Há inúmeros telemóveis, tablets, câmaras, computadores. Toda a gente parece estar munida de gadgets, vários gadgets. Ao nosso lado, um grupo de mulheres fala num idioma que não conseguimos identificar. Mas poucos minutos bastaram para perceber que o inglês é a língua que domina na sala. São milhares de pessoas. E de vários países do mundo. Ao fundo, há um grande painel sob um palco de luzes elétricas que indica ao que viemos: é o primeiro dia da Web Summit, a conferência de tecnologia que se realiza pelo terceiro ano consecutivo em Lisboa. 

A cerimónia de abertura da Web Summit decorreu esta segunda-feira e, apesar da chuva e do frio, o recinto da Altice Arena, no Parque das Nações, esteve praticamente lotado.

É apenas o primeiro dia, mas não há tempo a perder: muitos participantes recorreram à criatividade para destacarem os seus projetos, uns de forma mais ou menos discreta – vimos bonés ou camisolas com nomes em letras gordas –, outros de um modo menos convencional – como um participante que se fez notar vestido com um fato de licra verde.

Seja como for, há uma ideia que se percebe de imediato: as pessoas estão aqui para se conhecerem e para se darem a conhecer.

Ora, esta premissa de uma conexão entre pessoas, projetos e empresas atravessa todo o conceito do evento. O próprio fundador da Web Summit, o irlandês Paddy Cosgrave, fez questão de o assinalar no seu discurso de abertura.

A Web Summit é sobre vocês, é sobre vocês encontrarem-se uns aos outros, conectarem-se uns aos outros”, sublinhou.

Cosgrave subiu ao palco depois da exibição de um pequeno vídeo de apresentação sobre Lisboa, que evocou imagens emblemáticas da capital, mostrando os jovens artistas que impulsionam o ritmo da cidade.

Se esta é a vossa primeira vez em Portugal deixem-me dizer-vos que não vai ser a última”, vincou.

A deixa serviu de mote para o fundador da Web Summit recordar o acordo estabelecido com o Governo e a Câmara de Lisboa, que definiu que a conferência se vai realizar na capital portuguesa durante os próximos dez anos.

Este é o “maior encontro de empreendedores do mundo”, Cosgrave faz questão de assinalar. 

Mas antes de qualquer outra coisa, esta conferência trata de tecnologia. E a tecnologia está a mudar o mundo.

 A tecnologia está a mudar a forma como funciona a sociedade, a política, a vida em si”, lembrou o irlandês.

A forma como a tecnologia está a mudar o mundo e os desafios que, cada vez mais, impõe à sociedade atual foram os principais temas que marcaram este primeiro dia de Web Summit. Pelo palco da Altice Arena passaram diferentes personalidades como o "pai da Internet", Tim Berners-Lee, o realizador Darren Aronofsky e o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

 

Os desafios e os riscos da Internet

Tim Berners-Lee, o homem que criou a Internet, foi dos primeiros oradores a subir ao palco da Altice Arena ao final da tarde desta segunda-feira para falar das “coisas boas que aconteceram” e das “muitas coisas que correram mal” na era da Internet.

O "pai da Internet" mostrou a sua preocupação em questões como a privacidade e a segurança online, fazendo referências às fake news e à manipulação da informação.

É preciso proteger a Internet", notou.

Tim Berners-Lee não tem dúvidas de que para proteger a Internet e para haver um maior sentido de responsabilidade na utilização que se faz dela, é preciso criar um "contrato para a web".

Por isso, apelou aos participantes, às empresas e aos governos que reúnam esforços nesse sentido.

Temos de criar um contrato para a ‘web’. […] E esse deve ser um contrato com vários princípios para as pessoas se juntarem. Por isso, estou a pedir a vossa ajuda, seja através da vossa empresa ou por vocês próprios”, assinalou. 

A preocupação com os riscos que decorrem da utilização da Internet foram também abordados, mais tarde, pelo secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres. 

Guterres apontou a utilização da Internet pelos governos como forma de repressão e para controlo da população. Falou ainda sobre a forma como a web está a amplificar ideais populistas e a promover o discurso do ódio.

É preciso criar filtros para bloquear discursos de ódio que incendeiam as sociedades."

O líder da ONU apelou a esforços conjuntos, que unam empresas e governos, para a criação de mecanismos que permitam uma utilização da Internet guiada para "o bem".

"Precisamos de criar plataformas com governos e empresas para que juntos possamos encontrar maneiras de discutir, de encontrar protocolos e mecanismos que levem a que as tecnologias sejam usadas para o bem", acrescentou.

E numa altura em que movimentos como o #MeToo têm colocado em destaque a igualdade de género, a importância das mulheres no universo tecnológico foi outro dos pontos em destaque.

"Precisamos de mais mulheres na tecnologia", vincou Jacqueline Fueller, uma das vice-presidentes da Google 

 

As boas-vindas de Costa e Medina

A cerimónia de abertura da Web Summit encerrou com as intervenções do primeiro-ministro, António Costa, e do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, que deram as boas-vindas aos participantes.

Costa apresentou Portugal como "um país aberto, que recebe pessoas de vários países do mundo, que acredita na inovação como um engenho do progresso", um país "curioso" desde o tempo dos Descobrimentos.

Conectar pessoas de todo o mundo está no nosso ADN", frisou.

As honras feitas pelos governantes portugueses terminaram com uma explosão de confetis. Mas o evento prolongou-se noite fora, a julgar pelos grupos que se juntaram na zona dos bares do Parque das Nações. Porque, afinal, um dos principais objetivos da conferência é aproximar pessoas e promover ligações entre elas.

Está aberta a Web Summit. O evento decorre até quarta-feira e a organização espera mais de 70 mil participantes, de 170 países.