O ex-inspetor da Polícia Judiciária Paulo Pereira Cristóvão assumiu esta quarta-feira em tribunal o papel de “pombo correio” em dois assaltos a residências, em Cascais e Lisboa, pediu desculpa às vítimas e disse sentir-se “envergonhado” pela sua conduta.

Na terceira sessão do julgamento de 17 arguidos acusados de pertencerem a uma alegada rede criminosa de assaltos violentos a residências na Área Metropolitana de Lisboa, Pereira Cristóvão admitiu ser um “pombo correio” ao fazer a ponte entre os arguidos Celso Augusto e Nuno Mendes, conhecido como Mustafá e líder da claque Juventude Leonina, com vista à “cobrança” de supostas dívidas.

Pereira Cristóvão disse ao Tribunal de Cascais que apenas conhece três dos arguidos: Celso Augusto, que conheceu em finais de 2011, quando ainda era vice-presidente do Sporting, Mustafá e Paulo Santos, que tem a alcunha de 'Bábá' e que é irmão de Mustafá.

Quanto ao assalto à residência em Cascais, realizado a 27 de fevereiro de 2014, o antigo inspetor da Polícia Judiciária (PJ) relatou ao coletivo de juízes que foi Celso Augusto quem lhe falou que pretendia fazer uma “cobrança” de uma comissão de 100.000 euros a um empresário do ramo imobiliário, com negócios no Brasil, relativos a 10% de um negócio de um milhão de euros.

Segundo o antigo inspetor da PJ, foi Celso Augusto que lhe pediu para “falar com Mustafá” no sentido de se avançar com a cobrança da alegada dívida, acrescentando que, após falar com 'Mustafá', Pereira Cristóvão contou que este “anuiu” ao plano e lhe disse que o seu irmão, conhecido por 'Bábá', “tinha uns polícias que faziam isso como se fosse uma busca”.

Dentro daquela ilicitude, o facto de me dizer isto deixou-me de alguma forma mais descansado do que se fosse uns tipos quaisquer que entrassem numa casa com violência”, referiu o antigo vice-presidente do Sporting, sublinhando que o plano passava por o arguido Celso Augusto ficar com os 100.000 euros e os outros arguidos com o restante do dinheiro que pudesse eventualmente estar no cofre.

Depois de realizada a cobrança, levada a cabo por quatro dos arguidos, dois deles agentes da PSP, com um mandado de busca falso, enquanto Pereira Cristóvão e 'Mustafá' ficaram na viatura, o arguido Paulo Santos ('Bábá') foi falar com os arguidos que foram ao apartamento e que trouxeram da residência 80.000 euros.

Pereira Cristóvão afirmou que, mais tarde, quando foi ter com o arguido Celso Augusto, este ficou “extremamente irritado” por haver apenas 80.000 euros. Por sua sugestão, frisou, Celso Augusto ficou com metade e deu 40.000 euros aos outros arguidos.

O ex-inspetor da PJ assumiu ter recebido 10.000 euros das mãos de Celso Augusto, dinheiro que, entretanto, já devolveu ao empresário assaltado.

O segundo assalto aconteceu em abril de 2014 a uma residência na Avenida do Brasil, em Lisboa, na qual moraria alguém responsável por alegadas burlas ao banco BPN, e que estaria em dívida com o arguido Celso Augusto e guardaria dinheiro “debaixo dos tacos”.

Pereira Cristóvão assumiu que, a pedido de Celso Augusto foi à internet ver a morada da residência e que voltou a fazer "a ponte" com 'Mustafá'.

O ex-inspetor da PJ descreveu que “os homens que foram à residência não encontraram” nenhum dinheiro no chão da residência, salientando que, para si, esse foi o momento em que deixou de ter contacto com os restantes arguidos.

Pereira Cristóvão afirmou que sempre esteve “ciente” da gravidade dos factos, razão pela qual se sente “envergonhado” da sua postura, assumindo a culpa e o erro da sua participação nos mesmos.

À saída do Tribunal de Cascais, o ex-inspetor da PJ disse aos jornalistas que se limitou a fazer “a ponte” entre os arguidos por “amizade a um amigo”, referindo-se ao arguido Celso Augusto.

Pereira Cristóvão negou ser o “mentor” ou o “arquiteto” desta alegada rede criminosa, como defende a acusação do Ministério Público.

Também no exterior do tribunal, 'Mustafá' acusou, por seu lado, Pereira Cristóvão de estar a mentir para se defender, acrescentando que irá falar em julgamento a verdade dos factos.

A próxima sessão ficou marcada para 25 de março, na qual vão prestar declarações um dos agentes da PSP e o arguido Celso Augusto.