“O meu pai tinha uma arma em casa, mesmo antes de se separarem. Limpava a arma quase todos os dias. Nunca ameaçou diretamente com ela, mas todos os dias nós víamos a arma a ser desmontada e montada. Era uma atitude subtil de ameaça”, afirma Andreia Catarino, de 33 anos, à TVI24. O nome é verdadeiro e a idade também. Esta “filha da violência doméstica” assume a sua história porque ainda há um longo caminho a percorrer.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítimas (APAV) revelou esta quinta-feira que a maioria das queixas por violência doméstica é feita por mulheres jovens. Entre 2013 e 2015, a maior parte das mulheres que pediu ajuda tinha entre 26 e 55 anos. No caso da mãe de Andreia, a queixa poderia ter chegado ainda mais cedo.

“Eu sou filha de uma mãe que me teve aos 15 anos e de um pai que me teve aos 18. Portanto, eles eram namorados de adolescência. A minha mãe costuma dizer-me que não fui uma gravidez planeada, mas não fui uma gravidez evitada. Eles gostavam muito um do outro. Acho que viram na gravidez da minha mãe uma forma de ficarem juntos”.

O pai era o rapaz “popular do liceu” e a mãe estava “muito apaixonada por ele”. Acabaram por ir viver juntos, na casa dos avós paternos, depois de Andreia nascer, e, quando a mãe fez 16 anos, foram obrigados a casar. Nenhum queria, mas os avós impuseram o casamento.

“Houve violência psicológica e física desde sempre. Eu sei que no dia em eu nasci, o meu pai estava em casa com outra pessoa. Portanto, houve sempre adultério e houve sempre violência”, explica Andreia. 

“A minha primeira memória de vida é uma situação de violência entre o meu pai e a minha mãe. Eu não tinha ainda três anos. Eu sei em que casa estávamos e nós saímos dessa casa quando eu tinha três anos. Lembro-me de estar ao colo da minha mãe e de o meu pai estar a discutir com ela e a empurrá-la.”

Andreia assume que “não era o alvo”, por isso, violência física direta “só aconteceu uma ou duas vezes”, em situações que estava a proteger a mãe e, por isso, estava no caminho. Por outro lado, ressalva: "A violência psicológica é sempre direta, porque somos apanhados no turbilhão”.

“Eu assumi desde cedo a proteção dela. Era bastante precoce. A minha relação com a minha mãe é muito próxima, porque ela só tem mais 15 anos que eu e eu sou filha única”.

Segundo Andreia, a pior fase aconteceu após a separação e até chegar o divórcio oficial. “Estiveram juntos na mesma casa durante 12 anos. Primeiro o meu pai saiu, porque os meus avós quiseram manter-me em casa. Mas, como era a casa dos meus avós paternos, havia muita pressão do meu pai".

“Acabámos por sair, mesmo com fracas condições, e alugámos uma casa”. Foram dois anos de medo e violência quase extrema, com episódios quase diários.

Mas não só. “Uma vez pendurou-a de uma ponte. Nós vivíamos em Aveiro e ele pendurou-a numa ponte na ria. Portanto, a violência era mesmo física. E ele conseguia subjugá-la fisicamente”.

“As perseguições de carro eram constantes”, continua a relatar Andreia. “Tínhamos que ter códigos para entrar e sair de casa, porque ele estava sempre lá. Outra vez, tentou entrar na casa com um daqueles ganchos de ladrão. Atirou à varanda e subiu”.

Queixas não tiveram consequências

Há cerca de 20 anos, altura dos factos, ainda não havia a possibilidade de um divórcio unilateral e a violência domestica não era um crime público. Só quando a mãe foi declarada legalmente divorciada, o pai mudou.

“Quando ele lhe fez uma cena num café, ela mostrou-lhe o Bilhete de Identidade e disse: ‘estás a ver aqui? Diz divorciada’. A partir daí ele nunca mais lhe fez nada”. Por isso mesmo, Andreia não tem dúvidas de que “era posse pura e dura".

"Era uma questão de posse, de controlo. De ela ser a mulher dele e ele puder fazer com ela o que quisesse”.

Depois de sair de casa, a mãe de Andreia foi aconselhada, por uma advogada, a apresentar queixas de todos os episódios de violência que iam ocorrendo. Mais de 30 denúncias chegaram à polícia. Chegaram e ficaram. Sem consequências.

