Eunice Muñoz vai voltar aos palcos para aquele que será o último espetáculo da sua carreira. Para a despedida, no ano em que comemora os 80 anos de carreira, a atriz escolheu a peça “A Margem do Tempo”, de Franz Xaver Kroetz.

A estreia teve de ser adiada devido à pandemia mas deverá acontecer logo na reabertura dos teatros, ou seja, depois de 19 de abril, a confirmar-se o plano de desconfinamento.

No palco do Auditório Municipal Eunice Munoz, em Oeiras, Eunice estará acompanhada apenas pela sua neta, a também atriz Lídia Muñoz.

Foi, aliás, através de Lídia Muñoz que o encenador Sérgio Moura Afonso conheceu Eunice. “Fiz três espetáculos com a Lídia, a Eunice veio vê-los e gostou muito, começámos a conversar, sobre teatro e não só, e nasceu ali uma cumplicidade”, recorda o encenador. O “namoro” foi longo.

Até que decidi ganhar coragem e perguntar-lhe se ela aceitaria fazer um espetáculo comigo.”

A atriz, que já tem 92 anos, aceitou voltar aos palcos - de onde está afastada desde 2012 - na condição de este espetáculo ser o último da sua carreira.

A equipa contactou então a Câmara de Oeiras para que a peça pudesse estrear no auditório com o seu nome, tornando o momento ainda mais especial.

A esta comemoração associou-se também o Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, onde Eunice se estreou, em 1941, com apenas 13 anos, na peça “Vendaval”.

Independentemente de o espetáculo poder ser apresentado noutros espaços, há já a garantia que no dia 28 de novembro “A Margem do Tempo” estará em cena na Sala Garrett.

Como é óbvio não podíamos deixar de nos associarmos a este momento, comemorando a carreira de uma das grandes arquitetas do teatro português e do Teatro Nacional. E queríamos muito ter Eunice no palco da Sala Garrett no dia 28 de novembro, exatamente 80 anos depois da sua estreia aqui”, conta o diretor do TNDMII, Tiago Rodrigues, acrescentando: “Estamos a preparar alguns outros eventos para celebrar esta enorme atriz e mulher extraordinária que é a Eunice”.

Foi Eunice Muñoz que sugeriu o texto “A Margem do Tempo”, de Franz Xaver Kroetz, um autor alemão que se lembrava de ter visto no Teatro da Cornucópia, no final dos anos 70. Trata-se de uma peça que só tem didascálias, ou seja, indicações de cena, mas não tem falas.

Em palco durante cerca de uma hora, Eunice e a neta Lídia interpretam a mesma personagem mas em fases distintas da vida: é uma mulher, secretária numa fábrica, que tem “uma vida solitária e cinzenta”.  “Assistimos ao seu quotidiano e à passagem do tempo”, explica o encenador, sublinhando que, sendo um espetáculo onde nada é dito, trata-se de dar dicas ao espectador para que faça a sua interpretação.

"Tem sido um processo extraordinário”, conta Sérgio Moura Afonso sobre os ensaios que decorrem há meses, lentamente, ao ritmo de Eunice e da pandemia. “Vamos crescendo em conjunto”, diz.

Quando se trabalha com uma atriz com esta experiência não é preciso dirigir, eu vou dando pistas e ela constrói um mundo. E outras vezes é ela que faz sugestões.” 

Com produção da associação Capítulo Reversível, “A Margem do Tempo” conta com música original de Nuno Feist e figurinos da Cruzeta Torcida. 

Maria João Caetano