Se nada for feito para combater as alterações climáticas, uma criança que nasça hoje viverá num mundo quatro graus mais quente do que o que existia na época pré-industrial e isto afetará a sua saúde desde a infância à velhice. O alerta é deixado por um grupo de cientistas num estudo publicado na revista The Lancet.

Em todo o mundo, as crianças são as mais afetadas pelas alterações climáticas.”

O relatório anual da Lancet sobre saúde e alterações climáticas reúne as conclusões de 120 especialistas, de 35 instituições, incluindo a Organização Mundial de Saúde, o Banco Mundial, as universidades de Yale e Tsinghua.

O texto especifica os efeitos que o aumento das temperaturas terá numa criança que nasça hoje na sua infância, adolescência, idade adulta e velhice.

Na infância, por exemplo, a desnutrição poderá agravar-se por causa de fenómenos meteorológicos como incêndios, secas e inundações, que afetam o rendimento das colheitas. Por outro lado, as bactérias que provocam diarreia mortal vão proliferar e as crianças são mais vulneráveis a estes problemas.

Durante a adolescência, a poluição do ar devido aos combustíveis fósseis vai afetar o coração, os pulmões e outros órgãos de uma criança que nasça hoje. A acumulação de agentes poluidores nos diversos órgãos irá provocar mortes prematuras. Os especialistas alertam que em 2016 registaram-se 2,9 milhões de mortes prematuras devido apenas à existência de partículas finas no ar. Totalizando todas as partículas poluentes, as mortes prematuras neste ano atingiram os 7 milhões.

Na vida adulta e na velhice, este menor que nasça hoje irá sofrer com a ocorrência de fenómenos meteorológicos extremos, que serão mais frequentes e intensos.

É o caso dos incêndios florestais de grande dimensão. Numa altura em que a Austrália se vê a braços com uma vaga de incêndios sem precedentes, o documento alerta que a exposição de indivíduos a fogos florestais duplicou em relação ao ano de 2000.

Também as ondas de calor serão mais frequentes e intensas e os idosos são muito mais vulneráveis a estes fenómenos. Os cientistas referem que no ano passado, comparativamente com o ano de 2000, houve mais 220 milhões de pessoas com mais de 65 anos que estiveram expostas a ondas de calor. Neste domínio, a Europa está especialmente em risco, devido ao aumento do número de idosos que vivem em cidades cada vez mais quentes.

Hugh Montgomery, professor da Universidade de Londres e um dos autores do estudo agora publicado pelo Lancet, afirmou que o impacto da crise do clima na saúde está a piorar e apelou à ação urgente.

As nossas crianças reconhecem a emergência climática e pedem ação para as protegermos. Temos de ouvir e responder. Este ano, os impactos das alterações climáticas tornaram-se mais claros do que nunca. O registo de temperaturas recorde na Europa, os incêndios na Sibéria, em Queensland e na Califórnia agravaram os problemas e as infeções respiratórias", vincou.