Quando disse aos pais que queria viajar, sem planos, Lucas não os apanhou de surpresa. Rosa e Manuel sabiam que não podiam cortar as asas ao menino que “sempre teve um espírito livre e abnegado”.

Lucas tinha acabado a licenciatura em Agricultura Biológica, na Escola Superior Agrária de Coimbra. Propôs-se fazer uma viagem de três meses pela América Central em que iria “viver do mínimo”. Acabou por percorrer quase toda a América Latina durante um ano.

O meu plano era o boca a boca. Ia conhecendo outros viajantes e fazíamos parte do percurso juntos. Levei algum dinheiro meu, para uma segurança, mas quase não gastei. O objetivo sempre foi trabalhar e pagar pelo dia. (…) Eu, no fundo, queria ser livre. Queria acordar de manhã e pensar ‘o que é que eu quero fazer hoje’ e não ‘o que é que eu tenho de fazer hoje’. Era sempre viver do mínimo. Não me dar ao luxo de dormir sempre num hotel ou comer num restaurante.”

Para ganhar dinheiro, tocava hand pan nas ruas. Trabalhava em hostels, a troco de dormida e comida.

Quando o dia corria bem, eu dormia num hostel ou numa pousada. Muitas vezes, conhecia amigos, que me deixavam dormir no sofá. Dormi muitas vezes na rua também… aconteceu…”

Foi assaltado, esteve em alguns dos sítios mais perigosos do mundo. No Brasil, subiu o Amazonas e esteve dez dias sem dar notícias aos pais. Também no Brasil, fugiu de uma onça, para não ser atacado.

No Mato Grosso, numa aldeia que se chama Bonito, uma aldeia muito pequena, ia a caminhar com um amigo meu de viagem e vimos uma onça debaixo de uma mangueira. Mete sempre medo… um animal assim grande. Pelo sim, pelo não, o meu instinto foi trepar a árvore e refugiar-me lá. Depois lá lhe atirámos umas mangas para a assustar e ela lá se foi embora.”

Lucas não se arrepende nem por um momento da aventura: “Os amigos todos que eu conheci, ter aprendido espanhol, ter convivido com pessoas de outras culturas. No fundo, o que me marcou foi tudo o que eu aprendi. Andei na Universidade antes de fazer esta viagem e defendo que a Universidade me ensinou a teoria e esta viagem ensinou-me a vivência.”

Olhando para trás, Lucas reconhece que os pais foram de uma grande generosidade ao deixá-lo partir assim. Comove-se quando agradece tamanha abnegação: “Não sou pai, mas imagino o que seja ter um filho e vê-lo partir assim para o outro lado do oceano. Valorizo muito e agradeço-lhes muito, do fundo do coração.”

A meio da viagem, Rosa e Manuel quiseram ver o filho e ele lançou-lhes um desafio: viverem à sua maneira durante o período que quisessem. Os pais não se fizeram rogados. “Foram viajantes por 20 dias comigo. Fizeram parte de um troço do meu percurso”, conta.

Foi muito muito bom, porque tivemos uma experiência conjunta, uma experiência partilhada. Foi interessante porque, até aí, nós pais é que organizávamos as viagens, porque somos uma família que gosta de viajar. Aqui o papel foi invertido”, conta Rosa Faneca, a mãe de Lucas. A mesma que reconhece que “tinha de o deixar voar”.

  • Veja a entrevista completa dos pais de Lucas no vídeo em anexo.

Lucas nasceu livre e com alma de viajante. Ficar no mesmo local por muito tempo está fora dos planos. A próxima aventura já está na calha: “Não vou partir amanhã, mas vou partir muito em breve com certeza. Ásia diz-me muito. Portanto, acho que é por aí.”

Manuela Micael