Todos os anos repetem-se os avisos, todos os anos repetem-se os esquecimentos. Nós não estamos mesmo preocupados com o que o futuro nos reserva (e que não é assim tão longínquo).

Em outubro, o furacão Leslie, que ameaçou a Madeira, mas quase não se sentiu no arquipélago, atingiu com força o continente, entrando com violência pela Figueira da Foz e causando o pânico em vários pontos do centro do país. Além de muitos danos materiais, centenas de milhares de pessoas ficaram temporariamente sem luz elétrica.

Portugal continental não esperava deparar-se com um furacão, mas ao longo do último ano foi alvo de tornados e trombas de água, além das cada vez mais habituais chuvas intensas que em poucas horas causam cheias ou deslizes de terra, sem esquecer as rajadas de vento que arrastam árvores e estruturas.

No último ano, o mau tempo no nosso país causou mesmo vários feridos.

E não nos podemos esquecer dos incêndios, como o de Monchique, que lavrou durante uma semana, ou da seca em quase todo o país no início do ano.

Ao nosso lado, em Espanha, por exemplo, nevou em Barcelona e choveu torrencialmente em Maiorca. Em Itália, as fortes chuvas não deram tréguas, causando vários mortos, o mesmo acontecendo em França. Na Rússia, Suécia, Alemanha ou Reino Unido registaram-se ondas de calor.

Os portugueses também não escaparam às altas temperaturas que atingiram a Europa.

E todos os anos os "sintomas" agravam-se. Os cientistas estimam que 2019 vai ser ainda mais quente que 2018.

Devemos continuar a ignorar todos estes acontecimentos?

As alterações climáticas potenciam os desastres naturais, como alertou no passado dia 2 de dezembro, na abertura dos trabalhos da 24.ª conferência da ONU para o clima (COP24), na cidade polaca de Katowice, a secretária executiva das Nações Unidas para a Mudança do Clima.

Patrícia Espinosa avisou que os impactos das alterações climáticas “nunca foram tão graves”, razão pela qual devem levar a comunidade internacional a “fazer muito mais” para contrariar a situação.

No mesmo evento, o conceituado naturalista britânico, David Attenborough, afirmou que as alterações climáticas são "a maior ameaça à Humanidade em milhares de anos"

Estamos a assistir a um desastre à escala global, provocado pelo homem. Ameaças ultrajantes ao longo de anos. Dei o meu melhor para contar a verdade como a vejo. O mundo está a aquecer e a ciência está a comprová-lo de forma clara", avisou Attenborough na COP24.

Ou seja, precisou, se o aquecimento do planeta em que vivemos não for travado, o colapso das civilizações e a extinção da maior parte do mundo natural como o conhecemos estão garantidos.

Uma ameaça que não se vai concretizar em 2019, é certo, mas que acontecerá muito mais cedo do que prevíamos.

A ciência mostra-nos hoje que aqueles que nas últimas décadas se dedicaram ao estudo do aquecimento global falharam importantes previsões. Falharam na dimensão e gravidade que estão a assumir os fogos florestais, as secas, as chuvas e as tempestades; falharam na avaliação do degelo na Antártida e na Groenlândia, bem como na sua implicação para a subida do nível do mar; e falharam na identificação de uma série de problemas de saúde pública, que matam já milhares de pessoas por ano.

As consequências do aquecimento global estão a ser mais rápidas, mais extensas e muito piores do que se pensou que poderiam ser. E se continuarem a avançar a esta velocidade, décadas de progresso mundial na saúde terão o seu fim.

A Organização Mundial de Saúde dá um exemplo: nove em cada 10 pessoas no mundo respiram ar contaminado, o que provoca sete milhões de mortes anuais por causas diretamente relacionadas com a poluição.

Com o Acordo de Paris, em 2015, os países comprometeram-se a manter o aquecimento global abaixo de 2ºC e limitá-lo a 1,5ºC em relação ao século XIX. Mas também se comprometeram em reduzir as emissões de gases com efeito de estufa e com a transição para energias mais limpas que os combustíveis fósseis. 

E cumprir o Acordo de Paris pode salvar um milhão de vidas por ano.

As alterações climáticas estão já a ter um grande impacto na vida e saúde das pessoas e ameaçam, presentemente, as bases de uma boa saúde: ar limpo, água potável, alimentos saudáveis e um teto seguro.

