Chegar ao Parque das Nações por estes dias é dar de caras com cartazes da Web Summit e um perímetro de segurança tal que pode ter de caminhar bastante até entrar. A experiência, as connections, começam logo aí. Na ciclovia ocupada pela enchente, ouvem-se os risos de duas estrangeiras que chegam de trotinete elétrica, com “sorry” e “excuse me” a fazer de buzina. A nova moda entre os lisboetas parece ter pegado. Funciona através de uma aplicação, todos ligados à Internet, em cima de tecnologia, rumo à cimeira tecnológica. Muitos de nós de olhos postos no telemóvel, a ver o que estamos a perder. Mesmo quem marca passo a conversar, terá os dados móveis ligados ou o GPS, sinal de que muitas entidades sabem onde andamos, até quem somos. Fica a pergunta: “Porque é que não conseguimos regular a m**** da Internet?”.

Não somos nós que a fazemos – poderíamos ter sido. Foi Christopher Wylie, a voz que denunciou o roubo de dados do Facebook pela Cambridge Analytica. Depois do almoço, arrancou aplausos entusiastas da plateia na sessão dedicada a como a privacidade dos cibernautas está comprometida e o que se vai fazer para combater o problema. Da Altice Arena para o mundo digital.

Se quando vais ao médico te sentes seguro e essa relação resulta, o mesmo tem de acontecer com a Internet. (...) We need rules. Precisamos de regras, de um código de conduta, de ética”.

Daí aquela pergunta. É assim tão difícil? “Não é funny os políticos não entenderem”, critica Christopher Wylie. Ou fingirem. O que aconteceu recentemente com a interferência da Rússia nas eleições dos EUA, através do Facebook dá dimensão muito real ao problema. Se aconteceu isto agora, sem regulação apertada, é possível perspetivar o pior: “E daqui a 20 anos, imaginam?”.

Divinizamos as empresas tecnológicas. Vamos permitir que estas empresas colonizem as nossas sociedades? (...) O Facebook sabia desde o início e não fez nada".

 

Vamos olhar para o futuro: os nossos dados são captados na Internet, com a Alexa e a Siri temos inteligência artificial nas nossas casas. O que acontece quando a tua casa começar a pensar sobre ti? Quando estiver conectada com o carro, as estradas, o escritório? Quando começarem a tomar decisões por ti, sobre o que podes ou não ver? Quando o teu ambiente toma as decisões por ti?".

Certeiro nas perguntas, com tom de alarme, quis sensibilizar: “Todos os dias tocamos na vida das pessoas. As pessoas dormem com os telefones. É um grande, grande problema não pensarmos nisso, no que fazemos às pessoas. Temos um ambiente em que a tecnologia pensa por nós e toma decisões por nós”. A Internet, então, está no meio de nós, sem que muitas vezes nos apercebamos como os nossos dados e a nossa localização circulam e como são utilizados e por quem. Regulação a sério precisa-se.

As notícias que correm nos últimos tempos mancham bastante as vantagens da Internet, que todos sabemos que são muitas. A Web Summit é um pequeno laboratório disso mesmo: na aplicação recebemos notificações das sessões a decorrer, lembretes, avisos; permite fazer conexões com outros participantes, com a ajuda do QR Code. É ver toda a gente a olhar para os umbigos dos outros, onde repousam os cartões de apresentação, com o nome, o meio/empresa de onde vêm e o dito QR Code. Através da app ainda se descobrem conhecidos que também andam por aqui e é possível trocar mensagens. 

A tecnologia é útil, mas as pessoas de carne e osso também. Cerca de 500 voluntários ajudam quem se sente perdido ou, não estando, precisa apenas de alguma indicação.

O grupo de Madalena, Filipe, Pedro, Ricardo e Parusa tem outra função. Todos voluntários, estudam Informática (um deles é de Eletrotécnica) em diferentes universidades de Lisboa e a última em Munique. Analisam o tráfego dos hotspots. Só são permitidos aqueles com chancela Web Summit, mas no ano passado foram detetadas muitas infrações.

Esta equipa de detetives, digamos assim, reporta a quem de direito. Estão a aplicar o que estudam, alguns voluntários pela primeira vez, outros a repetir a experiência. “Queríamos vir e não tínhamos dinheiro para o bilhete”. Saem a ganhar. Há sempre inputs, como se diz por aqui.