Cientistas e especialistas em saúde pública estão a seguir de perto a disseminação de uma variante do novo coronavírus que se acredita ter tido origem na Índia.

O país foi mesmo adicionado à "lista vermelha" do Reino Unido - da qual Portugal já fez parte - de viagens internacionais, em resposta à crescente preocupação com os enormes volumes de casos lá.

Mas até que ponto devemos ficar preocupados com esta nova variante e o que pode significar para o progresso do combate à pandemia?

A nova variante

A variante, conhecida como B.1.617, foi classificada como uma "variante sob investigação" pela Public Health England (PHE), o sistema nacional de saúde britânico, à medida que os investigadores estão a adquirir e a coleccionar mais dados.

Ainda não é formalmente considerada tão grave como as variantes brasileiras ou sul-africanas, cuja PHE classifica de "variantes preocupantes".

No entanto, esta estirpe tem uma mutação dupla que pode fazer com que o vírus evite mais facilmente a resposta imunológica do corpo - incluindo aquela produzida pela vacina. 

Porém, esta informação ainda não foi concretizada em termos científicos. Na verdade, George Eustice, secretário do governo do Reino Unido, disse que os primeiros dados sugerem que a B.1.617 não se tem disseminado de forma rápida.

Disseram-me que não há evidências, de momento, que esta variante em particular seja capaz de contornar a vacina ou que seja necessariamente mais contagiosa do que as outras - mas estamos a examinar isso", disse o governante à Sky News.

 

Potencialmente mais perigosa

A variante indiana consiste em duas mutações na proteína spike do vírus. Esta proteína, para além de dar o nome ‘corona’ ao vírus, permite a invasão no nosso corpo. 

Esta mutação possibilita que o vírus se espalhe rapidamente pelo corpo e escape de anticorpos produzidos pelo sistema imunológico ou desenvolvidos como resultado de uma vacina.

Especialistas afirmam ainda que existe o risco de que as pessoas que tenham recuperado de uma infecção por Covid-19, ou que tenham sido vacinadas, não consigam resistir tão facilmente contra esta nova variante.

 

Que mutações tem a variante?

As mutações encontradas na variante indiana são identificadas como a E484Q e  a E484K.

São mutações conhecidas, ademais, em outras variantes, tendo já sido identificadas na estirpe de Manaus e na sul-africana. 

Em alguns casos, foram mesmo detectadas na variante britânica, a B.1.1.7.

Maria Van Kerkhove, especialista da OMS, afirma que as mutações detetadas apresentam algumas semelhanças com outras já registadas e que podem causar mais infeções e, em alguns casos, “podem reduzir a neutralização, o que pode ter impacto em medidas como as vacinas”.

A especialista disse que a OMS está a trabalhar com a Índia e outros países para aumentar o sequenciamento genético no mundo e detetar e avaliar as variantes de interesse e as consideradas "preocupantes".

Esta nova variante foi descoberta através da ação do INSACOG, um consórcio de dez laboratórios nacionais que tem estado a traçar a sequência genómica do vírus, com o intuito de mapear todo o código genético do SARS-CoV-2.

O código genético do vírus funciona como um manual de instruções. As mutações dos vírus são comuns, mas a maioria delas são insignificantes e não causam nenhuma alteração na sua capacidade de transmitir ou causar infecções graves. 

Porém, algumas mutações, como as das variantes do Reino Unido ou da África do Sul, podem tornar o vírus mais infeccioso e, em alguns casos, ainda mais mortal.