O atual presidente do Sporting, Frederico Varandas, relatou, esta sexta-feira, em tribunal, os acontecimentos de 15 de maio de 2018, na Academia de Alcochete. Frederico Varandas, na altura diretor clínico do clube, foi ouvido na qualidade de assistente, uma vez que agora pertence à estrutura diretiva do Sporting. 

Estava no meu gabinete. Apercebi-me que algo de anormal estava a acontecer. Ouvi barulhos fora do normal, murros pontapés e portas a bater. Saí do gabinete, em direção ao balneário e vi pessoas a correr no sentido contrário. Alguns eram elementos da equipa técnica.”

Frederico Varandas relatou que havia "uma fumarada" e "a visibilidade estava reduzida". "Já à porta do balneário, vi um indivíduo a acender uma tocha e atirar na minha direção. Eu desvio-me e acertou no Mário Monteiro, que estava atrás de mim”, disse.  

O presidente do Sporting afirmou ainda em tribunal que após a invasão à academia “havia um sentimento de revolta, desespero e pânico” entre os jogadores, que se recusaram a treinar para a final da Taça de Portugal.

“Imediatamente a seguir à invasão havia um sentimento geral de revolta, desespero, pânico, os jogadores estavam completamente chocados com o que tinha acontecido, e recusaram-se a regressar à academia e a treinar. Nessa altura ninguém pensava muito no jogo”, afirmou Frederico Varandas, que à data dos factos era diretor clínico dos ‘leões’.

Na 27.ª sessão do julgamento, Frederico Varandas explicou que “entre terça-feira e sábado os jogadores treinaram por si”, acrescentando que na final da Taça, disputada no domingo seguinte, e que os ‘leões’ perderam por 2-1 com o Desportivo das Aves, “o ambiente era um terror”.

“Os jogadores disseram que preferiam estar em casa, queriam vencer o jogo, mas do ponto de vista emocional não estavam preparados”, afirmou o médico, que começou a trabalhar no Sporting em 2011 e que foi ouvido na qualidade de representante do clube, assistente no processo.

"Bas Dost ferido na cabeça"

O médico explicou que quando ia entrar no balneário viu “o Bas Dost de braço dado com Rolin [secretário técnico adjunto] e ferido na cabeça”.

Frederico Varandas, que assumiu a presidência do Sporting em setembro de 2019 após a destituição de Bruno de Carvalho, disse ter acompanhado o avançado holandês à sala de enfermagem, onde este foi suturado no gabinete médico, onde estava um enfermeiro e o médico Virgílio Abreu, e referiu ter mantido contacto com os jogadores nos dias seguintes.

“Fui sempre falando com ele, recusou-se a treinar, fui a casa do Bas Dost para lhe retirar os pontos, tinha segurança privado à porta, era um jogador traumatizado”, referiu.

Frederico Varandas considerou que a principal ferida do jogador Bas Dost, que atualmente alinha no Eintracht Frankfurt, “é o trauma”.

“A principal ferida que o Bas Dost leva é o trauma, e não é só o Bas Dost. Muitos daqueles jogadores são miúdos, e pensam: ‘será que aquilo pode votar a acontecer?’. Isso deixa marcas”, afirmou.

O atual presidente do clube disse ter visto “pessoas encapuzadas dentro do balneário” e “de relance uma de cara destapada com uma atitude desafiadora”, e de ter ouvido frases como: “Se vocês não ganham o próximo jogo vão morrer”.

O clínico disse ter vista “os jogadores em pânico” após a invasão “todos viveram um sentimento de pânico” e descreveu o estado em que ficou o balneário: “Completamente virado do avesso, a máquina da água virada ao contrário e roupas espalhadas por todo o lado”.

Frederico Varandas afirmou ter presenciado os desacatos no aeroporto da Madeira, depois da derrota (2-1) com o Marítimo, que afastou o clube do segundo lugar da Liga.

“O Fernando Mendes [antigo líder da claque Juventude Leonina] parecia ligeiramente alcoolizado e entrou em discussão com o Acuña. O Battaglia intrometeu-se e tiveram de ser separados, e eu fui uma das pessoas que larguei o meu trolley e fui separá-los. Também havia elementos da PSP e ‘spotters’”, disse.

Frederico Varandas, que antes de liderar o departamento médico dos ‘leões’ trabalhou no Vitória de Setúbal, afirmou “nunca ter visto um estado tão grande de intolerância para com os jogadores” como o que se viveu no Sporting na fase final da época 2017/2018, e afirmou: “Há sempre muita tensão no futebol e é obrigação de quem está à frente saber resolver esse assunto”.

Reunião de Bruno de Carvalho e staff “foi para amedrontar”

Frederico Varandas disse também que o ex-presidente Bruno de Carvalho fez uma reunião com o staff na véspera da invasão de Alcochete para "amedrontar os funcionários".

