Foi no dia 25 de junho de 2020 que Jeremy Mathieu se despediu dos relvados. A entorse no joelho colocou o ponto final precoce a uma carreira pintada a títulos. Para trás fica a saudade, e a memória de um dos centrais com melhor capacidade técnica dos últimos anos em Portugal.

«Com a qualidade de um número 10 e a velocidade de um extremo», foi assim que o Bruno Fernandes o definiu na despedida. Os adeptos do Sporting certamente não vão esquecer o francês, que venceu três títulos, foi o patrão da defesa, e fez jogos de encher o olho, tudo isto a partir dos 34 anos.

Ex-colega de equipa, André Pinto revelou ao Maisfutebol um pouco da personalidade deste francês. Uma pessoa de poucas palavras, «mas imponente», que se impôs com classe no futebol português.

«Mathieu é cinco estrelas. É bastante reservado mas não precisa de falar muito para ser respeitado no grupo. É uma pessoa que não cria qualquer tipo de problemas, muito profissional. Só tenho coisas boas a dizer sobre ele», afirmou o ex-central dos leões.

«Ter vindo do Barcelona não significou nada. Parecia um jogador que nunca tinha vencido nada e tinha vindo de uma simples equipa. Não tinha nenhum vedetismo acerca disso, não exigia nada a mais que ninguém, para ele estava sempre tudo bem, e tudo tranquilo» continuou o português.

Sobre as vezes que partilhou o relvado com o ex-defesa de Barcelona, Valência, Toulouse e Sochaux, André Pinto disse ter havido um entendimento especial entre os dois.

«Nas vezes que jogámos juntos, tínhamos química. Não era preciso muito diálogo, ou chamar a atenção. Isso não era o perfil dele. Ele não precisava de falar muito porque a sua qualidade e experiência falavam por si. Não era sua característica impor-se com a voz, mas sim pelo exemplo que dava e pelo que oferecia ao jogo» terminou o central.

Algo que foi corroborado pelo último treinador da carreira de Mathieu. Rúben Amorim, em conferência de imprensa, disse que o jogador era «introvertido, mas muito querido pelos colegas». O técnico, que privou de perto com o central nos últimos meses de carreira, explicou que Mathieu é «uma pessoa invulgar e muito calada». 

Ou seja, alguém que prefere agir em vez de falar. «Teve uma resposta fantástica quando ficou no banco. Algo que eu não teria tido no lugar dele com o seu currículo e a sua idade. Foi uma surpresa bastante agradável», declarou Amorim.

A carreira do francês terminou num momento de azar. Um infortúnio que nenhum jogador deseja. «Foi um choque natural de treino», afirmou Rúben Amorim. No fundo, Mathieu terminou num lance rotineiro. Um desses lances iguais a tantos outros que disputou e quase sempre venceu.

Antes disso, foi assim a sua carreira:

Começou no Sochaux. No clube desde 1996, a formação completou-se e saltou para a primeira equipa. Em 2002 fez 34 jogos, e a partir daí assumiu-se como titular. A alternar entre o lado esquerdo do meio-campo e da defesa, marcou 15 golos ao longo de três épocas. Na sua última, em 2004/2005, fez parte da equipa que bateu o Sporting em Alvalade por 1-0 na primeira edição da Taça UEFA [agora Liga Europa] em que se incluiu fase de grupos. [Os mais velhos certamente se lembrarão do duplo erro de Anderson Polga que deu a vitória aos franceses nesse jogo.]

Mathieu fez os 90 minutos, naquela que foi a sua primeira vez no Alvalade XXI. Nessa temporada, o Sochaux conseguiu o 10.º posto da tabela, a chegada aos 1/16 de final nas competições europeias e, a nível pessoal, Mathieu conseguiu a transferência para o Toulouse, por valores que rondam os cinco milhões de euros. Para trás, ficou uma taça da liga francesa, conquistada em 2004.

