Portugueses que se encontram em Angola à espera de regressar a Portugal, depois de o país africano fechar fronteiras para travar o novo coronavírus, mostram-se frustrados e descontentes face à falta de resposta das entidades portugueses.

O consulado de Portugal e a transportadora aérea TAP são os principais visados pelas reclamações dos portugueses ouvidos pela Lusa.

Isilda Reis, luso-angolana que está à procura de um voo para regressar com os pais, de 75 e 72 anos, por estarem mais vulneráveis à covid-19, contou que tem sido muito difícil contactar estas entidades telefonicamente ou por email.

A empresária disse estar preocupada com a possibilidade de uma propagação rápida do vírus em Angola, um país com um sistema de saúde muito frágil: “foi por isso que decidi regressar, tenho medo do que possa acontecer”.

Isilda Reis afirmou que se inscreveu no site do consulado através de um link disponibilizado para apoiar os portugueses que pretendem regressar e enviou o relatório médico relativo aos pais, mostrando que se encontram num grupo de risco.

Tentou também contactar a TAP de diversas formas e acabou por se dirigir ao escritório da companhia em Luanda na terça-feira para obter respostas.

“Mas ficámos de fora. Leram uma lista e só deixaram entrar as pessoas cujo nome estava nessa lista, que nem sabemos como foi feita”, indicou.

A luso-angolana disse que se deslocou hoje novamente à loja da TAP, mas estava fechada. Contactou, entretanto, uma agência de viagens que prevê realizar voos para levar portugueses de Luanda no sábado, domingo e segunda-feira, mas queixa-se que os preços, que rondam os 1.200 euros, são demasiado altos.

“Não queria viajar de graça, mas acho que os voos deviam ser mais acessíveis”, comentou.

Um outro empresário que quer também regressar a Portugal critica que a situação esteja a servir para fazer negócio.

“Quando se aproveita para fazer negócio nesta altura, é vergonhoso”, lamentou Carlos Franco, questionando o motivo pelo qual o consulado está a remeter os cidadãos portugueses para uma agência de viagens quando “os aviões da TAP estão parados”.

Carlos Franco disse igualmente que desde a inscrição que fez no consulado, em 19 de março, pedindo apoio para regressar, não recebeu qualquer resposta.

“Enviam-nos um formulário para preencher através de um email de resposta automática e é tudo. Não respondem”, desabafou.

Carlos Franco tentou também ir hoje ao escritório da TAP, mas “estava fechado”.

O empresário do setor das bebidas quer ir para Portugal “para estar junto da família”, mostrando preocupação com a covid-19: “se há problemas na Europa, aqui vai haver muito mais”. 

Um cidadão que se encontra em Luanda com um visto de turista e pretendia regressar a Lisboa com a namorada, revelou hoje que tentou várias vezes contactar telefonicamente o consulado, sem sucesso, o mesmo acontecendo com as tentativas de envio de correio eletrónico, sucessivamente devolvido.

Luís Simões, que viaja pelo mundo há vários anos, chegou a Angola há cerca de dois meses acompanhado da namorada, de nacionalidade indonésia, que está a aguardar o visto para poder viajar para Portugal.

“Não me vou arriscar a comprar um bilhete para depois não darem o visto [à namorada]. Se conseguir, ainda é preciso arranjar um voo”, disse.

Um outro cidadão queixa-se, num email a que Lusa teve acesso, das "condições desumanas" a que a comunidade portuguesa tem sido sujeita, relatando que os interessados no regresso, que preencheram formulários do consulado e da TAP, tiveram de esperar "amontoados e desprotegidos" para saber se poderiam formalizar a reserva das suas passagens de Portugal.

"A TAP nunca atende telefones. O consulado não presta informação credível, também não atende", criticou, apelando "aos órgãos competentes que façam uma inspeção de forma a averiguar os abusos que têm sido cometidos".

A informação mais recente veiculada pelo Consulado de Portugal em Luanda foi divulgada na segunda-feira e referia que estavam previstos dois voos de regresso a Portugal – um que partiu hoje às 00:00 e outro no sábado.

Uma outra informação que tem sido transmitida aos portugueses que pediram apoio para regressar pela agência de viagens ISD Travel indica que estão previstos mais dois voos de Luanda para Portugal, no domingo (29 de março) e na segunda-feira (30 de março), assim que o voo de sábado estiver completo.

O Consulado Geral de Portugal em Luanda suspendeu na terça-feira a receção de pedidos de visto por tempo indeterminado, no âmbito das medidas para prevenir a propagação da covid-19.

Adianta ainda que a TAP está a fazer um levantamento dos passageiros afetados pela suspensão de voos entre Angola e Portugal, através do preenchimento de um formulário.

Angola fechou todas as suas fronteiras à circulação de pessoas no dia 20 de março, durante pelo menos 15 dias, para tentar evitar a propagação da doença provocada pelo novo coronavírus.

O país regista já três casos de cidadãos angolanos infetados pela covid-19 que regressaram de Portugal na semana passada.

A Lusa contactou o gabinete da secretária de Estado das Comunidades, Berta Nunes, sobre estas queixas, mas até ao momento ainda não obteve resposta.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou perto de 428 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 19.000.

O continente africano registou 64 mortes devido ao novo coronavírus, ultrapassando os 2.300 casos.

Vários países adotaram medidas excecionais, incluindo o regime de quarentena e o encerramento de fronteiras. 

 
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