“A realidade é que nos tornámos no campo de batalha”. Aconteceu na I Guerra Mundial – e os 100 anos do armistício assinalam-se agora. Agora ia batalha também está a acontecer, constata o presidente da Microsoft. 2017 despertou o mundo para as ameaças reais da tecnologia, com ciberataques à escala global como o vírus Wannacry.

No ano passado, 1 bilião de pessoas vítimas de ciberataque no planeta”

Brad Smith não tem dúvidas de que “as instituições humanas falharam” na aprendizagem que deveriam retirar do passado. Na conferência que encerrou as sessões desta quarta-feira, no palco principal da Web Summit, deixou um lamento: “A humanidade não mantém a paz”.

“É tempo de refletir, é tempo de agir”, pediu. O empresário da gigante informática assinalou como a tecnologia pode fazer maravilhas, salvar vidas. “Em 10 anos, a inteligência artificial pode ajudar a curar o cancro”.

Ao mesmo tempo, se há um ciberataque podem-se perder vidas. "As ameaças estão a emergir. Há novas ameaças que envolvem a tecnologia. As ferramentas que criámos estão ser desenvolvidas como armas por outros”.

Antes de mostrar um vídeo com as infindáveis cruzes brancas de um cemitério, a propósito dos 300 mil mortos da batalha de Verdun, que na I Grande Guerra opôs alemães e franceses, o patrão da Microsoft mostrou um outro vídeo gravado no Reino Unido, para mostrar as consequências do Wannacry.

Houve cirurgias críticas que não puderam ser realizadas. Um dos doentes contou o que o médico disse na altura: “Fomos hackeados, o nosso sistema falhou”. Como alguém diz no vídeo, “uma máquina pode manter alguém vivo”. Se ela falha, pode falhar um coração.

Este vírus deitou abaixo 300 mil computadores, em 150 países, com um prejuízo de 8 milhões de dólares. Com efeitos diretos na vida das pessoas.

Também há um problema político

Quem nos governa é um problema de fundo. “Muitas vezes dizem que estes ataques não são motivo de preocupação, que não são ataques a pessoas, mas a máquinas. Isto é um problema: as pessoas também são vítimas”, “estão a sofrer em consequência”, insistiu o presidente da Microsoft.

As ameaças vão continuar a crescer. Tudo está conectado. Tudo pode ser disruptivo. Se o hospital perder computadores, eletricidade, as vidas das pessoas podem ser ameaçadas".

Se na I Guerra Mundial a batalha foi entre homens, mas também entre homens e máquinas, agora também se constata todos os dias, a toda a hora, uma rápida progressão do armamento. Que é também digital.

Revolução moral precisa-se

Citando Barack Obama, que em 2016 numa visita ao Japão proclamou que é preciso uma “revolução moral”, Brad Smith acompanha e acrescenta que “esse é o desafio do nosso tempo”.

Precisamos de fazer melhor. Precisamos de governos que façam melhor, que trabalhem além fronteiras, com princípios claros: proteger os cidadãos, proteger as eleições, proteger a internet. E o setor tecnológico tem especial responsabilidade.”.

Perante uma Altice Arena repleta, pediu para todos assinarem a petição para a “paz digital” criada pela Microsoft, disponível online. Será uma forma, defendeu, de as pessoas terem voz.

“Enquanto as ameaças aumentam, as vozes das pessoas continuam silenciosas. Precisam de ser ouvidas (…) Se conseguirem fazer-se ouvir, conseguiremos fazer deste século melhor do que o outro”. Terminou assim, aplaudido de seguida.

Combater o terrorismo online

Cerca de uma hora antes, no palco Forum, debateu-se o terrorismo online.Riscos”, “vulneráveis”, “quão grande a ameaça é” foram das primeiras palavras a dar complexidade ao problema.

Os terroristas usam a Internet para fazer propaganda, mobilizar, operacionalizar os ataques. É uma realidade que nos bate à porta nos últimos anos, através das notícias.

Também neste painel se apontou a paz como um “desafio” e assumiu-se que é “muito complexo” pôr um travão ao terrorismo. As plataformas precisam de ser mais resilientes, é preciso agir preventivamente e não reativamente. Não basta remover conteúdos de ódio.

Os oradores defenderam que é preciso identificar de onde vêm as ameaças, identificar sinais nas mensagens difundidas, ter uma noção clara da escala das pessoas envolvidas. E, mais uma vez, isto é preciso ser feito a um alto nível, de esfera governamental. É preciso querer.