O Maisfutebol publicará ao longo da semana uma história por dia sobre futebolistas do Coimbrões, o clube do Campeonato de Portugal adversário do FC Porto na Taça de Portugal.

O segundo artigo de reportagem é sobre Daniel Pires, um guarda-redes de 20 anos, nado e criado no «Orgulho de Gaia», mas já com uma passagem pelos dragões.

Daniel começou à porta de casa, no pelado do Parque Silva Matos, e aos 12 anos foi contratado pelo FC Porto. Ficou apenas um ano a vestir de azul e branco, «por culpa de uma gordurinha a mais», e acabou por ser dispensado. «Um momento duro, claro.»

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Durante a temporada investida na Constituição, Daniel dividiu os odores e as disposições de balneário com alguns nomes agora famosos. Diogo Leite, Diogo Dalot, Diogo Queirós e o menino 120 milhões, João Félix.  

Caminhos separados quase à nascença, destinos impostos por conjeturas mais ou menos justas, vidas sentenciadas por uma distância medida em milhões. Daniel não se sente menos feliz do que os antigos colegas, porém. Faz o que gosta, no sintético que avista da janela do quarto.   

O reencontro com o FC Porto, e pelo menos com Diogo Leite, está marcado para sábado, 19 de outubro, no Estádio Jorge Sampaio, em Pedroso.

A conversa com o Maisfutebol acontece no final de mais um treino no Parque Silva Matos, a casa velhinha do Sporting Clube de Coimbrões, uma instituição que celebra 100 anos no dia 25 de outubro de 2020. O «Orgulho de Gaia».

Maisfutebol – Chegou muito pequeno ao FC Porto, mas tudo começou aqui, neste campo do Coimbrões.

Daniel Pires – Sempre vivi aqui ao lado, é só atravessar a rua e estou em casa. Quando comecei nem era guarda-redes, mas aconteceu o que acontece sempre nestas histórias. Não havia ninguém para ir à baliza em determinado treino, eu ofereci-me e saí-me bem. Devia ter oito ou nove anos. Comecei a sentir imenso prazer em ser guarda-redes.   

MF – E como reage uma criança ao ser convidada a assinar pelo FC Porto?

DP – Uma criança de 12 anos, é verdade. Bem, houve um senhor do FC Porto que me abordou, eu falei com os meus pais, fui fazer um treino ao Estádio Jorge Sampaio, curiosamente, e tudo correu bem. Gostaram de mim, fui assinar ao Estádio do Dragão e acabei esse dia a dar um abraço cheio de lágrimas ao meu pai. Foi muito especial poder viver tudo isso ainda tão pequeno.

MF – Que memórias mais fortes guarda dessa temporada no FC Porto?

DP –
Tenho muitas memórias, algumas más. Outras boas, claro. A pior foi a dispensa, logo no final do ano. Mas tive o grande privilégio de ser colega de equipa do João Félix, por exemplo. Era o nosso capitão. Ninguém adivinhava o que ele viria a ser. O Diogo Dalot também era fantástico, com 13 anos já fazia o corredor inteiro de um campo de futebol de 11. Fisicamente era impressionante.

MF – O Félix também se destacava?

DP –
Sem dúvida, tinha uma técnica fora do normal. Faltava-lhe o cabedal, mas compensava isso com outras coisas. Já mostrava uma relação ótima com a bola. Depois eu saí do FC Porto e não o acompanhei, já não assisti à saída do João do clube.

MF – O Daniel ficou só um ano no FC Porto. Porquê?

DP –
Os responsáveis chamaram-me no final da época e disseram-me que eu não tinha reunido as capacidades suficientes para continuar a fazer parte do plantel. Não me deram uma justificação totalmente válida. Eu não era gordo, mas tinha ainda uma gordurinha a mais, se calhar também influenciou. Hoje, como pode ver, estou impecável (risos). Acho que foi muito por aí.

MF – E voltou ao Coimbrões.

DP –
Mas só depois de jogar no Boavista. Joguei no Campeonato Nacional e fui para lá com o meu grande amigo Rui Bruno [atual jogador dos sub-23 da Académica], que também foi nessa altura dispensado pelo FC Porto. Fiquei um ano, as coisas correram-me bem, mas perto do fim da época chateei-me com o treinador [Nuno Pimentel].

MF – O que se passou?

DP –
Eu alternei sempre a titularidade com o outro guarda-redes [João Moreira], até que chegou a altura de jogar contra o meu Coimbrões. Cada um de nós fazia dois jogos e nessa semana era a minha vez de jogar, ainda por cima nesse jogo tão emocionante para mim. O técnico não me pôs a jogar, fiquei chateado, desentendemo-nos e achei que o melhor era voltar a casa. Fiquei até hoje no clube que amo.

MF – Além do Coimbrões, o Daniel ainda estuda ou já trabalha?

DP –
Estudo e trabalho (risos). Estou a acabar o 12º ano, falta-me fazer Português, e também trabalho numa empresa onde vendemos sushi, a Home Sweet Sushi. Não cozinho, mas posso fazer as encomendas, preencher os sacos, fazer de sub-gerente ou até de estafeta para entregar nos domicílios. Mas o futebol é sempre a prioridade.       

Pedro Jorge da Cunha / em Coimbrões