“Tivemos um episódio que envolveu gás pimenta. Ele tinha-o e, uma vez, mandou-nos com o gás para cima. Até mais para cima de mim. Fomos diretas para a polícia. Contaminámos a esquadra toda e até os polícias estavam à rasca dos olhos. Essa queixa chegou a tribunal, mas recebemos uma carta a dizer que o gás não era tóxico e que não iam prosseguir com a queixa."

Desesperada, a mãe sentou-se e conversou com o pai: “Disse-lhe que só queria o divórcio para conseguir comprar uma casa e dar-me alguma estabilidade, mas não punha de parte a possibilidade de se reconciliarem. Que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Fez o jogo dele e, obviamente, ele assinou no dia seguinte. (…) As queixas foram retiradas, porque esse foi um dos pontos da negociação”.

Hoje não se dá com o pai, por opção própria. Porque a mãe nunca a impediu a sempre lhe disse que a escolha era dela - a filha.

“Eu mantive alguma relação com o meu pai até aos 26 anos. Muito pouca, mais porque o meu pai ficou a viver com a minha avó paterna e eu ia visitar a minha avó e acabava por encontrá-lo. (…) Aos meus 26 anos, ele disse-me que a maior parte das minhas memórias não eram reais, que eram coisas que me tinham dito, que não tinham acontecido. Não sei se ele recusa ou se, na cabeça dele, não aconteceu mesmo”. De alguma forma, Andreia não esperava muito.

“Eu era sempre um meio para atingir um fim. E o fim era sempre a minha mãe. Sempre. Mesmo quando se separaram, ele ligava-me para falar com a minha mãe, ou ligava-me para saber da minha mãe. Eu não era tida nem achada como filha.”

 

“Nunca foi pai. Pelo contrário. Nunca pôs dinheiro em casa. Não sabia a idade que eu tinha, em que ano eu andava (…). Costumo dizer que sou filha de mãe solteira, porque foi mesmo isso. A minha mãe é que foi a mãe, o pai e o resto”.

"Eu odiava a minha mãe..."

Pelo caminho, fez o melhor que conseguiu: “Como criança e adolescente, tentei sempre não ser um fardo para a minha mãe. Ou seja, não lhe trazer nenhum problema porque ela já tinha um horror de problemas. Lidei com isto, sendo a melhor aluna, sendo o mais normal possível, sendo a mais certinha. Ninguém sabia o inferno que nós passávamos em casa”.

Às mães que vivem situações destas, deixa um recado:

“Normalmente, as mães dizem que não saíram de casa mais cedo, não pediram divórcio mais cedo por causa dos filhos, para protegerem os filhos. Eu digo que isso é mentira, é uma forma de elas se enganarem a elas próprias. Porque todos os filhos que conheço, todos os filhos de violência doméstica, disseram várias vezes ao pai ou à mãe para saírem de casa.”

E mesmo Andreia, que sempre protegeu a mãe e esteve ao seu lado, não consegue esconder emoções contraditórias:

“Lembro-me de ter cinco ou seis anos. Foi a primeira vez que a minha mãe se separou do meu pai e ele ia à casa que alugámos bater à porta. Eu odiava a minha mãe por ela lhe abrir a porta e lhe dar atenção. Odiei ainda mais quando voltámos para casa. Às vezes já não temos pai e, depois, acabamos também por nos desiludir com as mães… de quem esperamos outra atitude. Uma atitude de força, uma atitude de realmente proteção para connosco. (…) E, depois, sermos responsabilizados pelo assunto dói.”

Andreia trabalha e leva uma vida normal. Assume a sua história porque considera que a sociedade “é hipócrita” e ainda olha de forma errada para a violência doméstica.

“Temos de mudar o paradigma (…). O foco continua a ser vítima e o foco tem que ser o agressor. Continua-se a vitimizar, novamente, as vítimas. É quase impossível fazer-se uma queixa e ter-se proteção. E, quando se faz uma queixa, está-se ainda em mais risco do que antes. É muito hipócrita pedirmos às mulheres, que são vítimas, para fazerem queixa e falarem, e não temos um sistema preparado para as proteger… Os agressores ficam em casa e elas têm de mudar de vida, mudar de casa, mudar de escola, mudar de emprego e tudo mais”.

Recorde-se que dia 25 de novembro se assinala o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

Patrícia Pires