O líder sportinguista confirmou ter estado presente numa reunião em 14 de maio, no dia seguinte à derrota (2-1) com o Marítimo e na véspera do ataque à Academia, na qual estiveram presentes elementos do departamento clínico, secretários técnicos, roupeiros, o diretor para o futebol, Manuel Fernandes, o ‘team manager' André Geraldes, o administrador Carlos Vieira e o antigo presidente Bruno de Carvalho.

"Foi uma reunião surreal. Bruno de Carvalho disse ‘estou farto que me enfiem o dedo no cu' e que a Taça valia tanto como um furúnculo no cu. Disse ‘isto vai mudar completamente' e que queria ‘toda a gente no treino amanhã à tarde'", explicou Frederico Varandas, atribuindo um tom "desafiador" ao discurso do antigo presidente, quando este, "de dedo espetado", acrescentou "amanhã, aconteça o que acontecer, quero ver quem continua comigo".

Questionado sobre a interpretação das palavras de Bruno de Carvalho, Frederico Varandas - que foi ouvido na qualidade de representante do Sporting, assistente do processo - confessou ter entendido que "algo de anormal estaria para acontecer", embora tenha admitido que se registava já "um crescente de tensão" entre adeptos e a equipa.

Paralelamente, o atual presidente do clube de Alvalade revelou também ter falado com Jorge Jesus no final da reunião entre Bruno de Carvalho e a equipa técnica, uma das três reuniões conduzidas pelo antigo líder do Sporting no dia 14 de maio, e que o ex-treinador dos ‘leões’ lhe admitiu que tinha sido demitido do comando técnico.

"Houve três reuniões. A primeira foi com a equipa técnica e no final dessa reunião o ‘mister’ ligou-me e disse ‘Acabou, doutor. Fui despedido’", adiantou Frederico Varandas, declarando que soube da hora do treino de dia 15 pelo então secretário-técnico, Vasco Fernandes: "Tenho ideia de que [Bruno de Carvalho] confirma com André Geraldes que o treino seria às quatro da tarde. Normalmente, o treino seria de manhã, mas estaria sempre pendente de confirmação".

Após a audição de Frederico Varandas, o advogado Amândio Madaleno, pediu a alteração da medida de prisão preventiva imposta ao arguido Elton Camará, invocando questões de saúde.

Também o advogado Rocha Quintal solicitou a alteração da medida de coação de Nuno Mendes ‘Mustafá’ de prisão preventiva, para prisão domiciliária.

O julgamento prossegue à tarde com testemunhas de defesa e com a audição do futebolista Freddy Montero, que joga nos Estados Unidos.

O processo tem 44 arguidos, acusados da coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Bruno de Carvalho, à data presidente do clube, ‘Mustafá’, líder da Juventude Leonina, e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos do Sporting, estão acusados de autoria moral de todos os crimes.

Advogado de Bruno de Carvalho acusa Varandas de "faltar à verdade"

O advogado de Bruno de Carvalho acusou o atual presidente do Sporting “de faltar à verdade”, na audição do julgamento do ataque à academia, onde foi ouvido como representante do clube.

Faltou à verdade de muito largo. Pior do que isso: ele põe quase 50 pessoas a mentir”, afirmou Miguel Fonseca, acrescentando: “Não sendo testemunha, não prestou juramento. Se não prestou juramento, não podia mentir. Mentir é um crime, isso não posso dizer, porque ele não prestou juramento”.

O advogado do ex-presidente do Sporting, um dos 44 arguidos do processo, disse que gostava de ter ouvido Varandas como “testemunha” pois isso obrigava-o “ao dever da verdade”.

No final da audição de Frederico Varandas, durante a 27.ª sessão do julgamento, Miguel Fonseca pediu a acareação entre o atual presidente a várias testemunhas que participaram numa reunião com Bruno de Carvalho, na véspera da invasão à academia.

A juíza Sílvia Pires indeferiu o pedido, considerando-o “descabido” e referindo que “as discrepâncias eram normais”.

O representante de Bruno de Carvalho considerou ainda que Frederico Varandas, que estava na academia no dia 15 de maio de 2018 na qualidade de diretor clínico do clube, falou em tribunal segundo “uma agenda de quem tem uma Assembleia Geral para ir”, aludindo à atual contestação ao presidente leonino.

Miguel Fonseca garantiu que Bruno de Carvalho, que não esteve presente “devido a compromissos profissionais”, tem “as declarações preparadas e vai prestá-las na condição de ser o último a falar” em tribunal.

“Por vontade dele, já tinha falado logo no primeiro dia, chegava aqui e estávamos uma semana inteira a ouvir o discurso dele. Entretanto, tivemos que sanear o que havia de dizer ou não e cheguei a um acordo com ele: primeiro vamos ouvir o que há e selecionar o que vamos dizer e o que não interessa”, explicou o advogado.

Vânia Ramos / AM/BC - atualizada às 15:40