Um “apagão”. Foi assim que milhões de pessoas experimentaram forçadamente um 'detox’ das redes sociais da empresa Facebook que, durante seis horas, estiveram em baixo esta segunda-feira.

Foi a primeira vez na história e causou danos no bolso de Mark Zuckerberg e na rotina dos utilizadores. Mas não só. O que sentimos, afinal, quando as páginas bloqueiam, as mensagens não chegam ao destino ou as imagens que queríamos partilhar não chegaram a ninguém?

Embora considerada pelos especialistas uma interrupção relativamente curta, a paragem do Facebook veio mostrar como “somos dependentes das redes sociais. Seja para nos distrair, como forma de escape ou como forma de lidar com a ansiedade e o stress”, avançou à CNN Ian Kerner, terapeuta familiar.

Sozinhos ou aliviados

O especialista avançou que aquele processo de ficar “sozinho”, fragiliza as pessoas. “Ficam sozinhas com os pensamentos. Éramos muito melhores antes das redes sociais, conseguíamos estar sozinhos, encontrávamos outras formas de nos distrair”, continuou.

As pessoas definitivamente têm medo de perder", explicou. “Perder ou partir o telemóvel ou ver um telemóvel estragar-se causa pânico em algumas pessoas pelo simples facto de saberem que, enquanto estiverem sem o aparelho, ficam desconectadas dos outros.”

No entanto, esta paralisação proporcionou simultaneamente uma “grande sensação de alívio” entre os utilizadores. Por saberem que todos estavam a passar pelo mesmo, não se sentiram “sozinhas, isoladas ou até em pânico”, explicou à CNN.

O terapeuta John Duffy relatou ter tido conversas semelhantes com os seus pacientes no dia seguinte ao apagão.

Quando se aperceberam que estavam todos offline, houve uma sensação bizarra (mas clara) de alívio. É o sentimento de que não vão perder nada porque não está a acontecer nada, as redes estão em baixo”, disse à mesma fonte.

O especialista acredita que durante a mais longa interrupção forçada de redes sociais, os cibernautas se aperceberam da importância dos laços estabelecidos offline e o real vazio em que caíram quando se depararam sem Whatsapp, Facebook ou Instagram.

Através do serviço de mensagens, por chamado ou com recurso a outras aplicações, “quem se sentiu aliviado com este apagão quis aproveitar para estar pessoalmente com alguém de quem gosta e houve quem tenha desinstalado as aplicações”, disse Duffy.

O terapeuta garantiu que muitas pessoas ter-se-ão apercebido que estavam demasiado viciadas nas redes sociais. “Pensaram: Se calhar posso ver isto duas a três vezes por dia, em vez de 20 ou 30”, adiantou.

Dopamina digital

Mas, se algumas pessoas se sentiram aliviadas sem as redes sociais, porque é que é tão difícil ficar longe das aplicações ou parar de verifica-las com tanta frequência?

Anna Lembke, professora de psiquiatria e ciências comportamentais da Universidade de Stanford avançou que a forma como o cérebro humano funciona, nos responde a essa questão.

No livro “Dopamine Nation”, a especialista explora a superabundância de estímulos a que facilmente temos acesso e que estão a afetar o cérebro e os índices de felicidade.

“O smartphone é a agulha hipodérmica dos dias modernos, fornecendo dopamina digital 24 horas por dia, sete dias por semana a uma geração conectada”, escreveu.

 

Embora o "vício em redes social" não esteja atualmente incluído na categoria de transtorno mental, Lembke disse à CNN que não tem dúvidas que as redes sociais podem ser viciantes.

As conexões humanas estimulam a libertação de dopamina e qualquer coisa que estimule a dopamina no cérebro, tem o potencial de ser viciante", reforçou.

Desenvolver hábitos mais saudáveis

As pessoas que estão mais tempo nas redes sociais tendem a ser as mais solitárias, porque não se sentem conectadas. Parece estranho, mas é real. Mesmo que estejam a enviar mensagens, mesmo que estejam a publicar textos ou imagens, há algo que falta”, explicou o terapeuta John Duffy, que recomenda uma “desintoxicação digital” de um mês para desenvolver uma relação mais consciente com as redes sociais.

 

“Quando os utilizadores param cerca de um mês, quando regressam, passam um terço do tempo nas redes. Para além disso, assiste-se a um aumento da autoestima”, continuou em declarações à CNN.

Já o terapeuta Ian Kerner, avançou que uma boa forma de combater este “vício” passa pela auto-atribuição de tarefas ou hobbies.

Uma das queixas que mais recebo de casais é que um deles está sempre ao telemóvel”, disse Kerner à CNN.

No entanto, caso não queira desinstalar já as aplicações, os especialistas avançam pequenas mudanças que podem incluir eliminar alertas, definir limites de tempo ou dias específicos da semana para utilizar as redes.

Como sociedade, precisamos de estabelecer uma etiqueta digital e espaços livres de tecnologia, onde intencionalmente deixamos os nossos telemóveis em casa e realmente fazemos um esforço para estarmos presentes no momento da vida real: uns com os outros”, disse Lembke.

 

De acordo com o Pew Research Center 2021, 49% dos utilizadores adultos do Facebook nos EUA visitam aquela rede social várias vezes por dia, valor que diminui para 38% quando se referem ao Instagram.