O major Vasco Brazão, que envolveu o ministro da Defesa na recuperação das armas roubadas de Tancos, quer ser novamente interrogado, confirmou a TVI, nesta segunda-feira, junto do seu advogado.

Ricardo Sá Fernandes disse que o seu cliente tem na sua posse "documentos relevantes" para o Ministério Público, não assumindo tratar-se do memorando, que o major disse ter entregado em mão ao chefe do gabinete de Azeredo Lopes e que dava conta do encobrimento da operação. Segundo, ainda, o ex-porta-voz da Polícia Judiciária Militar, o chefe de gabinete, Martins Pereira, terá telefonado ao ministro a informá-lo da situação.

Vasco Brazão, que está em prisão domiciliária, foi interrogado durante várias horas na passada terça-feira e agora, na sequência das afirmações do ministro da Defesa, quer prestar novos esclarecimentos.

O requerimento foi apresentado ao Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa na semana passada.

O advogado do major Vasco Brazão já tinha admitido pedir o levantamento do segredo de justiça para que sejam divulgadas partes do interrogatório judicial “em nome da honra e dignidade” do ex-porta-voz da PJM, depois de, em Bruxelas, o ministro da Defesa ter negado "categoricamente" que isso tenha acontecido.

Não me cabe estar a fazer declarações públicas sobre aquilo que o meu cliente disse ao tribunal. Eu não vou fazer declarações públicas sobre esta matéria, a não ser que ocorram circunstâncias tais que me obriguem, na defesa da sua honra, da sua dignidade, a prestar essas declarações”, disse, então, o advogado aos jornalistas, no Campus da Justiça, à margem do julgamento dos 19 militares do Exército acusados no processo da morte de dois recrutas durante o 127.º curso de Comandos, onde é advogado da família de uma das vítimas mortais.

Ricardo Sá Fernandes escusou-se a comentar diretamente as declarações do ministro da Defesa, mas admitiu “abrir uma exceção” e falar publicamente sobre o processo de Tancos.

"Se as circunstâncias me obrigarem a invocar essa exceção, naturalmente que utilizarei essa possibilidade”, reiterando que caso entenda que há circunstâncias que justifiquem essa intervenção, porque é isso que o seu estatuto lhe permite que faça, o irá fazer.

À pergunta se poderá ser suscitada perante os agentes judiciários autorização para serem divulgadas partes do primeiro interrogatório judicial realizado ao seu constituinte, Ricardo Sá Fernandes respondeu que “isso está previsto na lei, em que certas circunstâncias, possa ocorrer”.

Questionado se poderá vir a fazer isso em nome da honra e do bom nome do seu cliente, o advogado respondeu: “Eventualmente, se isso for necessário, fá-lo-ei”.

A Polícia Judiciária deteve, no dia 25 de setembro, no âmbito da Operação Húbris, que investiga o caso da recuperação das armas furtadas em Tancos, o diretor e outros três responsáveis da Polícia Judiciária Militar, um civil e três elementos do Núcleo de Investigação Criminal da GNR de Loulé.

O Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decretou prisão preventiva para o diretor da Polícia Judiciária Militar, Luís Vieira, e para o civil.

O furto de material militar dos paióis de Tancos - instalação entretanto desativada - foi revelado no final de junho de 2017. Entre o material furtado estavam granadas, incluindo antitanque, explosivos de plástico e uma grande quantidade de munições.