Prever o futuro fascina a humanidade desde sempre. A capacidade de antever grandes acontecimentos, sejam eles políticos, económicos ou desportivos, tem, inegavelmente, várias vantagens. Mas há mesmo pessoas que são capazes de prever o que vem aí? Para muitos, isso só acontece nos filmes, mas para Philip E. Tetlock, que estudou o assunto durante cerca de 20 anos, sim, é possível na realidade. Segundo o investigador canadiano, há pessoas que conseguem prever o futuro, a quem chamou de “supervisores”.

“A ciência das previsões é probabilística. Não há certezas absolutas, mas podemos chegar a fortes probabilidades”.

As palavras de Philip E. tetlock foram ouvidas, esta quarta-feira, na Universidade de Lisboa, no âmbito da conferência “A Ciência das Previsões”, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O cientista social da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos, considera que, hoje, não só é possível fazer previsões com alguma segurança, como essas previsões podem ser melhoradas.

Então por que razão as sondagens no Reino Unido não previram o Brexit? E por que é que nos Estados Unidos não previram a vitória do republicano Donald Trump?

O professor responde: porque a maioria dos analistas e consultores profissionais baseia as suas previsões em possibilidades, não em probabilidades, daí que utilizem expressões tão vagas como “pode acontecer”, “talvez venha a acontecer”. O seu grande poder está não na capacidade de prever os acontecimentos, mas na capacidade de os explicar depois de terem acontecido.

Mas atenção, o fenómeno está longe de ser recente. “2016 foi um ano interessante, as previsões sobre o Brexit e Donald Trump falharam, mas 2016 não foi um caso único”, sublinhou Tetlock para depressa o demonstrar com um exemplo ilustrativo.

“Meses antes da Perestroika, ninguém previa que a URSS se dissolveria. Meses depois, todos tinham explicações para isso”.

Apesar dos falhanços dos analistas, há pessoas que conseguem fazer “supervisões”, batendo, muitas vezes, estes "especialistas do futuro". Esta foi a conclusão de um projeto de investigação, que durou cerca de 20 anos e juntou dezenas de milhares de pessoas, chamado Good Judgment Project. 

O estudo serviu de base para o livro "Supervisões - A arte e a ciência de antecipar o futuro", escrito em conjunto com o jornalista Dan Gardner, que agora também tem a sua versão em português.

Estes "supervisores" são pessoas que reúnem um determinado conjunto de características: aquilo que o investigador considera ser uma "inteligência fluída", isto é, que responde a padrões de reconhecimento, a capacidade de pensarem e expressarem-se através dos números e ainda uma mentalidade de crescimento, um conceito que em inglês se designa por "cognitive growth mindset" e que tem a ver com a capacidade de treinar e desenvolver as capacidades cognitivas. 

Mas, se não somos " supervisores", há alguma fórmula mágica para prever o futuro? Não, mas há práticas metódicas que ajudam a melhorar as previsões.

“As pessoas dizem que o mundo é de tal forma complexo, imprevisível, que é impossível prever o futuro. Mas estou a falar de melhorar previsões a curto prazo. É possível fazer previsões a uma certa distância”.

A ideia passa, desde logo, pela análise de dados concretos e objetivos. O professor deu um exemplo: “Imaginem um casamento. A uma dada altura alguém pergunta quanto tempo acham que noivo e noiva vão ficar juntos. Há uma pessoa que dá uma resposta baseada naquilo que sente, na altura, e depois há outra que vai recolher dados concretos sobre os divórcios em casais daquela faixa etária, naquela região, etc.”

O que se passa hoje em dia, considerou, é que as pessoas “gritam” previsões sem analisarem as coisas “de forma específica”. Por isso, deixou um conselho: “As pessoas tornam-se mais razoáveis quando, em vez de simplesmente 'gritarem' as suas previsões, medirem a sua validade com dados objetivos”.

 
Sofia Santana