Bas Dost, ex-jogador do Sporting, foi ouvido esta quarta-feira por videoconferência no tribunal de Monsanto. Na 29.ª sessão de julgamento sobre o ataque à Academia de Alcochete, o atual jogador do Eintracht Frankfurt contou que além de Bruno de carvalho não conhece "mais nenhum dos arguidos" do processo.

O jogador recordou que, na tarde do ataque à Academia de Alcochete, "estava no ginásio fizeram exercícios" e começou "a ver muita gente" no corredor.

"A minha primeira reação quando estava no ginásio, foi perguntar porque estavam ali e o que queriam, uma vez que já era jogador do Sporting há algum tempo. Vasco Fernandes mandou-nos de volta para os balneários e eu não estava a perceber porquê. Decidi ficar no corredor, ao contrário da equipa. No momento em que a porta abriu vi um homem grande, com máscara, a entrar", conta.

Bas Dost conta então conta que o homem lhe "fez um sinal de polegar para cima (sinal ok)" e que pensou "que estava tudo ok".

"Pensei que queriam falar. Depois entraram todos e começaram a bater à porta", explica, acrescentando mais tarde que teve o impulso de falar com eles porque "sentiu que era um dos líderes da equipa e na Holanda há o hábito de falar com as pessoas".

Nesse momento, o jogador confessa que começou a ficar com medo do que poderia acontecer e que foi agredido por um homem com um objeto na cabeça.

"Comecei a ficar com medo e o homem virou-se para mim e deu-me com um objeto na cabeça. Depois começou a dar-me pontapés [no tronco] e disse a outro para também me dar pontapés. Fiquei no chão a levar pontapés de dois homens e acho que fiquei inconsciente cinco segundos", relembra, acrescentando que se lembra de ter sido ajudado por Roland Duarte.

Recordando que "tudo aconteceu muito depressa e os colegas entraram na sala onde estava", Bas Dost conta ainda que o ferimento - do qual ainda tem a cicatriz na cabeça - com que ficou da agressão deitou "muito sangue".

"Estava com imenso medo, nem queria que o Roland Duarte fosse ajudar outros", acrescenta.

Já dentro da sala onde , Bas Dost perguntou aos colegas se "os homens tinham ido embora", até porque tinha feito "tudo" para que eles não entrassem, mas estes conseguiram "entrar no corredor" e a porta do balneário, que "estava fechada", "pode ser aberta facilmente".

Sobre os agressores, não consegue identificar quem lhe acertou na cabeça, só se lembra que estavam todos vestidos de preto e que gritavam e havia muito barulho no balneário

"Não ouvi ameaças, apenas insultos", diz, no entanto.

O jogador afirma que o terror que viveu na Academia o acompanhou ao longo de vários meses, chegando a ter de ser acompanhado por um terapeuta.

"Depois deste episódio, os dias seguintes foram terríveis. Mesmo passados alguns meses continuava com medo, tinha receio de falar com as pessoas, não queria andar sozinho nem no supermercado, tive segurança à porta da minha casa durante semanas. Só deixei de ter porque a minha mulher pediu para tirar os seguranças. (...) Fui acompanhado por um terapeuta em Lisboa, logo após o ataque. Sugeriu que saísse do país e fui logo de férias, foi horrível pois não sabia o meu futuro. A minha mulher estava grávida queria ter o bebé em Lisboa e decidi que ir para a Áustria 3 semanas. Fui sozinho e tive lá acompanhado por outro terapeuta".

O regresso a Lisboa e ao Sporting foi "difícil", as as conversas com Sousa Cintra acabaram por lhe dar confiança e o fazer regressar a Alvalade.

"Foi difícil regressar. Falei com o Sousa Cintra que me garantiu que ia correr melhor e fiz-me sentir mais confinantes. Por isso decidi regressar. Quando perdíamos não me sentia bem, mas o presidente Varandas prometeu que nada ia acontecer", relembra, acrescentando que mesmo quando ganharam "as taças, a celebração não foi de felicidade".

O holandês afirmou mesmo que, ainda hoje, recordar o que aconteceu "não é agradável".

"Estar aqui a falar sobre o episódio não é agradável, atualmente já não sinto medo como no início, mas ajudou a falar com especialistas em trauma".

Bas Dost falou ainda sobre quando Bruno de Carvalho foi à Academia. O jogador recorda que o antigo presidente leonino chegou a Alcochete "uma hora" depois do ataque e que quando o viu dirigiu-se a ele, em inglês e em tom zangado.

"Estava furioso pelo que tinha acontecido. Perguntei-lhe, em tom zangado, como é que isto era possível. Bruno de Carvalho disse que não sabia. Eu gritei 'como é possível' e fui embora".

O processo, que está a ser julgado no tribunal de Monsanto, tem 44 arguidos, acusados da coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Inês Pereira