Um estudo que contou com os dados de 96 mil doentes hospitalizados devido a infeção por Covid-19 chegou à conclusão de que usar hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento da doença aumenta o risco de morte dos infetados pelo SARS-Cov-2.

A investigação foi publicada esta sexta-feira na revista Lancet e é a mais abrangente até ao momento a procurar aferir dos riscos e benefícios da utilização destes medicamentos antimalária no tratamento da Covid-19. 

O estudo, liderado por Mandeep Mehra, professor da Harvard Medical School, e que conta com a colaboração de especialistas de outras instituições, é baseado numa análise retrospetiva dos registos médicos dos doentes e não numa avaliação controlada em que os participantes são divididos aleatoriamente em grupos, método que serial o ideal. Porém, a dimensão dos registos analisados parece ter convencido a comunidade científica, conduzindo à conclusão de que as pessoas tratadas com hidroxicloroquina e cloroquina têm maior risco de desenvolver problemas cardíacos, nomeadamente ritmo cardíaco irregular ou arritmias, comportando risco mais elevado de morte súbita. 

Uma coisa é não trazer benefícios, mas este estudo demonstra malefícios", sublinhou Eric Topol, cardiologista do Scripps Research Translational Institute, citado pelo The Washington Post

Mais cauteloso, o diretor de cardiologia preventiva da Stanford University School of Medicine disse ao jornal norte-americano que estes resultados provam que não há razão para otimismo em relação ao uso destes medicamentos na prevenção ou tratamento de Covid-19.

A investigação incluiu doentes com teste positivo para Covid-19 que foram hospitalizados entre 20 de dezembro de 2019 e 14 de abril de 2020, em 671 unidades de tratamemto médico de todo o mundo. A média de idades dos doentes rondava os 54 anos e e 53% eram do sexo masculuno. Os que precisavam de estar ligados a ventiladores ou que tinham tomado remdesivir, um medicamento que tem sido utilizado para reduzir o período de convalescença da Covid-19, não foram incluídos na investigação. 

Quase 15 mil dos 96 mil doentes incluídos na análise foram tratados com hidroxicloroquina ou cloroquina, ou então com uma combinação desses medicamentos com antibóticos como azitromicina e claritromicina, nas primeiras 48 horas a seguir ao diagnóstico. 

Aqueles que tomaram hidroxicloroquina tiveram um aumento de 34% no risco de mortalidade e um aumento de 137% no risco de desenvolver arritmias cardíacas graves. Os que tomaram hidroxicloroquina e um antibiótico - que é, segundo o Washington Post, o "cocktail" defendido por Donald Trump, que já veio dizer estar a tomar essa medicação - tiveram aumento de 45% no risco de morte e subida de 411% no risco de arritmias graves. 

Os que tomaram cloroquina tiveram um aumento de 37% no risco de morte e 256% no risco de arritmias graves. Os doentes a quem foi administrada cloroquina e um antibiótico tiveram uma subida de 37% no risco de morte e 301% no risco de sofrer arritmias graves. 

O autor principal do estudo, Mandeep Mehra, sublinhou que a utilização destes medicamentos foi baseada na ideia de que "tempos desesperados justificam medidas desesperadas", mas assinala que o método foi "imprudente".

Peter Lurie, do Center for Science in the Public Interest, disse ao Washington Post que os resultados do novo estudo não devem ser extrapolados para pessoas com sintomas ligeiros da doença ou aquelas que, como Donald Trump, tomam esses medicamentos como profilaxia, para evitar o contágio, mas defende que é necessário revogar a autorização de emergência garantida pelas autoridades de saúde dos EUA para utilização da hidroxicloroquina no tratamento de doentes graves.

A cloroquina e a sua variante hidroxicloroquina são usadas para regular a resposta imunitária do organismo, nomeadamente em tratamentos de malária, artrite reumatoide e lúpus, uma doença inflamatória autoimune. 
 
Para avaliar os efeitos da cloroquina e hidroxicloroquina na prevenção do contágio com Covid-19, está em curso um estudo que envolve mais de 40 mil profissionais de saúde de todo o mundo. 

Bárbara Cruz