Lá diz o poeta que o sonho comanda a vida e ela, de facto, tem destas coisas.

De um lado uma equipa histórica a militar no segundo escalão. Antiga, com peso no Centro do país, ansiosa por palcos maiores há já bastante tempo, sedenta de mais, agora que fora capaz de chegar tão longe 41 anos depois.

Do outro, um voraz sobrevivente do Campeonato de Portugal, equipa-sensação da presente edição da Taça de Portugal, com um sonho maior a uma vitória de distância.

No Estádio do Fontelo, Académico Viseu e Canelas 2010 deixaram campeonatos de parte e entraram com vontade de inscrever o nome na história, nas histórias de cada um.

E de facto, vontade não lhes faltou. Quer dizer, mais ou menos.

Primeira-parte com nota mais para o Canelas, mas…

A partida prometia muita entrega, mas desde cedo se percebeu que o mais importante para ambos seria estancar a entrada mais fulgurante do adversário, o que deu origem a um jogo pastoso, com inúmeras pausas, ainda que, em abono da verdade, a maioria tenha sido justificada pela assistência a jogadores.

O Canelas sofreu um revés pouco depois do início, com a saída de Bruno Costa por lesão, aos 11 minutos, mas até foi a primeira equipa a causar calafrios no adversário. Aos 18 minutos, Chico Sousa bateu um livre direto de forma exímia e só uma grande defesa de Ricardo Fernandes calou o grito de golo preso na garganta dos visitantes.

A resposta do Académico Viseu não tardou muito, mas Pica, aos 27 minutos, falhou aquilo que muitos se julgavam capazes de encostar desde a bancada. O lance empolgou os da casa e cinco minutos depois, Raphael Mello foi obrigado a intervir para manter o resultado a zeros.

O intervalo não chegou sem que o Canelas equilibrasse as estatísticas. Chico Sousa, o suspeito do costume, viu Ricardo Fernandes levar novamente a melhor já em cima do descanso.

O (Mello)drama da segunda parte

De uma primeira parte um tanto ou quanto sem sabor, ficou pouco por dizer. Mas a verdade é que a segunda trouxe finalmente aquilo que o futebol tem de melhor.

Emoção e golos. Ainda por cima daqueles que levantam estádios. Não dos bonitos, mas dos importantes.

O Académico Viseu cresceu e muito na segunda parte, aproveitou porventura a pouca rodagem que o Canelas levava nas pernas e partiu com tudo para a frente.

Os de Gaia foram cedendo com o passar dos minutos e permitiram demasiadas aproximações à baliza, tanto em bolas curtas como em remates de meia distância.

Ainda que o golo não fosse algo tão evidente assim, era notória a superioridade do Académico em campo. Faltavam pernas e até alguma cabeça ao Canelas para fazer melhor, muito embora o Académico também não tenha sabido aproveitado da forma mais conveniente essa quebra.

Raphael Mello ia negando como podia o golo dos viseenses, umas vezes com mérito próprio, noutras aproveitando o demérito dos atacantes adversários. Aos 68 negou um lance com selo de golo e foi ajudando o marcador permanecer inalterado.

Até que quebraram.

A festa que teve um herói a part-time

O jogo mostrava um Académico mais forte, mas à medida que o cronómetro caminhava para os noventa, poucos eram os que ainda acreditavam no que iria suceder-se depois.

Entrado aos 81 minutos, Carter precisou de 10 minutos para dar início à festa em Viseu. O ex-Benfica antecipou-se a Fonseca e desviou de forma subtil para o fundo da baliza do Canelas.

Estourou a festa em Viseu, estavam corridos 92 minutos. Golo merecido pelo que os viseenses foram capazes de fazer, embora quase sempre bem ripostados pela formação de Gaia.

O Canelas ainda quis estragar os planos aos da casa e Vítor Fonseca esteve perto da redenção, mas Ricardo, um dos outros heróis do encontro, negou com uma boa defesa, mais uma.

O apito final fez soar as buzinas e os gritos. Os de festa. O Académico Viseu continua a fazer história e agora vai voltar aos grandes palcos. Segue-se o FC Porto nas meias-finais. E o sonho prossegue.

Honra também aos vencidos. O Canelas, orientado por Tiago Margarido, deu uma boa réplica e saiu aplaudido por vários adeptos viseenses.

Tiago Filipe Silva / Estádio Municipal do Fontelo, Viseu