Há várias análises que dão conta que Portugal é um dos países com mais casos de covid-19 por milhão de habitantes. Em alguns dias, o nosso país foi mesmo o líder desta negra tabela.

Ao contrário de outros países, nomeadamente da Europa, é notório que Portugal atravessa uma fase de grande crescimento da pandemia, seja pelo relaxamento ocorrido pela altura do Natal, pela reação pouco dura ao confinamento ou pela prevalência da nova variante detetada no Reino Unido, que se diz poder ser até 70% mais contagiosa que a mutação original do SARS-cov-2.

A par de Portugal, no que diz respeito a estes dados, tem estado Israel. Os dois países têm uma coisa em comum: fazem muitos testes, mais do que a grande maioria dos Estados-membros da União Europeia ou do que os Estados Unidos. E, com mais testes, é natural que haja mais casos detetados.

Analisando aquilo que são os dados das últimas quatro semanas (últimas duas de 2020 e primeiras duas de 2021) do Centro Europeu para o Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC, na sigla original), Portugal é o país que mais testa quando comparado com Espanha, Itália ou Alemanha, andando lado a lado com França.

Segundo o Centro de Controlo de Doenças dos Estados Unidos (CDC), o número de testes feitos por milhão de habitantes é também muito inferior aos números de Portugal, como explicamos mais à frente.

Os dados analisados pela TVI24 mostram que o nosso país testa mais que os outros referidos, e esse será, certamente, um fator-chave para que o número de casos por milhão de habitantes seja tão superior.

O seguinte gráfico mostra o número de testes feitos por milhão de habitantes em alguns países:

Convém explicar que a realidade não é a mesma quando comparamos com os países mais pequenos. Parece haver uma natural tendência, inversamente proporcional, na relação entre o número de testes feitos e a população do país. Com efeito, verifica-se que, por norma, quanto menos habitantes tiver um país, maior é o seu rácio de testagem.

O melhor exemplo é o da Dinamarca. Com pouco menos de seis milhões de habitantes, é o país que mais testa em todo o mundo.

Nas últimas quatro semanas, fez entre 92 mil e 110 mil testes por milhão de habitantes. O mesmo é dizer que, em termos absolutos, a Dinamarca fez cerca de 2.350.000 testes, equivalente a um terço de toda a população.

A ajudar o país está a baixa taxa de infeção. Durante o mesmo período, a semana em que se verificou uma maior percentagem de positividade foi a primeira, em que apenas 3% dos testes deram resultado positivo.

Nenhum outro país da União Europeia está perto destes números. Os únicos que se aproximam são Grécia, Luxemburgo ou Malta.

É este um dos dados que preocupa Portugal, e é aqui que se explica como pode o país estar com um cenário tão negro. Sendo verdade que faz muitos testes, também o é que a taxa de positivos está bastante elevada. Juntam-se os dois dados principais para que se verifique a situação atual.

Não sendo, nem de perto, o pior caso da União Europeia, Portugal registou nas últimas quatro semanas índices de positividade entre os 9% e 18%, ficando a média dessas quatro semanas nos 14,75 testes positivos por cada 100 realizados. A Roménia, por exemplo, teve uma semana com 33% dos casos positivos.

Refira-se que Portugal registou uma clara tendência de crescimento nas quatro semanas analisadas, tendência essa que foi acompanhada por uma subida de testes, bem como por um aumento da taxa de diagnósticos positivos.

Nas últimas semanas de 2020, Portugal fez perto de 460 mil testes, os quais revelaram mais de 57 mil casos da doença. Nessas duas semanas, a taxa de testes positivos foi de 9% e 15%, respetivamente.

São as duas semanas seguintes que originam a atual situação em que estamos, e que parece agravar-se ao longo da semana que agora termina.

Nas duas últimas semanas analisadas, registaram-se mais 124 mil casos de covid-19. Todos os fatores ajudaram neste sentido: efeito dos contágios do Natal, nova variante inglesa, aumento da testagem (passámos de 460 mil testes em duas semanas para mais de 703 mil num período equivalente); o indíce de positividade passou de 9% e 15% para 17% e 18%.

Há mais casos positivos por causa da nova variante, mas também por causa do período das Festas, hipótese reforçada pelo ECDC, que atribui o “aumento notável” de casos em Portugal ao relaxamento de medidas durante o Natal.

Diferença na proporção?

Importa perceber quais os verdadeiros efeitos que uma semelhante força de testagem teria em diferentes países. Por exemplo, com a mesma proporção de testagem que Portugal, Alemanha ou Itália poderiam estar a contabilizar número de contágios proporcionalmente semelhantes aos do nosso país.

O gráfico seguinte mostra a relação entre os dados oficialmente reportados e os resultados obtidos com a proporção da testagem portuguesa.

Na primeira semana de 2021, por exemplo, a Alemanha teria reportado 326.469 casos, em vez dos 145.511 oficialmente notificados.

Haveria situações em que o índice de positividade faria com que Portugal tivesse sempre mais casos, à proporção. Mas em relação à Alemanha, por exemplo, esse fator não se aplica. Testando menos que Portugal nas duas semanas finais de 2020, o país de Angela Merkel teve uma maior taxa de casos positivos.

Faça-se então a ressalva que, além do número de testes realizados, é natural que o indíce de positividade tenha uma grande influência nos casos reportados. Haverá casos para todas as análises: a Roménia testa menos e tem taxas de positivos superiores a 30%, enquanto a Dinamarca testa mais e não passa dos 2/3%.

Já em relação à diferença para os Estados-membros que nos são similares, destacamos novamente a Dinamarca. Com uma capacidade de testagem ímpar no mundo, é naturalmente um exemplo à parte.

Mas países como a Áustria (que não vai além dos 18508 testes por milhão de habitantes nessas quatro semanas), a Bélgica (26270) ou a Suécia (22690), que têm uma população semelhante à de Portugal, testam todos menos do que nós, como mostra o gráfico que se segue.

António Guimarães