O mundo ficou mais pequeno e, seja por opção ou por necessidade, as diferentes raças, religiões e costumes aproximaram-se.

Numa altura em que refugiados e migrantes chegam aos milhares à Europa, a intolerância mostra o rosto através do racismo, do ódio.

Fenómenos como os atentados de 13 de novembro de 2015 em Paris e de 22 de março de 2016 em Bruxelas, reivindicados pelo Estado Islâmico, provocam medo nas sociedades ocidentais e estimulam estes comportamentos.

Os desafios globais de hoje favorecem então o surgimento de populismos.

O mundo ficou perplexo com a vitória do republicano Donald Trump nas presidenciais norte-americanas. O facto de Trump ter ganho as eleições numa democracia como a dos EUA pode ser um sinal de que o eleitorado atingiu o limite de tolerância em relação aos políticos e que não se importa com as declarações xenófobas, sexistas e elitistas do então candidato.

Os especialistas preveem um efeito dominó de vitórias sucessivas de políticos populistas nas eleições em vários países europeus.

Após o referendo do Brexit, em que o Reino Unido decidiu sair da União Europeia, e a vitória de Donald Trump nos EUA, muitos se perguntam se a próxima grande mudança pode surgir em França, onde a eleição presidencial está a apenas cinco meses de distância e a popularidade de Marine Le Pen vem a crescer.

As consequências de não se construir coletivamente sociedades mais inclusivas, pacíficas e prósperas são sentidas de forma negativa pelas minorias.

No Dia Internacional da Tolerância, que se celebrou esta quarta-feira, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não teve dúvidas em afirmar que “Portugal se orgulha legitimamente da sua tradição de tolerância e de inclusão, de respeito pelo diverso e plural”, na certeza de que “este valor humano só ganha pleno significado se for posto em prática todos os dias”.

Foi neste contexto que a TVI24 decidiu ouvir três cidadãos portugueses, oriundos de minorias. Um muçulmano, uma negra e um asiático deram-nos um contributo para uma reflexão conjunta sobre o valor da tolerância.

São três testemunhos. Três pontos de vista sobre os princípios do diálogo entre os seres humanos narrados em discurso direto.

Mahomed Abed, 67 anos, Lisboa

Sentiu-se bem recebido em Portugal?

Eu cheguei a um país que era o meu país. Ou seja, apesar de eu ter nascido em Moçambique, sou português, e quando vim [em 1975] era português porque Moçambique foi uma das províncias de Portugal. Senti-me bem integrado por motivos muito óbvios, tais como a cultura, a língua e os costumes. Não estranhei Portugal. Estranhei sim, talvez, um bocado a maneira de ser do povo português, aqui em Portugal Continental, em relação àquilo que nós eramos em África, nomeadamente em Moçambique.

E em relação ao fator religioso?

Quando cheguei, na altura, havia pouca diversidade religiosa… não só em relação ao Islão, como em relação às outras religiões. O 25 de Abril trouxe uma postura diferente no aspeto da convivência multicultural e de diversidade. As pessoas não entendiam o ‘porquê’ de determinadas restrições, nomeadamente a questão de não beber bebidas alcoólicas… na alimentação em geral, no consumo da carne. Tentava explicar da melhor forma para as pessoas poderem entender o ‘porquê’.

Atualmente ainda sente essa mesma estranheza? Ou não?

Não, não. Depois dos primeiros meses…digamos assim, seis meses após a minha chegada, fiquei completamente identificado com a convivência das pessoas de cá. Naturalmente que hoje, com os meios de comunicação existentes, com a globalização… mas, antes de mais, com a integração de Portugal no espaço europeu, a divulgação acerca da diversidade religiosa foi muito mais rápida e acentuada com os meios de comunicação existentes.

Com a ameaça do Estado Islâmico, a comunidade islâmica em Portugal é olhada com desconfiança ou nem por isso?

Em relação à minha experiência pessoal, não sinto absolutamente nada, não vejo ninguém a olhar para mim “de lado”. Estou casado com uma senhora natural de Trás-os-Montes. É portuguesa. E os meus filhos são portugueses. Não sinto absolutamente restrições nenhumas. E as pessoas aceitam-me como eu sou.

