Cinco fatores explicam a lentidão europeia na vacinação contra a covid-19: foram encomendadas poucas doses  de vacinas e tardiamente; não houve uma autorização antecipada dos reguladores; não houve transparência nos contratos feitos com as farmacêuticas; e a UE tem uma política industrial pouco dinâmica, afirma o economista alemão Guntram Wolff,  diretor do Bruegel, um think tank sobre a Europa, na sua última crónica no jornal "El Pais", publicada na passada quinta-feira.

Fazer rapidamente a vacinação contra a covid-19 entre as pessoas vulneráveis é crucial para salvar vidas e impedir que os serviços de saúde acabem completamente sobrecarregados, diminuindo ainda os prejuízos económicos causados pelo confinamento", escreve Wolff.

No entanto, apesar de a vacinação já estar em marcha, o número de novas infeções continua a aumentar e a variante britânica do vírus, muito contagiante, está a propagar-se.

O problema é mais grave na União Europeia, que está atrasada no seu plano de vacinação, quando comparada por exemplo com Israel (que já vacinou 44% da sua população) ou o Reino Unido (10%). O pais da UE que está mais avançado é a Dinamarca, que apenas imunizou 3,6% da população.

Atualmente, o ritmo diário de vacinação no Reino Unido é de 0,5 por cada 100 habitantes, enquanto a média na UE é de 0,1.

Como explicar esta lentidão na União Europeia?

Um dos motivos, diz o diretor do Bruegel, um think tank sobre a Europa, é que a UE encomendou poucas doses de vacinas e fê-lo demasiado tarde. "A UE tardou em encomendar a vacina da BioNTech-Pfizer, mesmo quando ela já era a melhor candidata e a sua eficácia estava mais do que comprovada. Os países membros não se atreveram a pedir à UE que encomendasse mais por ser uma novidade tecnológica."

Em segundo lugar, "o dinheiro disponibilizado pela UE é insuficiente", afirma o economista alemão. "A estratégia aprovada pela UE no ano passado previa 2.700 milhões de euros para chegar a acordos antecipados de compra, investigação e capacidade de produção. Em setembro foram acrescentados 1.090 milhões de euros. Porém, são valores mínimos em comparação com os 18.000 milhões de dólares investidos pelos EUA." 

É possível", alerta ainda Wolff, "que os preços baixos de compra pela vacina oferecidos pela UE tenham atrasado um pouco as entregas".

Em terceiro lugar, "a UE insistiu UE insistiu que a responsabilidade em caso de efeitos colaterais negativos na saúde fosse as empresas farmacêuticas e, portanto, recusou uma autorização antecipada de emergência. Muitos países da União não quiseram nem pediram autorizações mais rápidas devido a essa questão da responsabilidade". Esta opção pode explicar-se, diz o economista, pela "aversão ao risco" por parte de muitos governos, assim como pela pressão feita pelos movimentos anti-vacinas.

Em quarto lugar, os contratos firmados com as empresas farmacêuticas deveriam ser públicos, defende.Tem havido um debate sobre se algumas empresas farmacêuticas violaram os termos dos contratos com a UE. A UE pré-financiou o desenvolvimento e a produção da vacina AstraZeneca e quer agora saber exatamente que doses foram produzidas e onde, para poder avaliar se as obrigações contratuais foram violadas. Se tivesse havido transparência e os contratos fossem públicos não teríamos essas dúvidas.

Em quinto lugar, Wolff critica a UE por ter uma política industrial pouco dinâmica. "Há que ativar as fábricas concorrentes quanto antes para aumentar a quantidade de vacinas". Foi o que aconteceu com a Sanofi que, pressionada pelo governo francês, aceitou utilizar a sua fábrica de Frankfurt para produzir mais vacinas BioNTech-Pfizer.

É preciso reconhecer que a UE não estava preparada para a pandemia, diz Wollf. "Os países membros só autorizaram a Comissão a fazer compras conjuntas muito tempo depois de a pandemia ter explodido. Em fevereiro os EUA já tinham instituições como o BARDA a dirigir e a financiar investigações."

É impossível saber o que teria acontecido se a UE não tivesse atuado de maneira conjunta. É provável que muitos países europeus não tivessem capacidade para negociar entregas mais rápidas com as empresas", diz.

Também parece inegável que as pressões do governo de Trump sobre as farmacêuticas para que abastecessem primeiro o mercado norte-americano foram imensas e, por isso, os países membros da UE teriam tido menos poder individualmente. lém disso, a política de nacionalismo de vacinas dentro da UE teria sido tóxica."

No entanto, diz Guntram Wolff, a UE tem de extrair algumas lições" do que está a acontecer. Tem de se organizar melhor - e talvez precise de impulsionar a Autoridade Europeia de Resposta a Emergências Sanitárias (HERA) - , tem de investir e de arriscar mais.

Os problemas da UE partem sobretudo da falta de preparação, falta de Instituições e erros políticos. Os próximos meses dirão com quanta rapidez pode a UE pôr-se em dia em matéria de vacinação". Por agora, "é preciso mobilizar todos os recursos financeiros e políticos para aumentar o fornecimento de vacinas".

Maria João Caetano