Na véspera do ataque a Academia do Sporting, o então presidente Bruno de Carvalho reuniu o staff para saber quem o apoiava incondicionalmente, revelou, esta segunda-feira, no tribunal de Monsanto, Ricardo Gonçalves, coordenador de segurança e operações do Sporting à data dos factos.

A testemunha relatou que o antigo presidente do clube, um dos 44 arguidos no processo e que hoje marca presença na sétima sessão do julgamento, reuniu em 14 de maio de 2018, na academia de Alcochete, com elementos do staff de apoio à equipa principal do Sporting, após o jogo na Madeira, com o Marítimo, que a equipa leonina perdeu por 2-1, falhando a possibilidade de se qualificar para a Liga dos Campeões.

[Nessa reunião] questionou os presentes se estariam com ele, acontecesse o que acontecesse. A equipa estava a atravessar um mau momento, pois perdemos com o Marítimo, o que nos impediu de seguir na Liga dos Campeões. Disse [Bruno de Carvalho] que tínhamos muito trabalho pela frente, um título ainda para vencer [Taça de Portugal] e, naquela reunião, quis saber quem estava com ele, acontecesse o que acontecesse. Quem não estivesse, que saísse”, contou Ricardo Gonçalves.

Já no final da sessão da manhã, Miguel Fonseca, advogado de Bruno de Carvalho, pediu ao coletivo de juízes a nulidade desta parte do depoimento de Ricardo Gonçalves, sustentado tratar-se de “conversas privadas”, que não têm interesse para o processo. O coletivo de juízes terá agora de decidir sobre este requerimento.

À saída do Tribunal de Monsanto, Bruno de Carvalho não quis alongar-se em declarações aos jornalistas, dizendo apenas que para ele "corre sempre mal".

Ricardo Gonçalves deu conta, ainda, de uma outra reunião, ocorrida em 7 de abril de 2018, só com o plantel, dois dias após a derrota com o Atlético de Madrid, e o post publicado na rede social Facebook pelo antigo presidente do clube, a criticar os jogadores.

A testemunha explicou que os elementos do staff não participaram nessa reunião, ficando do lado de fora do auditório, mas que foi possível ouvir “discussão, pois os ânimos exaltaram-se e as vozes aumentaram”.

Ricardo Gonçalves disse ter ouvido Bruno de Carvalho a chamar o guarda-redes Rui Patrício de “ingrato, armado em diva, vedeta e mimado”. A testemunha afirmou que ouviu igualmente o jogador William Carvalho a acusar Bruno de Carvalho de ter telefonado a Mustafá, líder da claque Juve Leo, para “ameaçar e agredir os jogadores”, ao que o antigo presidente do Sporting respondeu que “não fez nada disso” e que ia telefonar a Mustafá.

“Estava a ficar constrangido ao ouvir tudo aquilo e afastei-me”, referiu o antigo coordenador de segurança e operações da academia de Alcochete, que continua a ser inquirido da parte da tarde.

Após estas declarações, Bruno de Carvalho levantou-se da cadeira e bateu na porta de vidro que separa a sala dos arguidos da dos juízes e dos advogados, no sentido de chamar o seu advogado Miguel Fonseca, que viria a falar com o arguido alguns minutos depois.

Relatos de ameaças de morte

Ricardo Gonçalves descreveu, igualmente, em tribunal as ameaças de morte, agressões e injúrias a jogadores do Sporting, acrescentando que Acuña e Battaglia foram os principais alvos dos adeptos.

Pela forma como se deslocaram para a zona [do vestiário], onde estavam o Acuña e o Battaglia, pelo foco nesses dois, presumo que fossem esses dois [os principais alvos]. Faziam ameaças como ‘vou-te matar, não vales nada, não jogas nada, não vão sair daqui vivos'”, descreveu, sublinhando que viu o grupo a entrar na academia e que, no trajeto até à zona dos balneários, tentou demover os arguidos de continuarem, mas que também ele foi ameaçado.

E prosseguiu o relato da sua versão dos acontecimentos.

Observei ainda os diversos elementos abordarem os jogadores, empurrões, agressões, ameaças, deflagração de engenhos pirotécnicos. Deflagrou uma tocha à minha frente. O preparador físico Mário Monteiro foi atingido. Vi uma geleira a voar pelo ar e um depósito de água. Vi uma série de indivíduos a empurrá-los e a soqueá-los [aos jogadores], um indivíduo a atingir com um cinto o Misic [jogador] e confusão”, descreveu.

O antigo coordenador de segurança da academia identificou hoje, a pedido da presidente do coletivo de juízes, Sílvia Pires, os quatro elementos da Juve Leo com “responsabilidades” na claque, os quais seguiam à frente do grupo de adeptos encapuzados que invadiu o espaço, em 15 de maio de 2018: identificou os arguidos Tiago Silva ‘Bocas’, Válter Semedo, Pavlo Antonchuk ‘Ucraniano’ e João Calisto Marques.

