Jogo sem história ou jogo histórico? Na verdade, ambos.

Esta noite, o FC Porto goleou o vizinho Coimbrões por 5-0 num jogo da 3.ª eliminatória que fez jus à festa da Taça de Portugal.

Do Parque Silva Matos ao Estádio Jorge Sampaio são 17 quilómetros. Porém, o abismo entre este FC Porto, mesmo em versão alternativa, e o Coimbrões, do Campeonato de Portugal, consegue ser ainda maior.

O Coimbrões jogou na casa emprestada, que curiosamente é a da equipa B do FC Porto – onde cresceram Diogo Costa, Diogo Leite, Bruno Costa, Fábio Silva, Romário Baró… os portugueses que esta noite se exibiram de dragão ao peito.  O sintético deu lugar a um relvado natural e o FC Porto acabou por fazer um passeio longe do Parque.

Na verdade, o Centro de Estágios do Olival também não fica longe e o que se tornou evidente é que jogo acabou por quase fazer-se ao ritmo de treino para a equipa de Sérgio Conceição, que com uma dúzia de minutos já vencia por 3-0.

Luis Díaz, Soares, Mbemba. Não fosse o pé ligeiramente levantado do acelerador dos dragões e outros pés providenciais dos defesas dos gaienses, que salvaram pelo menos dois golos sobre a linha, e a contagem teria seguido uma cadência impressionante até ao intervalo.

Perante tal desequilíbrio, difícil é cingirmo-nos a aspetos táticos. O Coimbrões de Pedro Alves apareceu arrumado num 4-2-3-1 em campo, mas as fragilidades defensivas e incapacidade de desdobramento ofensivo tornaram o desfecho da eliminatória previsível demasiado cedo.

Se na primeira parte o FC Porto tirou cedo o pé do acelerador, no início da segunda quase adormeceu ao volante. À passagem da hora de jogo, o Coimbrões teve a sua primeira oportunidade, num lance em que Alex Gomes driblou na área e rematou para defesa de Diogo Costa. Uma contramão a quebrar a monotonia de um sentido único que só não terminou em meia-hora de gestão porque Díaz ligou o turbo para bisar e Fábio Silva ainda tinha história para escrever.

Recarga e golo. Aos 81m, o ponta-de-lança de 17 anos, que na última época cresceu neste relvado de Pedroso, haveria de tornar-se aqui no mais jovem jogador de sempre a marcar pela equipa principal do FC Porto.

Final perfeito para a Taça, com ambiente, festa e adeptos.

Se para o FC Porto, o jogo foi um passeio, para o Coimbrões esta foi uma tarde-noite histórica para um clube que dentro de seis dias completa 99 anos de idade.

Um clube que, até hoje, só por uma vez o Coimbrões havia defrontado um grande: perdeu com o Sporting por 6-3, em Lisboa, em 1929… Há 90 anos.

A partir de hoje, o Coimbrões pode gabar-se de já ter feito peito ao ilustre vizinho portista.

Orgulhosos, os amadores jogadores gaienses deram a volta de honra e saíram de campo sob aplausos. Merecidamente. Não há goleada que deslustre tamanho orgulho.

Sérgio Pires / Estádio Jorge Sampaio, em Vila Nova de Gaia