A verdadeira fatura das alterações climáticas sente-se nos nossos hospitais e nos nossos pulmões”, afirmou, recentemente, a diretora de Saúde Pública da OMS, María Neira.

Segundo o relatório anual da Global Carbon Project, que envolve cientistas, académicos, governos e indústria, as emissões de dióxido de carbono aumentaram nos últimos dois anos e devem crescer 2,7% em 2018, por comparação ao ano anterior, muito por culpa dos retrocessos da China e dos Estados Unidos.

Europa sob ameaça

Voltemos aos números: dentro de cerca de dez anos, as alterações climáticas vão causar mais de 250 mil mortos todos os anos.

Manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC significa que haverá menos pessoas expostas a ondas de calor, chuvas fortes, secas, tempestades e inundações, assim como pode conter o aumento do nível do mar.

Mais de 157 milhões de pessoas vulneráveis em todo o mundo, incluindo idosos, estiveram expostas a ondas de calor em 2017. Foram mais 18 milhões que em 2016, revelou um estudo publicado na revista médica britânica The Lancet, e que é o mais recente relatório sobre os efeitos das alterações climáticas na saúde.

E a Europa, nas suas cidades, e o Leste do Mediterrâneo são apontadas como as regiões mais fragilizadas pelo calor, comparativamente com África ou o Sudeste Asiático. A região mediterrânica será, aliás, a mais atingida, com graves consequências económicas e ambientais.

2018 poderá ser o quarto ano mais quente desde que há registos, segundo a Organização Meteorológica Mundial, e 2019 promete bater novos recordes.

E, neste momento, o mundo caminha para que as temperaturas subam 3,2 graus até ao final do século.

Vénus ressurgiu como um alerta à Terra. Muitos são os investigadores que defendem o aviso importante que está subjacente a Vénus, de que os efeitos de estufa não são apenas teoria. Isto porque, no passado, Vénus terá tido condições para ser habitável, mas agora tem temperaturas acima dos 450ºC

Vénus é um laboratório para entender a física do clima e as alterações climáticas de um planeta parecido com a Terra. É impossível saber tudo sobre as alterações climáticas na Terra estudando apenas a Terra", afirmou  ao estudar apenas a Terra”, afirmou, numa entrevista, David Grinspoon, cientista planetário e astrobiólogo do Instituto de Ciência Planetária de Denver, nos Estados Unidos.

Uma coisa é certa para as Nações Unidas. A oportunidade de inverter as alterações climáticas está a acabar.

O mundo em 2018

Incêndios na Grécia, Estados Unidos e Suécia, furacões, tufões e inundações, muitas na Europa, deixaram um rasto de destruição e mortalidade em 2018.

França, Itália e Espanha foram atingidas por fortes chuvas e inundações durante o ano, que causaram dezenas de mortos, feridos e muitos danos materiais.

Na Grécia, mais de 90 pessoas morreram no incêndio que atingiu a península Ática, a 23 de julho, e dezenas ficaram feridas, nomeadamente na estância balnear de Mati.

Sete países da União Europeia, incluindo Portugal, uniram-se aos esforços para ajudar a combater os incêndios na Suécia, em julho, que atingiram uma área total de 25 mil hectares.

Na Nigéria, as autoridades locais confirmaram a morte de 100 pessoas devido às inundações provocadas pelas chuvas fortes que se fizeram sentir no país.

Entre os vários incêndios que atingiram a Califórnia, nos Estados Unidos, um deixou cerca de 90 mortos e destruiu a vila de Paradise, que tinha 27 mil habitantes.

Entre os vários furacões que ocorreram no Atlântico, o furacão Florence fez mais de 30 mortos no sudeste dos Estados Unidos. Os EUA também foram atingidos pelo furacão Michael, que deixou à sua passagem um cenário de devastação na Florida e fez pelo menos 17 mortos. 

Nas Filipinas, mais de 80 pessoas morreram e outras 70 foram dadas como desaparecidas na sequência do tufão Mangkhut, que deixou um rasto de destruição em vários países no Pacífico.

Na China, o tufão Mangkhut afetou sobretudo a província de Guangdong, no sul, onde pelo menos quatro pessoas morreram e 2,5 milhões tiveram de ser realojadas. A região administrativa de Macau também foi afetada pelo tufão, com registo de 40 feridos.

Igualmente o Japão foi atingido por vários tufões (entre os quais os fortíssimos tufões Jebi e Trami) e chuvas torrenciais que provocaram mais de duas centenas de mortos em julho.