O linguista brasileiro Evanildo Bechara defendeu esta segunda-feira que o novo Acordo Ortográfico obriga a maiores mudanças entre brasileiros do que portugueses, contrariando a ideia de que a nova ortografia é uma adaptação ao português do Brasil.

«Pelo contrário, nós no Brasil somos obrigados a mudar muito mais os nossos hábitos do que os portugueses», afirmou à margem da cerimónia de abertura do Colóquio Anual da Lusofonia que decorre até sábado, em Bragança.

No Brasil, «o acordo vai a pleno vapor», garantiu o linguista, membro da Academia Brasileira de Letras, defensor da ortografia comum, mas contrário à ideia portuguesa das cedências à norma brasileira.

«O acordo faz com que os brasileiros abram mão de muitos mais princípios do que os portugueses», afirmou, exemplificando com vários casos de acentuação, em que se destaca o trema.

Os brasileiros perderam o acento de dois pontos sobre o «u» que definia em palavras como «consequência» ou «linguiça» que a letra, normalmente, muda deve ser pronunciada. Da mesma forma, deixam de usar o acento circunflexo sobre «voo», «enjoo», ou «perdoo».

Mas para o linguista brasileiro, a maior dificuldade naquele país - também comum a Portugal - é o desaparecimento do hífen das palavras compostas, mas sem «uma regra fácil».

«Os ortógrafos não tiveram bom senso de simplificar», considerou, ao ditaram regras diferentes para a nova escrita de palavras como mini-saia, que agora passa a minissaia, auto-rádio a autorrádio, enquanto sub-base fica sub base».

Já para os portugueses, o linguista brasileiro encontra «uma vantagem» nas novas regras que ditam que se deixe de escrever as consoantes mudas, como já acontecia no Brasil.

«A uma criança de dez anos, a aprender a escrever, fica-lhe muito difícil entender porque é que tem de escrever Egipto com «p» quando na realidade ela não pronuncia esse «p», já em egípcio, onde pronuncia o «p», então ele justifica-se na escrita», exemplificou.

Em Portugal e Brasil o novo Acordo Ortográfico deverá alargar-se aos manuais escolares já no próximo ano lectivo.
Redação / CLC