Tem amigos fora da comunidade muçulmana?

Claro que tenho. Em todos os lados. E digo-lhe mais... A minha mulher, sendo portuguesa… era católica… e depois converteu-se ao Islão. Não deixa de ter família de fora, em Trás-os-Montes, em Bragança, neste caso em Macedo de Cavaleiros. E na altura do Natal, nós vamos lá e convivemos com as pessoas, convivemos com os familiares.

Nunca se sentiu posto de parte por causa de ser muçulmano?

Não. Pelo contrário. O povo português é um povo que absorve muito bem esta diversidade. O povo é amigo e absorve bem porque é um povo religioso (agora para praticar é que é uma coisa diferente…). Mas é um povo religioso que entende bem a diversidade. Posso dar-lhe um exemplo: a forma como as instituições neste momento estão a acolher e a participar no acolhimento dos refugiados. São refugiados que vêm com religiões diferentes porque somos diferentes.

Portugal é portanto um país que acolhe bem?

Nem tudo é um mar de rosas. Não há bela sem senão. Naturalmente que haverá um caso ou outro de discriminação, mas no cômputo geral não. Diretamente, e na roda das minhas pessoas conhecidas, eu não sinto isso. Mas tenho ouvido um comentário ou outro com pessoas um bocado menos informadas ou então influenciadas por essas situações que estão a ocorrer.

Teve algum problema em arranjar emprego ou encontrar uma casa?

Na minha experiência pessoal, não. Os meus filhos, não. Os amigos que me rodeiam, os mais chegados, também posso dizer que não. Desde que as pessoas tenham competência para procurar, em igualdade de circunstâncias, não há discriminação.

Como é que a comunidade islâmica é vista?

A comunidade, a mesquita [de Lisboa] recebe visitas de alunos das mais diversas escolas espalhadas pelo país. E posso dizer-lhe que, por ano, passam pela mesquita cerca de oito mil a nove mil alunos em visita. São alunos não muçulmanos que aproveitam a visita à mesquita para conhecerem mais a realidade no geral. Mas essas visitas não são só à mesquita, eles aproveitam e vão à sinagoga, visitar o templo judeu, ou vão visitar o templo hindu. Portanto, fazem um périplo por estes templos religiosos. E nós, na mesquita, uma vez por mês, à terceira terça-feira, temos tertúlias abertas às pessoas, em que falamos sobre diversos temas de interesse nacional e internacional. E tivemos oradores como Jorge Sampaio, como Vera Jardim, como o padre Vítor Melícias. Enfim, pessoas, técnicos responsáveis em determinadas áreas do Governo.

Portanto, a comunidade islâmica está integrada…

A comunidade está aberta para receber e para demonstrar a nossa integração perante a sociedade. Temos duas vezes por mês uma campanha denominada “sopa para todos” em que proporcionamos refeições a pessoas carenciadas muçulmanas e não muçulmanas e vamos distribuir pelos sem-abrigo. Estamos integrados na sociedade.

E o Natal?

Apesar de não celebrarmos o Natal, desde 2005 que proporcionamos um almoço de Natal com os carenciados: pessoas não muçulmanas vão à mesquita, têm o seu almoço de Natal. Estamos integrados. E portanto podemos ajudar e colaborar naquilo que é necessário para a sociedade. 

Maria de Fátima Almeida, 40 anos, Lisboa

Portugal é um país tolerante?

Sim. Eu tenho a sorte de já ter nascido em Portugal. Mas em criança sofri bastante. Em alguns momentos não queria ir para a escola porque era gozada, mas isto foi melhorando. Com o tempo foi melhorando. Tenho 40 anos agora e naquela altura era mais difícil porque existia menos gente negra em Portugal. O tempo foi passando…foi passando. Agora, o que sinto um bocadinho mais é, por exemplo, quando quero ver uma casa para alugar e, ao telefone, a pessoa responde-me da melhor forma, mas depois, frente-a-frente, nota-se uma reação de quem não estava à espera que a pessoa fosse negra… eu sinto um bocadinho isso. E as respostas são: “a casa já está alugada” ou entretanto “o senhor desistiu de alugar”… Mais ou menos isso.