Segundo a testemunha, estes quatro elementos dirigiram-se aos jogadores Acuña e Battaglia, “que estavam encostados num canto” do vestuário e que sofreram “empurrões e socos”, acrescentando que não viu a agressão a Bas Dost, mas que o jogador holandês estava a sangrar da cabeça.

Durante a fuga, afirmou ter visto o treinador Jorge Jesus a “levar, pelas costas, um soco” de um dos suspeitos.

Ricardo Gonçalves indicou que foi o arguido Bruno Jacinto, à data dos factos oficial de ligação aos adeptos, quem lhe telefonou, pelas 16:55, a dar conta de que “iam adeptos à academia”, sem precisar o número e o que iriam lá fazer, apesar de o ter questionado sobre isso. O grupo de adeptos entrou na academia “dez a doze” minutos depois.

A testemunha explicou que, após o contacto de Bruno Jacinto, telefonou ao secretário técnico Vasco Fernandes que também desconhecia a ida dos adeptos à academia, e que este iria telefonar a André Geraldes, à data team manager.

Nesse momento, voltou a telefonar a Bruno Jacinto, que, nesse segundo telefonema, lhe pareceu “um pouco mais nervoso” e que disse estar a caminho da academia, ficando com a “sensação de que Bruno Jacinto não sabia do que se estava a passar”.

Já no exterior da zona dos balneários, mas dentro da academia, Ricardo Gonçalves afirmou ter visto Fernando Mendes, um dos arguidos e antigo líder da claque, depois dos factos e de os suspeitos se terem colocado em fuga.

A testemunha questionou Fernando Mendes e outros elementos da claque sobre "o que é que foi aquilo", os quais responderam que “não sabiam de nada, que não tinham nada a ver com aquilo e que apenas tinham a intenção de falar com o treinador Jorge Jesus”.

Ricardo Gonçalves disse desconhecer como é que Fernando Mendes e os outros elementos entraram na academia, apenas que não entraram com o grupo de “40 a 50 indivíduos” que apareceram a correr pela academia dentro.

A testemunha assumiu que deu, em função da informação que dispunha naquele momento, a autorização ao vigilante da academia para a entrada do BMW azul, que serviu depois para retirar este grupo de arguidos do interior da academia, pois “já não estavam a fazer nada na academia”, na qual já estava muita gente.

Se fosse hoje não teria permitido a saída, que foi errada, face ao contexto atual, já depois de ver as imagens. Mas, naquele momento, disse que sim, pois tinha muita coisa em mãos e só queria que saíssem dali”, justificou.

Imagens de videovigilância em branco

O antigo coordenador de segurança da Academia de Alcochete explicou hoje que “não houve qualquer problema com as imagens” de videovigilância do dia do ataque, mas apenas um problema técnico que impediu, naquele momento, a sua visualização.

Segundo Ricardo Gonçalves, o que aconteceu foi que, nesse dia, um problema técnico, originado pela ativação do alarme de incêndio durante a invasão, fez com que houvesse uma “falha de comunicação entre os servidores e a máquina” em que se visualizam as imagens.

“As imagens estavam lá, só não conseguimos visualizar”, naquele momento, esclareceu.

Ricardo Gonçalves afirmou que a situação acabaria por ser resolvida com a intervenção de elementos do departamento de informático do Sporting e da GNR, o que levou algum tempo, razão pela qual só às 05:00 de 16 de maio de 2018 é que as imagens chegaram até à investigação.

Em 15 de maio do ano passado, durante o primeiro treino da equipa de futebol do Sporting, após a derrota na Madeira com o Marítimo, por 2-1, cerca de 40 adeptos encapuzados invadiram a academia, em Alcochete, e agrediram vários jogadores, bem como o então treinador, Jorge Jesus, e outros membros da equipa técnica.

O atual líder da claque Juve Leo, Mustafá, o antigo presidente do Sporting Bruno de Carvalho e Bruno Jacinto, ex-oficial de ligação aos adeptos do clube, estão acusados, como autores morais, de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Os três arguidos respondem ainda por um crime de detenção de arma proibida agravado e Mustafá também por um crime de tráfico de estupefacientes.

Aos arguidos que participaram diretamente no ataque à academia, o Ministério Público imputa-lhes a coautoria de 40 crimes de ameaça agravada, de 19 crimes de ofensa à integridade física qualificada e de 38 crimes de sequestro, todos estes (97 crimes) classificados como terrorismo.

Estes 41 arguidos vão responder ainda por dois crimes de dano com violência, por um crime de detenção de arma proibida agravado e por um crime de introdução em lugar vedado ao público.

Vânia Ramos