Ao serviço da equipa do sudeste gaulês, Mathieu cumpriu mais quatro temporadas. Os números baixaram, a qualidade aumentou. Foram cinco golos em quatro anos, mas o jogador começou a desempenhar funções mais recuadas no campo. Ora jogava a defesa esquerdo, ora jogava a defesa central, posição pela qual o conhecemos nos últimos tempos e na qual terminou. Não participou na Liga dos Campeões após ser eliminado na qualificação pelo Liverpool, mas fica para a história do clube a terceira posição na liga, a mais alta de sempre no máximo escalão francês.

Em 2009, o contrato de Mathieu acaba, e o jogador tem a sua primeira aventura no estrangeiro. Quem o recebe é o Valência do português Manuel Fernandes. Ao serviço da equipa ‘Che’, Mathieu jogou a sua primeira fase de grupos da Liga dos Campeões, e chegou, em duas épocas distintas aos oitavos-de-final de final da prova. Na sua segunda época, em 2011, o Valência acaba eliminado pelo Schalke, e passados dois anos, em 2013, cai às mãos do PSG. No seu último ano, Mathieu consegue chegar às meias-finais da Liga Europa, tendo sido eliminado pelo Sevilha. O defesa colocou mesmo a equipa de Djukic na frente a 15 minutos do final da partida, mas no quarto minuto do período de compensação, M’bia gelou o Mestalla com o 3-1 que apurou o Sevilha por golos marcados fora de casa.

As exibições estavam cada vez mais consistentes e o Barcelona pagou cerca de 20 milhões de euros pelo seu passe. A equipa de Luis Enrique viu o seu potencial e aproveitou-o da melhor forma: na primeira época a equipa do trio MSN –Messi, Suarez e Neymar - venceu tudo a nível interno, e ainda a Liga dos Campeões. Ganhou mais um campeonato, duas taças do Rei, duas supertaças: uma espanhola e outra europeia, e ainda um campeonato do mundo de clubes. O seu momento mais alto, a nível individual, foi o golo em Camp Nou ao Real Madrid. O jogo acabou 2-1 e Cristiano Ronaldo marcou para os visitantes. A vitória permitiu à equipa blaugrana conseguir uma margem de quatro pontos sobre o seu maior rival, decisiva nas contas finais do campeonato.

A seguir ao Barcelona surgiu o Sporting. No seu terceiro país enquanto jogador de futebol, muitos questionaram a condição física apresentada pelo jogador, então com 34 anos. Conhecido o seu hábito menos saudável pelo tabaco, muitos perguntaram se o francês não viria apenas passar férias às belas praias portuguesas. Bastou um jogo para se perceber que essa época seria Mathieu e mais três, na defesa de Jorge Jesus. Excelentes exibições [uma delas frente ao seu Barcelona] e uma solidez tremenda em Alvalade, que o fizeram um dos preferidos dos adeptos, a par de Bruno Fernandes.

Depois da derrota em Madrid, frente ao Atlético, Bruno de Carvalho criticou publicamente o jogador. Seguiram-se os incidentes com adeptos após a derrota com o Marítimo na última jornada do campeonato, que impediu ao clube de Alvalade a qualificação para a Liga dos Campeões, e que resultou na saída de Jesus. Depois, houve a invasão à academia [onde Mathieu não foi visado] e a derrota com o Aves para a taça no culminar de uma semana conturbada com acontecimentos fora do comum.

Na época seguinte o Sporting venceu a taça frente ao FC Porto e para todos os adeptos de futebol fica a imagem de Jeremy, já com 35 anos, a chorar como se da sua primeira conquista se tratasse. Ganhou o prémio de MVP da final, um reconhecimento pelas suas duas épocas brilhantes ao serviço dos leões.

Já esta temporada, sobreviveu como titular a quatro treinadores diferentes, mas as lesões foram-lhe retirando gradualmente tempo de jogo, até que o precipitaram num final de carreira que mesmo em campo, não seria merecido pela falta de adeptos nas bancadas.

O francês deu espetáculo, marcou golos de livre direto, envolveu-se no ataque e recuperou bolas como ninguém. Ao fim de 19 anos a alto nível, acabou a carreira num treino em Alcochete. Longe dos holofotes, como se também o final fosse feito de forma íntima e reservada.

Afonso Cabral