Fator dinheiro?

Sim, sim. Eu acho que sim. Eu sei que há pessoas [negras] que realmente não cumprem com as obrigações, mas não quer dizer que sejamos todos iguais. Ou não querem [alugar] porque são barulhentos, ou não querem porque sujam a casa…nem todos somos iguais.

Sentiu mais quando era criança. Hoje em dia já não sente tanto?

Sim, sim. Já me sinto mais aliviada nesse aspeto. Eu entro numa loja e sou mais bem recebida. Depende das situações.

O tratamento/respeito hoje é diferente pelo fator idade ou pela evolução dos tempos?

O tempo mudou, sim. Eu acho que sim.

É casada? Tem filhos?

Sim. Sou casada. Tenho três filhos. Sou casada com um angolano que também vive cá.

Sente que os seus filhos passam pelo que passou?

Não. Eles já não sentem tanto como eu. Pelo menos não tenho razão de queixa. De qualquer das maneiras eu digo, e ressalvo várias vezes, tive a sorte de nascer em Portugal. É diferente… 

O facto de não ter o sotaque influencia de alguma forma uma melhor aceitação?

Sim. Penso que sim. Acho que ajuda um bocadinho.

Daniel Tasaka, 31 anos, Porto

Quais são as suas origens?

Os meus avós paternos eram japoneses. Na altura da II Guerra Mundial, eles emigraram para o Brasil. O meu pai nasceu no Brasil, a minha mãe é portuguesa. A minha mãe emigrou para o Brasil e conheceu o meu pai. Eles casaram-se lá e fizeram a maior parte da sua vida lá. Eu nasci no Brasil. Vivi até aos sete anos no Brasil e depois, nessa altura, os meus pais decidiram vir para Portugal e fazer vida em Portugal. E desde então eu estou cá em Portugal.

Houve algum choque cultural ao chegar a Portugal?

Eu não senti assim um grande choque porque ainda era demasiado pequenino. Ou seja, eu cheguei cá e vim imediatamente para a segunda classe. Eu considero-me completamente português, mesmo culturalmente. Nunca tive nenhum tipo de problema por ter esta ascendência japonesa. Nunca senti nenhuma dificuldade, além dos problemas normais. Porque quando somos pequenos, é óbvio que passamos por aquilo a que chamam de ‘bullying’ hoje em dia. Mas não é nada de mais acentuado ou diferente do que é o gordo, ou o estudioso, ou seja o que for. Não acho que seja uma questão de racismo, é o que toda a gente passa. Uma coisa normal.

Teve dificuldade em arranjar emprego?

Já fui a entrevistas de trabalho, já tive empregos e nunca tive problema nenhum em relação a isso.

E dificuldade em fazer amigos? Arranjar namorada?

Nunca tive nenhum tipo de problema. O meu aspeto físico é bastante acentuado e nota-se que não sou 'completamente português'. Eu nunca tive nenhum tipo de problema em relacionamentos, em arranjar amigos ou namoradas pelo meu aspeto físico. O que eu sinto que as pessoas têm em relação a mim até é mais curiosidade e interesse, do que propriamente qualquer tipo de repúdio ou de racismo, seja o que for. Eu nunca tive nenhum problema em relação a isso.

Podemos então dizer que Portugal é um país tolerante? Acolhedor?

Eu já vivo aqui no Porto há dez anos. Não cresci aqui, cresci em Chaves. Sempre vi as pessoas de Trás-os-Montes muito acolhedoras, sejam elas quem forem. Mas, mesmo no Porto, já estou aqui há dez anos e já viajei muito por Portugal e nunca senti nenhum tipo de me porem de parte ou de me olharem de lado ou nenhum tipo de racismo pelo meu aspeto físico. Eu acho que não é forte. Eu acho que Portugal é um país que sabe acolher as pessoas de fora.

Já presenciou algum caso de racismo?

Eu nunca presenciei nenhum caso de racismo. Mas acredito que haja pessoas que possam passar dificuldades. Mas também os tempos são outros. Mas eu acho que não [que Portugal não é um país racista]. Eu acho que maioritariamente não.

Aline Raimundo / com Francisca Salema