Um dos mistérios mais intrigantes no entendimento da ação do novo coronavírus no corpo humano tem sido a razão pela qual a Covid-19 está associada à perda de olfato - um sintoma que afeta entre 25 a 50% da população infetada.

Este sinal de alarme tem sido útil para as autoridades de saúde na descoberta prematura de casos de infeção. Estudos sobre o diagnóstico da Covid-19 mostram como a perda de olfato é vinte vezes mais precisa a identificar o vírus do que a febre, a tosse ou o corrimento nasal, muito porque estes sintomas são comuns a outras doenças.

Após uma infeção por  SARS-CoV-2, a perda de olfato e paladar difere bastante daquela que está associada à maior parte das constipações: um nariz congestionado pode degradar a capacidade de cheirar, mas normalmente não afeta o paladar.

 

 

Nos casos em que o vírus provoca a perda profunda do olfato, a recuperação pode demorar meses. A razão por trás disto, pensava-se, era que o novo coronavírus provocava a destruição dos neurónios sensoriais, que demoram bastante tempo a regenerar.

No entanto, cientistas da Universidade de Harvard, observaram que a perda aguda destes sentidos é restabelecida passada algumas semanas e não meses. Isto sugeriu que a patologia nestes casos pudesse ser diferente.

Partindo desta premissa, uma equipa coordenada por Sandeep Robert Datta, da Harvard Medical School começou a investigar “indiretamente” as patologias responsáveis pela perda do olfato pós-infeção. 

Em vez de monitorizar a infeção do próprio vírus, os especialistas procuraram determinar quais as células do tecido olfativo que continham os dois genes utilizados pelo vírus para entrar no sistema respiratório: a proteína ACE2, que serve como receptor, e a proteína TMPRSS2, que faz com que, antes da entrada viral, a proteína do vírus esteja no seu pico.

Os resultados foram inesperados. 

Os neurónios olfativos - responsáveis por detectar os produtos químicos que produzem a sensação de odor - não registavam nenhuma das proteínas encarregadas de fazer entrar o vírus. Esta conclusão levou os cientistas a afirmar que é pouco provável que os neurónios sejam infetados após a exposição ao novo coronavírus.

Antes, as células que circundam e apoiam os neurónios olfativos - células sustentaculares - expressam ambas as proteínas, tornando-se alvos “fáceis” do vírus.

 

 

Identificação das células sustentaculares que envolvem os neurónios sensoriais do paladar

 

Segundo o estudo publicado esta terça-feira na revista Science Advances, é a infeção destas células sustentaculares que estará por trás da perda transitória do olfato.

As células sustentaculares também têm a capacidade de se regenerar mais rapidamente do que os neurónios, explicando assim o porquê da capacidade olfativa ser reposta passadas algumas semanas da infeção.

William A. Haseltine, professor de saúde pública na Universidade de Harvard, disse à revista Forbes que as conclusões deste estudo desvendam um pouco do véu daquilo que é a ação do vírus no sistema respiratório, mas que “são baseadas em observações indiretas” e, por isso, carecem de amostras de tecido infetado que mostrem que o vírus realmente se replica em células sustentaculares.

O estudo lançou respostas, mas continuam a persistir perguntas no seio da comunidade científica. Fica por explicar se a perda do paladar é causada pela danificação dos neurónios receptores ou, como no caso do olfato, a perda do sentido do sabor está ligada aos estragos provocados nas células sustentaculares.