Várias máquinas estão a demolir a antiga panificadora de Vila Real, a Panreal, um edifício que marca a carreira de Nadir Afonso por ser sido um dos seus últimos projetos de arquitetura.

A viúva de Nadir Afonso disse esta terça-feira que Vila Real “está a enterrar um pedaço” do artista plástico e “a destruir” parte da história da cidade com a demolição do edifício da antiga panificadora projetada pelo artista.

O espaço privado onde está localizado o imóvel, construído em 1965, foi adquirido pelo Lidl.

“Eu acho que Vila Real está de luto, Portugal está de luto e nós também estamos de luto. Vila Real está a enterrar um pedaço do Nadir, está a destruir um pedaço da sua história”, afirmou Laura Afonso ao jornalistas no local.

A viúva do artista plástico realçou aquilo que considerou ser a “maneira cobarde como se fazem as coisas”, já que a demolição teve início ao final da tarde de segunda-feira.

“Às 18:00 vêm para aqui para quê? Para camuflar as coisas? Nem sequer têm coragem de assumir uma posição. Isto não tem explicação, é muito triste”, salientou.

Laura Afonso criticou também a postura da câmara municipal, a qual disse “ter promovido um concurso de ideias para o aproveitamento do edifício da panificadora” e que “queria dar uma utilização digna ao espaço”, mas que depois “mudou de ideias”

É a submissão do poder político ao poder económico (…). A partir do momento em que o Lidl manifestou interesse na Panreal, a atitude da câmara alterou-se”, afirmou.

Laura Afonso disse ainda que sobre este edifício foram feitas “seis teses de mestrado”.

Numa resposta escrita à agência Lusa, o Lidl explicou que a “aquisição do terreno em questão foi concretizada após as devidas aprovações e licenciamentos, cumprindo todos os procedimentos e despachos legais”.

“O tempo previsto de obra será de sete meses. Esta aquisição inclui-se no processo de renovação do nosso parque de lojas, que temos vindo a empreender de Norte a Sul do país, e que tem como objetivo a renovação da nossa loja existente em Vila Real”, salientou a cadeia de supermercados.

De acordo com informação disponibilizada pela Câmara de Vila Real, o Lidl apresentou um projeto que prevê a demolição de dois edifícios existentes, a atual loja e a Panreal, e a sua substituição por um outro com maior área.

O Lidl sublinhou ainda que, ao longo deste processo, desenvolveu “múltiplos esforços ao reunir com a família e a Fundação Nadir Afonso, sempre com uma intenção clara de incluir uma componente de homenagem e memória do pintor”.

“À data, nenhumas das nossas sugestões foi aceite”, frisou a empresa.

Laura Afonso afirmou que “nunca foi apresentado um projeto com dignidade”.

A proposta que fizeram era para um barracão com um painel de azulejo. Aquilo era de alguma forma dignificante da imagem de Nadir? Qualquer pessoa de boa senso jamais poderia aceitar aquilo. Ou então, colocar lá dentro o Nadir misturado com as cebolas e o papel higiénico”, referiu.

A viúva defendeu a manutenção do edifício.

“Propusemos ao Lidl que mantivesse o edifício. A estrutura ficaria e apenas acoplavam a este edifício as alterações. Ampliava-se e tudo o resto ficava para parque de estacionamento. Ficava um edifício bonito e que poderia orgulhar os vila-realenses”, frisou.

A empresa disse ainda que, “independentemente dos imóveis estarem ou não classificados, a manutenção das estruturas existentes é uma prioridade para o Lidl, sempre que seja viável acomodar às necessidades” do negócio.

“Neste caso em particular, a estrutura e configuração não permitem qualquer ajustamento à ocupação pretendida. Acresce a isso que o espaço está em avançado estado de degradação, com múltiplas placas de amianto, que, como é sabido, é um risco para a saúde pública”, explicou o Lidl.

Em abril de 2017, já tinham sido demolidas partes da fachada da antiga panificadora de Vila Real.

A Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) arquivou em abril de 2018 o procedimento de classificação para Imóvel de Interesse Público, proposto por um grupo de cidadãos, considerando que o edifício já não reúne características para uma classificação de âmbito nacional.

Em 2019, a Câmara de Vila Real decidiu não classificar a panificadora como imóvel de interesse municipal.

/ RL