Paredes, Fabril e Sacavenense prepara(ra)m os respetivos duelos contra os ‘três grandes’ na Taça de Portugal. Ao longo da semana, os protagonistas da prova rainha escreve(ra)m na primeira pessoa no Maisfutebol. Como são estes dias para atletas semi-profissionais e para plantéis que andam longe do foco mediático? A essência da Taça de Portugal nas palavras dos candidatos a heróis.

André Pires, 30 anos, lateral esquerdo do SG Sacavenense

. 21 de novembro de 2020, a dois dias do Sacavenense-Sporting

«Treinámos de manhã, mas até pensei que fosse treino das bolas paradas, até de penáltis, por ser Taça, mas não. Ainda estivemos a trabalhar a parte estratégica. As bolas paradas devem ficar para segunda-feira, no treino matinal, que vai servir também para mexermos um bocadinho. Depois do treino fizemos o teste de covid-19. Já tínhamos feito também na quinta-feira já tinham feito.

Comecei há pouco tempo a trabalhar com o meu pai, que tem muito jeito para serralharia civil. Estou a ajudá-lo, mas por ser com ele tenho facilidade em conciliar os horários. Antes tinha um trabalho diferente e não dava para conciliar. Estava no Sporting, curiosamente. Tenho um amigo que é responsável na Loja Verde e estive lá, mais na parte do armazém, receber os equipamentos e isso. Deixei quando apareceu o covid-19, e agora não ia dar para conciliar porque esta época o Sacavenense voltou a treinar de manhã. É curioso agora defrontar o Sporting.

Para além disso joguei no Sporting entre os nove e os treze anos. A minha geração era Rui Fonte, Diogo Rosado, Diogo Viana, Diogo Amado, Cédric. Foi há muitos anos, era muito miúdo, mas algumas amizades duram até hoje. O Duque, agora meu colega no Sacavenense, também jogou comigo no Sporting.

André Pires no Sporting: é o primeiro em baixo, a partir da esquerda.

No Sporting foi também colega do André Almeida, que depois reencontrei no Belenenses. Tornámo-nos grandes amigos. Temos brincado sobre o jogo. Ainda esta sexta-feira estive a tarde toda com ele e a conversa vai sempre parar ao jogo. Não fiz nenhuma aposta com ele, mas em contrapartida a minha mãe diz que vai mesmo apostar no Sacavenense.

Quando saí do Sporting tive oportunidade de ir logo para o Belenenses, mas fui para o Oeiras por causa de um treinador, o Gonçalo Nunes, que tive no Sporting. Na altura eu morava no Sobral de Monte Agraço e foi preciso um esforço enorme dos meus pais e dos meus avós, que me levavam a Oeiras.

Depois eu e o Abel Camará fomos do Oeiras para o Belenenses nos juniores. Poucos meses depois assinei contrato. Eu, ele, Fredy, Pelé e André Almeida. Era ainda júnior quando fiz a estreia na equipa principal, frente ao Rio Ave, pelas mãos do Rui Jorge, que era o meu treinador nos sub-19. Já gostava dele, pois ia ver os jogos do Sporting quando era miúdo, a família é toda sportinguista. Como sou canhoto gostava dele, da forma como ele cruzava. Foi giro trabalhar com ele, e depois é com ele que faço um jogo pela seleção sub-21. É um grande treinador, o que tem feito na federação está à vista de todos. Um percurso impecável em dez anos. É um treinador diferenciado.

Aqueles anos no Belenenses foram giros. São tempos totalmente diferentes de agora. Hoje em dia a malta mais velha está sempre a dizer “se fosse na minha altura”… Ainda cheguei a lavar as botas a alguns colegas, e tinha de ir sempre eu para o meiinho. Havia mais respeito pela malta que tinha conquistado coisas, mais consagrada. Hoje em dia é mais fácil chegar aos seniores, por vezes é quase de mão beijada.

André Pires no Belenenses

Do Belenenses fui para o Beira-mar, com o Abel Camará. Mas ainda fiquei mais seis meses no Belenenses, por empréstimo. No final da época surgiu a oportunidade do Sp. Braga. Foi-me dito que o mister Leonardo Jardim gostava de mim, que ia fazer a pré-época com a equipa principal. Só tinham o Elderson para a minha posição. Eu era internacional sub-21, estava a aparecer bem, mas foi em Braga que as coisas tornaram-se complicadas. Tive uma lesão grave e depois as coisas nunca mais foram como desejei. Ainda passei por bons clubes, mas talvez as coisas tivessem sido diferentes. A vida é mesmo assim.

Fui operado e apanhei uma bactéria no bloco operatório. Nunca mais fui o mesmo. Na altura disseram-me logo isso. Estive dois anos parado. Foi uma lesão nos ligamentos cruzados. Rompi tudo.

Tinha mais dois anos de contrato, ainda fiz uns jogos pela equipa B, com o mister Bruno Pereira. Acreditou em mim, embora eu sei que no Braga nem queriam que eu jogasse. Senti logo que não era o mesmo. Cheguei depois a acordo para rescindir e fui para o Olhanense, com o Toni Conceição, que já conhecia do Belenenses. Estavam lá os investidores italianos, mas fiquei apenas três ou quatro meses. Depois deixaram de pagar e ainda me ficaram a dever algum.

Depois fui para o Trofense, na II Liga, mas o clube já estava condenado à descida. Ainda tinha casa em Braga, nessa altura. Fiz 30 jogos nesse ano, o que foi importante para mim, depois daqueles dois anos difíceis.

No último dia de mercado seguinte fui para o Santa Clara, um pouco contrariado. Não correu muito bem, foi aí que começou o declínio. Estive la dois ou três meses. Já cheguei com o comboio em andamento. O treinador era o Filipe Gouveia, que até era representado pelo Nélson Almeida, como eu, mas ao fim de algumas semanas saiu. Eu já ia contrariado e também não tenho um feitio fácil. Ainda para mais houve ali uma confusão com os meus empresários e rescindi com eles e com o Santa Clara quase ao mesmo tempo.

Estive alguns meses sem jogar e depois fui para o Loures através do Nuno Hidalgo, guarda-redes que estava lá, meu amigo de infância. Quando cais nesta realidade, por muito que queiras… e depois já estava a ressentir-me muito dos problemas físicos, ainda por cima a jogar em sintéticos. Na altura da lesão os médicos ate me proibiram de jogar em sintéticos.

Depois apareceu o Sacavenense, um clube diferente, com um ambiente familiar. Percebi que, dadas as dificuldades que tinha, nunca mais ia chegar ao patamar onde estive. No futebol o tempo passa rápido. Vou para a quarta época no Sacavenense, gosto de lá estar. Sinto-me bem, ainda sinto que posso ajudar, embora não tanto quanto gostava.

Se calhar este jogo com o Sporting, no Jamor, será uma oportunidade única para muitos, mas eu digo à malta que é apenas um jogo, onze contra onze. Tudo pode acontecer. Vamos dar o nosso melhor. Sabemos que a diferença é gigante, mas vamos tentar desfrutar e tentar mostrar alegria em campo, que tem faltado. Para a malta estar mais solta, arriscar mais, que às vezes faz falta.»

André Pires no Sacavenense (foto: SGS)
Nuno Travassos