Valência, em Espanha, decretou a limitação dos trabalhos para casa para alunos dos seis aos 16 anos, para que estes tenham tempo para brincar, mas já há escolas em Portugal que praticam esta limitação.

Num debate realizado na TVI24, o presidente do agrupamento de escolas de Carcavelos, Adelino Calado, lamentou que os TPC sejam associados a castigos, pelo que "há cinco anos que não há TPC" nos estabelecimentos que dirige.

Os TPC são associados, tradicionalmente, a castigo. Ou seja, o aluno porta-se mal e leva dez cópias para casa. Claro que é fundamental estudar em casa para consolidar aprendizagens. Mas associar um castigo a uma coisa que é fundamental para toda a vida não faz sentido", explicou Adelino Calado.

Mas apesar de terem limitado os TPC, os professores de Carcavelos têm desenvolvido e recorrido a outras estratégias para motivar os alunos, de forma a que eles consigam consolidar em casa as aprendizagens da escola.

O objetivo do agrupamento é, neste momento, desenvolver mais estratégias dentro das salas de aula para motivar os alunos, de forma a que o trabalho desenvolvido na consolidação de aprendizagens seja interessante. Para Adelino Calado é também fundamental que exista o esforço em fazer a ligação entre escola e família de forma a adaptar o ensino ao quotidiano dos alunos.

Por exemplo, quando o 3.º ano está a aprender a fazer as operações aritméticas é muito fácil mandar para casa dez ou 20 contas para eles fazerem, mas até é melhor perguntar aos miúdos: ‘Costumas ir às compras com os teus pais? O que é que compram? Quanto é gastam?’ No fundo, o objetivo é envolver a família nas aprendizagens dos alunos, consolidando aquilo que é feito na escola”, exemplificou.

No mesmo debate esteve também presente Pedro Rosário, investigador da Universidade do Minho sobre esta matéria, e que defende que os trabalhos de casa não devem ser vistos pelos alunos como um castigo. 

O trabalho de casa não pode ser um castigo, não pode ter uma carga insuportável, tem de ter feedback atempado e tem de ter propósitos escolares, ou seja, perceber a intenção do professor. (...) O problema é que nós temos dado cabo da ferramenta, não pela sua natureza, mas sim pela forma como ela é empregue."

Pedro Rosário entende que o problema está na forma como o termo “trabalhos para casa” é explicado aos estudantes, dado que é visto como algo que os subcarrega. No entanto, as tarefas escolares enviadas para casa acabam por ser uma ferramenta importante para consolidar aprendizagens.

A verdade é que os alunos precisam de consolidar aprendizagens e de apropriar-se das mesmas. Essa apropriação é um trabalho individual e os trabalhos de casa são uma ajuda para realizar isso."

De forma a perceber as dificuldades de cada estudante, o investigador defende que os trabalhos deveriam ser apresentados como uma oportunidade de crescimento pessoal para colmatar as lacunas que cada aluno tem nas diferentes disciplinas.

Uma das conclusões do estudo que Pedro Rosário liderou sobre os trabalhos para casa como ferramenta pedagógica foram a eficácia que os trabalhos de extensão, ou seja, aqueles que se expandem da escola para outros contextos, apresentam.

São exatamente aqueles trabalhos para casa que permitem o desenvolvimento e a aplicação daquilo que é aprendido em outros contextos. Permitem expandir, estender, elaborar."

Para Pedro Rosário, a questão interessante deste tema incide sobre a terminologia da palavra porque os TPC que permitem aplicação e envolvimento são aqueles que devem ser vistos como uma boa prática e não como um castigo.

Nestes trabalhos de casa, os alunos têm uma consciência muito clara da utilidade e do interesse intrínseco das tarefas. Quando percebem que estas tarefas são úteis, e isso lhes é explicado, é mais fácil que eles a realizem."

Segundo o investigador da Universidade do Minho, as atividades enviadas para casa devem ser apresentadas sempre com uma motivação para que os estudantes sintam que o que vão realizar será útil no futuro.