meio aberta porque o Vasco Fernandes estava a tentar fechá-la, mas não conseguiu”, arescentou. 

O médio explicou que ele e o defesa-central Sebastian Coates tentaram demover os elementos, os quais afastaram os dois capitães do Sporting, dizendo: “'Isto não é nada convosco, afastem-se’.”

Não tive reação. O momento foi demasiado rápido para reagir, ou sequer pensar. Não era comigo, ninguém me tocou”, referiu.

Ricardo Gonçalves, o chefe de segurança da Academia, tentou segurá-los e eles gritavam pelos nomes do Patrício, do William, do Battaglia e do Acuña. Os agressores dividiram-se pelos referidos jogadores e agrediram-nos. "O Acuña tentou defender-se, mas levou chapadas, e o Battaglia levou com um garrafão de água. Depois, entraram mais e deram murros nas costas do William", pormenorizou. 

Diziam vocês não merecem essa camisola. Tirem a camisola, filhos da p***."

O internacional português lembra-se de ter visto alguns dos elementos a bloquear a porta do balneário.

Fiquei com a convicção de que ficaram ali [à porta do balneário] para impedirem a saída. Ficaram lá alguns parados. Ninguém saiu, ninguém conseguiu sair. No fim, há um grito de um deles: ‘vamos embora, vamos embora’ e começaram a sair. Nesse momento ainda dizem a frase: ‘não ganhem no domingo que vocês vão ver o que vos acontece, e lançaram uma tocha”, relatou o jogador, acrescentando que os agressores ameaçaram os jogadores de morte.

A nível pessoal, referiu, este episódio teve influência na vida familiar, revelando que, após a invasão, teve “medo” do que pudesse acontecer à sua família, razão pela qual telefonou à mulher para que pegasse na filha de ambos e fossem para o Porto.

Contratei segurança pessoal, na sequência destes factos”, revelou Bruno Fernandes, que a manteve entre “quatro a seis dias”, até ir para a concentração na seleção nacional, que ia disputar o mundial.

No final da sessão, Miguel Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho, requereu a acareação de Bruno Fernandes com Vasco Fernandes, secretário técnico do clube, por apresentarem versões diferentes sobre as circunstâncias e o momento em que os atletas foram informados da hora do treino do dia do ataque.

Contudo, Sílvia Reis, juíza presidente, indeferiu o requerimento.

O julgamento prossegue na quinta-feira com as inquirições do médico Virgílio Abreu, de manhã, e, à tarde, serão ouvidos o jogador Daniel Podence, via Skype, e Ricardo Vaz.

Vânia Ramos / MM