A decisão dos deputados à Assembleia da República de deixarem de chamar autistas aos seus pares foi a primeira decisão tomada no Parlamento português suscitada pelo Twitter, uma espécie de mini-blogue cuja utilização tem crescido avassaladoramente no mundo nos últimos meses, avança a Lusa.

A questão foi colocada pela mãe de um autista numa conversa através daquela chamada «ferramenta» social - onde se pode escrever 140 caracteres de cada vez que ficam imediatamente disponíveis - com o deputado Jorge Seguro a 25 de Março.

Ana Martins, 45 anos, autora de livros e textos vários sobre autismo, pediu ao parlamentar socialista se «os senhores deputados quando se estão a mimosear entre pares seria possível não se denominarem AUTISTAS», de acordo com a troca de mensagens a que a Agência Lusa teve acesso.

Jorge Seguro reencaminhou o «desafio» para outros deputados que também usam o Twitter e seria Luís Carloto Marques a formalizar a proposta ao presidente da Assembleia da Republica, Jaime Gama, que a levaria à conferência de líderes parlamentares, onde seria aprovada por unanimidade.

«É a primeira vez que se toma uma decisão no Parlamento português suscitada por um cidadão que interpelou um deputado através do Twitter», disse à Agência Lusa o jornalista Paulo Querido, que acompanha com especial atenção o desenvolvimento das novas redes sociais na Internet.

Twitter é «uma ferramenta útil à democracia»

«É um bom exemplo da proximidade que se pode estabelecer entre deputados e cidadãos» através das novas ferramentas tecnológicas, mostrando que o Twitter é «uma ferramenta útil à democracia», acrescentou o «freelancer», que recorre ao programa há dois anos.

Luís Carloto Marques, deputado do Movimento Partido da Terra eleito nas listas do PSD, revelou à Lusa que há alguns meses vinha recolhendo exemplos de utilização no Parlamento de termos depreciativos e concluiu que nos últimos quatro anos as palavras «autista» e «autismo» constavam em 157 páginas de 123 edições do Diário da Assembleia da República.

O facto do «desafio» ter sido feito próximo do dia 02 de Abril, Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, veio acelerar a iniciativa que Carloto Marques disse ter previsto.

Jorge Seguro, que diz ter sido o primeiro deputado a aderir ao designado micro-blogging, há apenas três meses, considera que este caso inédito em Portugal é um «bom exemplo de como as novas tecnologias podem funcionar ao serviço da cidadania».

A «utilidade social» do Twitter

O Twitter é o «método mais rápido que existe» para, entre outras situações, os cidadãos poderem fazer chegar propostas, ideias, críticas ou só acompanhar as iniciativas dos deputados aderentes que no Parlamento português diz serem cerca de 60 dos 240 eleitos.

Carloto Marques considera que se trata de mais uma forma de aproximação entre os cidadãos e os deputados que os representam.

Apesar deste exemplo da «utilidade social» do Twitter, Paulo Querido lamenta que só alguns deputados e raros políticos, principalmente de pequenos partidos e movimentos, o utilizem para chegar junto dos seus «alvos»: os cidadãos.

Verdadeiramente, sustenta, num ano em que vão realizar-se três eleições (europeias, legislativas e autárquicas) no país, «a campanha dos políticos ainda não chegou ao Twitter».
Redação / AP