Um casal que viaja diariamente entre Viana do Castelo e o Porto para trabalhar, gastando 260 euros mensais no passe, pondera mudar de concelho por não ter sido abrangido pelo Programa de Redução Tarifária nos Transportes Públicos (PART).

Cada vez mais começamos a pensar em deixar a região e viver no Porto. O passe mensal do autocarro que faz a viagem entre Viana do Castelo, onde vivemos, e o Porto, onde trabalhamos, são 130 euros. Sendo duas pessoas, são 260. A partir da Póvoa de Varzim [que integra a Área Metropolitana do Porto (AMP)] já só se paga 40 euros. Gerou-se uma grande expetativa em relação ao PART, mas não fomos abrangidos”, disse à Lusa Tiago Bonito, auditor, residente em Viana do Castelo a trabalhar no Porto há três anos, tal como a mulher.

De acordo com o funcionário da Autoridade Tributária, natural de Lisboa, a opção de manter a residência em Carreço, no concelho de Viana do Castelo, e trabalhar no Porto “começa a sair do bolso” e a pesar no orçamento do casal.

Vivo nesta região há 17 anos e quero continuar. Só peço que não me obriguem a sair”, desabafou.

A AMP tem, a partir de abril, um passe único válido para viagens dentro dos seus 17 concelhos, por um valor máximo de 40 euros, uma iniciativa inserida no PART com um orçamento de 104 milhões de euros do Fundo Ambiental destinados a promover o uso do transporte público.

Segundo Tiago Bonito, “para ser equitativa”, a redução do tarifário dos transportes públicos “devia ser atribuída a todos os passes, independentemente do percurso que se faça”.

Isso não aconteceu, pelo menos para quem reside em Viana do Castelo e se desloca diariamente para o Porto para trabalhar, acrescenta.

Uma pessoa que resida na Apúlia (Esposende), a cinco minutos da Póvoa de Varzim, também paga 130 euros pelo passe do autocarro”, alertou.

Para Tiago Bonito, “isto vai contribuir para desertificar as regiões periféricas e degradar a qualidade de vida dos grandes centros”.

Vejo toda a gente a elogiar a medida, e isso não me pode causar mais revolta. A descarbonização não é o que vai acontecer”, avisa.

Para Tiago Bonito, “a sensação” relativamente ao PART é que “já existia”, apenas se deu “um pozinho” às regiões que não estão inseridas nas áreas metropolitanas.

Quem viaja de comboio, entre Viana e Valença, ou entre Viana e Barcelos, paga um passe de 80 euros e também não vai ter qualquer redução”, lamentou.

Tiago e a mulher começaram a fazer a viagem para o Porto de carro, partilhando custos com mais duas pessoas, mas passado um ano optaram pelo transporte público.

Existe um autocarro com vários horários que nos servem, eliminámos o stress da condução e a preocupação com o estacionamento”, justificou.

Nas viagens diárias feitas em horários distintos, Tiago e a mulher deslocam-se em autocarros com cerca de 70 lugares “sempre cheios” de “trabalhadores, estudantes e utentes dos hospitais”.