As partículas de plástico existente no organismo da mãe durante a gravidez podem passar para o bebé. Isso mesmo é o que se conclui de um estudo realizado na Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos, que colocou minúsculas partículas de plástico no sistema respiratório de fêmeas de rato grávidas concluindo que estas passaram rapidamente para o coração, cérebro e outros órgãos dos seus fetos.

Este é o primeiro estudo num mamífero vivo que mostra que a placenta não bloqueia estas partículas.

A experiência também mostrou que os fetos de ratos expostos às partículas ganharam muito menos peso no final da gestação. Esta investigação segue-se a revelação, em dezembro, da existência de pequenas partículas de plástico em placentas humanas, algo que os cientistas encararam como “motivo de grande preocupação”.

A poluição microplástica atingiu já todas as partes do planeta, desde o cume do Monte Evereste até os oceanos mais profundos, e já se sabe que as pessoas consomem essas partículas minúsculas através dos alimentos e da água, e também inalam as partículas que se encontram no ar que respiram. Em outubro, uma outra pesquisa mostrava como bebés alimentados com leite em pó em biberãos engolem milhões de partículas por dia

O impacto na saúde das minúsculas partículas de plástico no corpo ainda é desconhecido. Mas os cientistas afirma que há uma necessidade urgente de estudar esta questão, especialmente no que toca ao desenvolvimento de fetos e bebés, já que os plásticos contêm produtos químicos que podem causar danos a longo prazo.

A professora Phoebe Stapleton, da Rutgers University, que liderou a investigação com ratos, disse ao jornal The Guaridan: “Encontramos nanopartículas de plástico em todos os lugares que analisámos - nos tecidos maternos, na placenta e nos tecidos fetais. E também no coração, cérebro, pulmões, fígado e rim do feto. ”

Este estudo é muito importante porque prova a possibilidade de transferência [de partículas de plástico] na gravidez de mamíferos. Foram encontradas partículas em quase todos os órgãos do feto - é muito chocante", afirma Dunzhu Li, do Trinity College Dublin (TCD) na Irlanda, não faz parte da equipa do estudo.

O professor John Boland, também do TCD, sublinha, no entanto, que "é importante não sobrevalorizar estes resultados", uma vez que as nanopartículas usadas têm uma forma quase esféricas, enquanto os microplásticos reais são objetos irregulares semelhantes a flocos. A forma é importante, pois dita como as partículas interagem com o ambiente.”

O estudo com ratos foi publicado na revista Particle and Fiber Toxicology e envolveu a colocação de nanopartículas na traqueia dos animais. Stapleton disse que o número de partículas usadas foi estimado em 60% do número ao qual uma mãe humana seria exposta num dia.

Vinte e quatro horas após a exposição, o peso dos fetos foi em média 7% menor do que nos animais do grupo de controlo, e o peso da placenta era 8% menor.

Stapleton considera que agora é necessário fazer mais investigações sobre este assunto: “Este estudo responde a algumas questões e abre outras questões. Agora sabemos que as partículas são capazes de atravessar para o compartimento fetal, mas não sabemos se elas estão alojadas lá ou se o corpo apenas as bloqueia lá, não havendo toxicidade adicional. ”

Maria João Caetano