Se para alguns emblemas a Taça de Portugal representa uma oportunidade única para conviver com a elite, para outros é porta de embarque para uma viagem ao passado.

O Alverca sabe o que é defrontar o Sporting, mas a última memória é já de outubro desde 2003, quando um golo de Torrão ficou curto perante a resposta de Fábio Rochemback e Liedson (1-2).

Dezasseis anos depois, o sorteio da prova-rainha remete para as páginas mais douradas da história do emblema ribatejano, mas entre portas ninguém quer ficar agarrado ao passado.

«O Alverca passou por momentos muito grandes. Passaram aqui grandes jogadores, e essas recordações vão ficar sempre marcadas na memória e no espólio do clube. Não podemos esquecer aquilo que foi vivido aqui, e olhar para trás com um sorriso, mas o caminho para lá chegar novamente é possível, e espero que este clube se vá reerguendo e se vá reafirmando», afirma o presidente, Fernando Orge.

O Alverca chegou ao principal escalão em 1998, e por lá manteve-se quatro anos seguidos. Despromovido em 2002, ainda conseguiu voltar um ano depois, mas nova queda atirou para o abismo um clube que teve Deco, Mantorras, Maniche, Ricardo Carvalho, Kulkov ou Ovchinnikov, entre muitos outros.

O futebol sénior chegou mesmo a ser extinto, em 2005, e reativado um ano depois, no fundo da pirâmide do futebol nacional, a terceira divisão distrital.

«O Alverca viveu os momentos que viveu graças a alguém que teve visão para levar este clube lá acima. Foi Luís Filipe Vieira [ndr. atual presidente do Benfica]. Após a saída dele existiram alguns diferendos que fizeram com que o Alverca caísse no esquecimento e não tivesse sustentabilidade. O Alverca chegou a estar sem futebol sénior, e isso amargurou muita gente. A mim também, que sou filho da terra. Temos vindo, passo a passo, a estruturar o clube, a encontrar estabilidade para ter a ambição de chegar lá acima», acrescenta o atual líder, no cargo desde 2011.

Fernando Orge, presidente do Alverca

Do distrital à nova SAD

Por estes dias a equipa principal do Alverca ocupa os lugares cimeiros da Série D do Campeonato de Portugal, sem qualquer derrota (com cinco vitórias e dois empates está a um ponto do líder Olhanense). A II Liga é o próximo objetivo, e para isso a estrutura tem crescido a preceito. Há um ano o clube inaugurou o tão desejado centro de formação - que na primeira fase contempla dois campos sintéticos de futebol de 11 e um de futebol 7/9 -, e tem ainda uma equipa B na segunda divisão distrital.

Centro de formação (foto: FC Alverca)

Um processo de profissionalização em curso, portanto, até porque no final do ano passado foi fechado o acordo para que um grupo de investidores assumisse o controlo da SAD, na qual a participação do clube ficou em apenas 20 por cento.

O nome maior desta operação é o empresário brasileiro Ricardo Vicintin, que tem estado representado em Alverca pelo antigo guarda-redes Artur Moraes.

«O Alverca é uma equipa de futuro. Está a estruturar-se de forma tranquila e sólida. Com responsabilidade, sem deslumbramento, para chegar lá acima de forma consolidada. É um projeto a longo prazo, e o tempo que demorar será o tempo necessário. O futebol é incontrolável, por isso sabemos que é algo que não será fácil, vai dar muito trabalho», explica o antigo dono da baliza do Benfica.

Artur Moraes, vice-presidente da SAD do Alverca

Questionado sobre a relação existente entre Alverca e Benfica, não só pelo seu nome, mas também pelo passado de Luís Filipe Vieira, Artur diz que se resume a «uma amizade grande».

«Agora estou aqui como dirigente do Alverca, que defendo com unhas e dentes. Existe uma história, existe amizade, mas o meu símbolo agora é o do Alverca», reitera.

Da amizade benfiquista às ligações leoninas

Já Fernando Orge assume uma ligação ao Sporting, afetiva, mas com o coração bem esclarecido.

«Qual o meu clube? O Alverca. E depois? O Alverca. Depois sou do Sporting. Mas o coração não vai estar dividido, é azul e encarnado», responde o líder do emblema ribatejano, que terá «todo o gosto» em receber o homólogo leonino, Frederico Varandas, na tribuna.

A ligação ao Sporting não fica apenas pelo presidente, no entanto. No plantel do Alverca há sete jogadores que passaram pela formação leonina, para além do treinador, Vasco Matos.

«É um jogo especial para mim, que estive seis anos na formação do Sporting. É sempre bom defrontar um clube onde fui formado», assume o central João Freitas, que foi colega de Tiago Ilori.

O guarda-redes Miguel Lázaro, também com passado leonino, garante que a preparação do jogo será igual, ainda que do outro lado possa estar Bruno Fernandes. Titular no campeonato, o atleta de 24 anos tem cedido a baliza a João Victor na Taça, mas não se mostra amargurado perante a possibilidade de perder este jogo, lembrando que o mais importante é o sucesso da equipa.

Jorge Bernardo também fez parte da formação do Sporting, mas diz que o adversário «não atravessa uma fase muito boa», ainda que garanta que «isso não é motivo para desvalorizá-lo».

Embora esteja a cumprir a primeira época em Alverca, o lateral de 28 anos também tem noção da importância do encontro para o emblema ribatejano: «O Alverca quer-se reerguer, e temos que aproveitar este jogo para tentarmos levar já o Alverca até à ribalta».

O duelo da Taça é uma janela de oportunidade para os jogadores, muitos deles em início de carreira profissional, mas é também uma montra que o clube não tinha há muito, e na qual espera ver futuro no passado.

Nuno Travassos