O português Tolentino Mendonça já é cardeal, tendo sido investido na tarde deste sábado pelo Papa Francisco, numa cerimónia no Vaticano. Minutos depois da elevação, o Presidente da República reagiu numa nota colocada no site da Presidência. Recorde-se que Marcelo Rebelo de Sousa tinha previsto estar presente na cerimónia, mas acabou por cancelar a deslocação ao Vaticano devido à morte de Diogo Freitas do Amaral, cujas cerimónia fúnebres decorreram este sábado em Lisboa e Cascais.

O bispo foi investido cardeal numa cerimónia no Vaticano, tornando-se no sexto cardeal português deste século e no 46.º da História, a quem foi atribuída a igreja de São Jerónimo da Caridade, em Roma.

O arquivista e bibliotecário do Vaticano recebeu o anel e barrete cardinalícios, assim como a bula, numa cerimónia na Basílica de São Pedro, que começou às 16:00 locais (menos uma hora em Lisboa). Este foi o sexto consistório para a criação de cardeais de Francisco, cujo pontificado começou em março de 2013, depois da resignação do papa Bento XVI, no mês anterior.

Como escrevi no dia em que foi conhecida a escolha de D. José Tolentino Mendonça para Cardeal, essa honra traduz “o reconhecimento de uma personalidade ímpar, assim como da presença da Igreja Católica na nossa sociedade, o que muito prestigia Portugal”", informa a  nota do Presidente. 

"Gostaria de estar presente no consistório em que recebe os sinais da sua nova condição, mas na impossibilidade de o fazer, envio ao novo Cardeal um cumprimento caloroso e amigo e os desejos de que continue a ser uma referência para tantos, católicos ou não, que lhe reconhecem o valor cultural e humano de quem é, como o próprio se definiu, “um facilitador de encontros”. Convidado para ser o Presidente das comemorações do próximo Dia de Portugal, D. José Tolentino de Mendonça é um exemplo que alguém que procura ir mais longe e, ao mesmo tempo, estar com todos. Por isso o programa que define para si próprio - “Sentir a cada dia o apelo a ir mais longe, a baixar mais as defesas, a estar menos nos nossos obstáculos, na autorreferencialidade que muitas vezes nos enclaustra, e deixar-se ir atrás” daquilo em que acredita – pode ser também um caminho para cada um e para todos nós como comunidade", conclui o comunicado de Marcelo Rebelo de Sousa.

Papa pediu compaixão aos novos cardeais

O papa Francisco criticou o “hábito da indiferença” e pediu aos novos cardeais, entre os quais se inclui o português Tolentino Mendonça, compaixão, que definiu como “requisito essencial” para a sua missão.

A disponibilidade de um purpurado para dar o seu próprio sangue – significado na cor vermelha das suas vestes – é certa, quando está enraizada nesta consciência de ter recebido compaixão e na capacidade de ter compaixão. Caso contrário, não se pode ser leal”, afirmou Francisco, que falava na Basílica de São Pedro, no Vaticano, durante a cerimónia em que foram são investidos 13 novos cardeais (10 eleitores e três não eleitores num futuro conclave).

O líder da Igreja Católica disse na homília que “muitos comportamentos desleais de homens da Igreja dependem da falta deste sentimento da compaixão recebida e do hábito de passar ao largo, do hábito da indiferença”.

Antes da imposição do barrete cardinalício, o papa argentino questionou mesmo os futuros cardeais se têm viva a consciência desta compaixão, que não é uma “coisa facultativa” ou um “conselho evangélico”.

É um requisito essencial. Se não me sinto objeto da compaixão de Deus não compreendo o seu amor. Não é uma realidade que se possa explicar, ou a sinto ou não”, continuou o papa, acrescentando: “E, se não a sinto, como posso comunicá-la, testemunhá-la, dá-la?”.

Concretamente, tenho compaixão pelo irmão tal, pelo bispo tal, pelo padre tal? Ou sempre destruo com a minha atitude de condenação, de indiferença?”, perguntou Francisco.

Antes, o papa referiu que, “muitas vezes, os discípulos de Jesus dão provas de não sentir compaixão”, notando que basicamente dizem “que se arranjem”.

“É uma atitude comum entre nós, seres humanos, mesmo em pessoas religiosas ou até ligadas ao culto. A função que desempenhamos não basta para nos fazer compassivos, como demonstra o comportamento do sacerdote e do levita que, vendo um homem moribundo na beira da estrada, passaram ao largo”, prosseguiu, citando um excerto do Evangelho de São Lucas a propósito a um grupo de leprosos.

Francisco assinalou ainda que aqueles terão dito para consigo “não é da minha competência”, lamentando que haja “sempre justificações - às vezes até se tornam lei, dando origem a descartados institucionais”.

Para o papa, “deste comportamento muito humano, demasiado humano, derivam estruturas de não compaixão”.

Portugueses orgulhosos

Os portugueses que estão no Vaticano para assistir à investidura de Tolentino Mendonça como cardeal destacam a humildade do português, considerando que o momento é de orgulho para o país.

É um momento muito importante para a nossa História. Pessoalmente fico muito emocionada e como portuguesa só posso sentir um grande orgulho de ter uma pessoa maravilhosa a representar a Igreja”, afirmou aos jornalistas a maestrina Joana Carneiro.

Para a titular da Orquestra Sinfónica Portuguesa, Tolentino Mendonça pode levar à Igreja Católica, como homem de cultura, “essa sua sensibilidade como artista, como poeta e também um profundo pensador”.

Conhece bem os artistas do mundo, sabe o que se faz hoje, sabe o que já se fez ao longo dos tempos e penso que é uma pessoa muito atenta e saberá, com certeza, trazer essa sensibilidade às suas funções”, declarou.

O professor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) Fernando Ferreira Pinto referiu que Tolentino Mendonça, que foi vice-reitor desta instituição de ensino, “como colega é um homem extraordinário de uma bondade inexcedível e uma tranquilidade total”, além de “um belíssimo amigo”.

Já Marta Arruda, que estudava na UCP quando Tolentino Mendonça foi aí capelão, realçou a alegria de o ver como cardeal.

“A maior alegria que eu tenho é saber que há uma pessoa, que é uma pessoa humilde, que acredita numa Igreja humilde e do povo, ser esta pessoa que vem para aqui dentro da Igreja”, observou.

Marta Arruda, que se encontrava na Praça de São Pedro, realçou que Tolentino Mendonça “vai estar numa missão maior do que aquela que tem hoje em dia”, sendo que, no seu entender, pode levar à Igreja “o regresso ao essencial”.

O marido de Marta Arruda, Frederico Arruda, sublinhou que “é um grande momento também para a História de Portugal e para a História da Igreja”, que “é trazer para o seio da Igreja um padre humilde, mas de uma sensibilidade extraordinária”.

“A nossa História é uma História de missão, de irmos além-fronteiras. E D. Tolentino tem exatamente isso, tem esta essência do português. Somos pequeninos, mas somos muito grandes, temos uma herança espiritual”, declarou.

Natural de Machico, Madeira, o cardeal Tolentino Mendonça entrou no seminário aos 11 anos. Doutorado em Teologia Bíblica, é um nome essencial da poesia portuguesa contemporânea, tendo já recebido vários prémios. É atualmente arquivista e bibliotecário do Vaticano.