O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) denunciou, nesta quarta-feira, a falta de vacinas da gripe nos centros de saúde, onde só chegará novo stock no final do mês, obrigando a reagendar os utentes que já estavam marcados.

O Ministério da Saúde lançou uma campanha de propaganda dizendo que, este ano, iria antecipar a vacinação. Criaram expectativas, fizeram-se os agendamentos nos centros de saúde que agora não têm vacinas”, disse à Lusa o presidente do SIM, Jorge Roque da Cunha, criticando a “ânsia de propaganda” do Governo.

Os centros de saúde receberam um e-mail da respetiva Autoridade Regional de Saúde (ARS) avisando que só haverá novo stock no final do mês.

Alguns centros de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo receberam a seguinte comunicação: "Não façam mais pedidos de vacinas da gripe até nova indicação. Apenas está previsto que chegue novo fornecimento de vacinas nos fins de novembro."

Nas restantes regiões de saúde a situação é idêntica, garantiu Jorge Roque da Cunha, sublinhando que serão “pontuais” os centros de saúde onde ainda é possível ser vacinado.

Também a ARS Norte enviou uma comunicação oficial para os centros de saúde explicando que "as 112.386 doses de vacina da gripe que falta entregar, só serão entregues, nos armazéns centrais da ARS Norte, a partir do próximo dia 30 de novembro", segundo informação que o SIM colocou na sua página oficial.

Além de terem de adiar quem já tinha marcação, Jorge Roque da Silva lamentou que também se perca a oportunidade de aproveitar a presença dos doentes nos centros de saúde para tratar de vários assuntos ao mesmo tempo, reduzindo as visitas aos serviços de saúde “nesta época difícil de pandemia”.

O presidente do SIM que é também médico no centro de Saúde de Camarate deu como exemplo o seu caso: na consulta de terça-feira teve dois doentes diabéticos e um utente com mais de 65 anos que não puderam ser vacinados.

“Nós queremos aproveitar para estar com os doentes e, já que estão cá, fazem a vacina, é o que chamamos no jargão de 'vacina oportunística'. Mas, a verdade é que não havia vacinas disponíveis”, lamentou.

Além disso, adiar quem já tinha vacina marcada pode “criar problemas sérios na relação médico e utente, porque ficam a pensar que há privilegiados na toma da vacina”, alertou.

O problema não se restringe aos centros de saúde. Também faltam vacinas nas farmácias, alertou Jorge Roque da Cunha, que enquanto falava com a Lusa entrou numa farmácia onde lhe foi comunicado que tinham “uma lista de espera de mais de 300 pessoas”.

A escassez de vacinas nos centros de saúde e farmácias é muito pior do que em anos anteriores, criticou.

O presidente do SIM criticou a “ânsia de propaganda” do Governo que, este ano, “veio dizer que antecipava a vacinação e afinal acabou por atrasar o seu período”.

As farmácias tentaram sem sucesso aumentar a compra de vacinas da gripe, cuja procura subiu 21% a meio de outubro, segundo dados da Associação Nacional de Farmácias (ANF).

As farmácias conseguiram este ano 440 mil doses, menos 160 mil do que no ano passado. "Os distribuidores grossistas receberam pedidos de fornecimento de vacinas, por parte das farmácias, cinco vezes superiores ao que vão conseguir fornecer este ano", indicou a ANF em declarações à Lusa.

Até final de outubro, tinham sido vacinados nas farmácias 234 mil portugueses, menos 64 mil do que em igual período do ano passado.

Além das vacinas da gripe adquiridas diretamente, as farmácias receberam 200 mil vacinas do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para administração a cidadãos a partir dos 65 anos.

Segundo dados disponibilizados na semana passada pela ministra da Saúde, no parlamento, tinham sido vacinados um milhão de portugueses e havia ainda 800 mil vacinas em stock.

Até 3 de novembro tinham sido entregues ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) 1,8 milhões de vacinas e estavam em entrega 270 mil vacinas para a semana de 30 de novembro a 6 de dezembro.

A campanha de vacinação do SNS arrancou em 28 de setembro, com uma primeira fase que incluiu apenas as faixas da população consideradas prioritárias, como residentes em lares de idosos, grávidas e profissionais de saúde e do setor social que prestam cuidados.

Na segunda fase, que começou a 19 de outubro, a vacina passou a ser também administrada a pessoas com 65 ou mais anos e pessoas com doenças crónicas.

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