Em setembro deste ano, quando Tim Cook repetir a célebre frase “Este é o melhor iPhone que já criámos”, terá certamente razão, em dobro. Na celebração dos 10 anos do smartphone que mudou o setor e a vida de milhões no mundo, espera-se que Cook e restante equipa nos deslumbrem com as novidades da versão 10, a mais apetecível em muitos anos. Como muitos - eu incluído – acreditam, a Apple ‘saltará’ por cima das versões 8 e 9, aproveitando a efeméride. Quanto à falha... já  lá vamos.

Num novo ano de inovação incremental, caberá à Apple segurar a dependência de 60% das suas receitas com seu novo equipamento móvel de sonho. Jonathan Ive certamente descreverá todo o intenso trabalho em redor do novo corpo em vidro, destacará o melhor carregamento wirelesse o ecrã frontal integral, sem barras e sem botão de Home. Para desbloquear, bastará colocar o polegar em qualquer lado ou usar a câmara frontal com reconhecimento da íris do olho. Isto tudo encimado pela cereja no topo do bolo, que será uma versão exclusiva em cerâmica e com capacidade de realidade misturada.

A Lei de Moore continuará a trazer capacidades redobradas de processamento, memória e resolução da câmara pelo mesmo preço. E já que falamos em câmara, desaparecerá por fim a obtusa protuberância da lente, estragando o fino e elegante design do aparelho que, já hoje, neste aspeto, perde para a concorrência.

E ficará claro, por fim, porque matou a Apple a entrada dos auscultadores na versão 7 (versão que manterão, em 7S, quase na certa, de forma a manter a oferta para os bolsos que não conseguem comprar o 10, mantendo assim retornos com maiores margens nos equipamentos de segunda linha).

E chegamos à falha. Agora que passaram alguns meses e podemos falar com mais propriedade, percebemos a mestria da Apple ao eliminar a saída de áudio já em 2016. A utilidade da decisão para o cliente, já se antevia, foi nula (ou até mesmo contrária!); quem sabe poderá vir a sê-lo, um dia, mas não agora. Mas foi sobretudo um erro comunicar uma decisão tática (o fim da saída de áudio serve decisões práticas como maior bateria ou câmaras fotográficas mais potentes) encapotando-a de inovação, onde qualquer um pode agora prescindir dos fios dos seus auriculares de 9 euros e optar por modelos 10 vezes mais caros e sem fios. Alguém viu alguém a usá-los? Raramente. Até porque o lançamento foi um flop, com atrasos sucessivos e reviews duvidosas quanto ao seu real valor prático e qualidade de som... É sem dúvida uma inovação, e com soluções criativas. Mas é algo útil? Não, por enquanto. A Apple quis simplesmente antecipar a má notícia em 2016, evitando misturá-la com as “boas novas” do iPhone 10 em 2017. Assim, o desenvolvimento do equipamento prossegue já sem saída de áudio e com mais espaço necessário para albergar a fina lente fotográfica e a bateria.

O episódio não deixa de colocar a empresa da maçã numa posição onde jamais deveria estar: banalizar a criatividade que leva aos seus clientes. Obuzz gerado em torno desta fará com que muitos, face a próximas novidades, duvidem e, simplesmente, esperem para ver - sobretudo aqueles que a Apple nunca deveria defraudar, os seus fãs mais acérrimos, que acreditam sempre, sem vacilar, no que a marca lhes diz.

Esperemos que, daqui a alguns meses, a confiança da Apple na relação com os seus clientes tape este episódio, demais empolado para agradar a acionistas e fazer soar os títulos de artigos para fazer crer que o iPhone 7 tem inovação e é cool. De facto, é. Mas porque é um iPhone. Mas um novo iPhone (não um iPhone melhorado) precisa de 36 meses para estar pronto. O mercado pede em 12. Nunca vai acontecer. Em 24? Aqui e acolá, encapotado em novas formas, ora redondas ora retas - ou com novas cores, talvez.

Com os desejos do novo ano, que venha setembro, e saiba a Apple responder, com verdade, às promessas de criatividade que desenhou. Com mais ou menos cores, mais ou menos alumínio, queremos todos que seja como um companheiro, que continue a tornar mais fácil e divertida a vida que, quotidianamente, levamos. No fundo, para tornar tudo mais simples, pensando soluções de forma diferente. “Só” isso. Um iPhone, portanto.