Portugal sofre de «ciganofobia» e «mais de 80% da população tem comportamentos racistas contra os ciganos», defendeu o antropólogo José Pereira Bastos, em declarações à Lusa.

O antropólogo afirmou ainda que «os ciganos têm sido escravos da Europa, tal como os povos africanos foram dos Estados Unidos».

«Se o racismo americano incidiu sobre os seus antigos escravos africanos, o racismo europeu sempre incidiu sobre os seus antigos escravos ciganos e tanto quanto se sabe os ciganos só na Roménia estiveram com o estatuto de escravos mais de 500 anos», apontou Pereira Bastos.

«Num sítio onde os antropólogos, os cientistas sociais, os padres, os comunistas, os católicos, os juristas não querem saber, a polícia tem mão livre para lhes bater, para lhes deitar abaixo as barracas, para os forçar a serem nómadas», criticou.

O antropólogo defendeu ainda que «o grande escândalo que se está a passar com o presidente francês, Sarkosy, é porque a Europa não está a conseguir aguentar com a terceira vaga de ciganos que vem da entrada da Roménia e da Bulgária na União Europeia».

Estes temas vão ser discutidos na Conferência Internacional «Ciganos no Século XXI», que começa esta quarta-feira e se prolonga até sexta. Tem como organizador científico José Pereira Bastos.

Estudo efectuado por José Pereira Bastos

As críticas deste antropólogo são baseada num trabalho de campo que realizou em 2005 para a Câmara Municipal de Sintra, com o objectivo de estudar os ciganos do concelho. Durante mais de um ano, José Pereira Bastos e mais três pessoas visitaram 150 famílias e falaram com 602 pessoas ciganas.

«Oitenta por cento diziam que os ciganos são primitivos, vivem como galinhas do mato, não aguentam um tecto, deveriam ser abandonados ao direito de andarem por aí (...), são mentirosos, agressivos, sujos, perigosos e tudo isto desemboca na teoria de que eles têm de ser tratados a mal, têm de ser cidadãos como os outros e a polícia tem de os pôr na ordem», apontou o antropólogo.

Por outro lado, «20 por cento diziam que os conheciam, que eram óptimas pessoas, não faziam mal a ninguém. Eram inteligentes e só precisavam de ser ajudados, mas estavam a sofrer um processo de perseguição e tudo o que de maligno lhe atribuímos é uma forma de se defenderem contra a perseguição que sofriam», diz Pereira Bastos.